TJB tem 14 anos e está matriculado na 7ª série da Escola Estadual “Júlio César D’Elia”, no Jardim Aeroporto, em Franca. Ele deveria ser capaz de elaborar redações, cálculos de média complexidade. Não consegue. Sequer, entende o que escreve. Na penúltima etapa do ensino fundamental, o aluno pode ser considerado analfabeto. Ele não é exceção. Cada vez mais crianças e adolescentes avançam nos estudos, amparados pelas diretrizes da progressão continuada, projeto educacional adotado pelo Governo do Estado de São Paulo em 1998 que dificulta a repetência ano a ano.
O efeito colateral mais direto desta política pode ser exemplificado pelo caso do estudante do Jardim Aeroporto. TJB, mais que a dificuldade de aprender ou raciocinar, tem medo da escola, ambiente que considera inóspito e hostil. A aversão é tanta que chega a ter dor de estômago e ânsia de vômito antes e durante as aulas. “Seu eu pudesse, não iria para a escola”, diz o garoto.
Com esse quadro, seria admirável que aprendesse alguma coisa. Mais admirável, no entanto, é perceber que durante todo o tempo seu problema nunca foi notado pelos professores que tiveram a missão de ensiná-lo, exceto uma que não dá aulas para TJB.
Simone Faleiros é professora de Língua Portuguesa. Na “Júlio César D’Elia” teve contato com o problema do garoto quase por acaso, quando corrigiu uma redação que ele fez para o Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo). “O caso do garoto é grave e digno de estudo”, disse a professora Simone, que hoje leciona em outra escola de Franca. Foi ela quem o encaminhou para a Clínica de Psicopedagogia da Unifran (Universidade de Franca), que realiza sessões de estudo e terapia com o aluno desde o ano passado.
A redação era incompreensível. O Comércio teve acesso à prova. Em 27 linhas, nenhuma palavra é plenamente identificável. Seja lá o que o garoto tenha tentado dizer, nem mesmo soube falar. A reportagem pediu para que ele lesse o que estava escrito, ficou mudo e de cabeça baixa. TJB teve reação semelhante após o pedido para que lesse em voz alta o texto escrito ontem em seu caderno e vistado pela professora.
O caso de TJB é um entre muitos. Numa rápida consulta, o Comércio da Franca encontrou pelo menos cinco casos com maior ou menor identificação entre si, mas todos com as mesmas características: os alunos passam de ano, entram nas séries seguintes, mas não lêem e não escrevem. No círculo vicioso que se segue, são marginalizados, estigmatizados como preguiçosos e desinteressados, muitas vezes pelos próprios professores, que, no entanto, deveriam por experiência ou dever de ofício ajudá-los, mas, ao contrário, ignoram o problema, colaborando direta e indiretamente para o aumento do fosso social e para a formação de subcidadãos.
Alguns professores e diretores ouvidos pelo jornal não aparentam conforto com situações como essa. “As crianças precisam de ajuda e o Estado não oferece”, disse uma coordenadora de ensino, explicando que a presença de assistentes sociais, fonoaudiólogas e psicólogas na área da Direção Regional de Saúde resolveria muito do problema.
A grande queixa de professores e educadores recai sobre a perversidade de um sistema que coloca no mesmo bojo quem sabe, quem sabe mais ou menos e quem não sabe nada. “Não há tratamento diferenciado; o negócio da Secretaria de Educação é fechar a estatística, é fazer número”, denunciou uma professora, que pediu para não ser identificada.
Sem se dar conta, o estudante TJB é penalizado seguidamente pela política educacional do governo do Estado. Primeiro porque não consegue encontrar alguém que o ajude a reconhecer na escola pública o papel que esta deveria representar para ele. Segundo, porque, como tem 14 anos, foi obrigado pela mesma política a ser reclassificado em seus ‘estudos’; em 2005, cursou a 5ª série, mas começou 2006 na 7ª. Em quatro anos, portanto, deveria ter o direito a prestar um vestibular.
A reportagem procurou pela dirigente de ensino de Franca, Ivani Marchesi, mas não conseguiu falar com ela. A Secretaria de Educação, por sua vez, informou, através de sua assessoria de imprensa, que se manifestará hoje depois de ler a matéria publicada pelo Comércio. Privilégio que TJB, na 7ª série, não terá.
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