A educação básica no Estado de São Paulo passa por um dos piores momentos de sua história. A afirmação é de Cláudia Fiori Guilherme, 26, doutora em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara, entrevistada pelo Comércio na semana em que jornal mostrou o drama de alunos de Franca, exemplificado pelo estudante TJB, da 7ª série, que não sabem ler nem escrever.
A professora Cláudia sabe do que está falando. Sua tese de doutorado teve como tema a progressão continuada, sistema educacional adotado pelo governo paulista em 1998, cuja maior propaganda é acabar com a repetência e evasão escolares.
De certa forma, elas acabaram mesmo. Mas o custo social disso está estampado no rosto e nos prontuários de 500 crianças e adolescentes de 7 a 14 anos que formam, apenas em Franca, o contingente de ignorantes que, sabem muito bem a família e os professores, pode nunca chegar a lugar algum, não por não saber interpretar um texto, mas, tal qual um ocidental diante de um ideograma japonês, por não conhecerem letras ou números.
O caso de TJB está longe de ser exceção. O aluno da escola “Júlio César D’Elia”, no Jardim Aeroporto, não entende nada do que copia e mal consegue escrever o próprio nome. Reclassificado para a 7ª série, depois de cursar a 5ª no ano passado, o estudante não poderia estar nem na quarta. Para a técnica da Secretaria de Educação em São Paulo, Sônia Jorge, a “promoção” do garoto foi um erro. “É preciso saber o que está acontecendo, porque uma criança não pode chegar ao final de um ciclo sem ler”, chegou a dizer um dia antes de a dirigente de ensino de Franca, Ivani Marchezi, contratar uma psicopedagoga para cuidar de TJB.
A iniciativa, entretanto, não soluciona o problema. Para as dezenas de crianças e jovens que estão na mesma situação, não há saída. Ao menos por agora. Para a doutora Cláudia Guilherme, a progressão continuada enfrenta problemas no Estado de São Paulo porque sua implantação veio por decreto, pelo então governador Mário Covas (PSDB). Em outros Estados, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina, apresenta bons resultados. Alguns países adotam o sistema há mais de 20 anos.
“Não é uma proposta pedagógica ruim, pelo contrário. As pessoas que a idealizaram têm uma concepção de como se aprende, e que esse processo é contínuo, não podendo ser seriado”, afirmou a professora. Trocando em miúdos, para os entendidos no assunto o aprendizado não pode ser limitado por um ano escolar em que o conteúdo deva ser cumprido, e pronto. Para essas pessoas, o conhecimento é cumulativo e passa de um ano para o outro.
Em Porto Alegre, a progressão continuada foi um evento adotado paulatinamente, do qual participaram os pais e os professores. Em São Paulo, diz a doutora, os educadores não conseguiram assimilar os fundamentos de um programa que extingue as séries escolares, transformando o ensino básico em um grande ciclo de oito anos. Sem saber muito o que fazer, professores estão deixando os alunos seguirem seu próprio ritmo, não intervindo nos erros, não acompanhando o desenvolvimento como deveriam, banindo tudo o que representa o sistema tradicional de ensino.
“Acho mesmo que os professores devem lidar com a função social da escrita, mas hoje desapareceram as cartilhas, sumiram as tabuadas”, disse Cláudia Guilherme. “Colocam uma musiquinha e acham que a criança vai aprender. Caso não aprenda, o problema será do professor do ano seguinte”.
A repetência que apavorava alunos antigamente não deve voltar, porque, em sua opinião, não é banindo da sala de aula quem não aprende que as coisas melhoram. A saída, segundo ela, está na formação e capacitação do professor. “Quem está dando aula precisa conhecer as novas formas de ensinar”, afirmou. “Mas, em São Paulo, professores foram apresentados para o novo e não sabem como lidar com isso”.
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