Um casal vizinho da adolescente TMS, de 12 anos, acusada pelos próprios pais adotivos de tentar envenená-los na última quinta-feira, denunciou que a garota sofria maus-tratos do pedreiro DBS, 46, e da dona de casa ALMS, 47, que a criam desde os quatro anos de idade. Segundo os dois, que já receberam a garota em casa anteriormente, depois de desentendimentos entre ela e seus pais, TMS era espancada, obrigada a fazer serviços pesados e até a “comer comida estragada”.
A denúncia partiu do cortador Edivaldo Ribeiro, 36, que freqüenta a mesma igreja que os pais adotivos de TMS, no Jardim Palmeiras, zona oeste de Franca, e também mora próximo à família. Segundo ele, os conflitos entre a adolescente e os pais eram constantes.
No último Carnaval, após mais um desentendimento, TMS ficou quatro dias sob a responsabilidade do casal. “Ela é maltratada e judiada. Todos os vizinhos sabem disso. Nos dias em que ficou comigo, não queria comer feijão e minha esposa quis saber o motivo: a menina disse que era obrigada a comer feijão estragado em sua casa”, contou Edivaldo.
A mulher de Edivaldo, APR, 37, disse que TMS era espancada com freqüência pela mãe. Segundo ela, o pai não batia, mas também não se incomodava com a situação. “Ela (a mãe) pegava a menina e batia com a cabeça dela da parede. Catava a menina e jogava longe. Agora que não tem mais força, joga o rodinho nela, pegue onde pegar”, disse indignada à reportagem, na tarde de ontem.
Como seqüela dos eventuais abusos, a garota reclamava de fortes dores nos braços. Para APR, isso seria conseqüência de trabalho forçado. “Nem o cabelo ela conseguia pentear. Disse que era por ter quebrado uma pia de concreto para arrumar um cano”. Ainda de acordo com APR, era comum TMS ser colocada para fora e não ter onde passar a noite. “Ela vinha para minha casa e dormia aqui. Falava que a mãe tocava ela de casa. Não tinha como a deixarmos na rua. Chamamos o Conselho Tutelar, mas depois ela voltou para lá”.
O pai disse à reportagem, no sábado, que corrige sim a menina, mas nega todas as acusações de violência. Para ele, a garota está perturbada espiritualmente e emocionalmente. APR discorda. “Não tem desvio espiritual. É uma criança normal. Só tem traumas daquele povo (pais adotivos)”. E desmente também que a menina ficava até tarde na rua, conforme reclamou seu pai. “Não chegava tarde em casa, não. Ela só ia na igreja. Chegava da escola às 16h30 e nem na rua nós a víamos”.
Perguntada se assumiria a guarda de TMS, mesmo com a séria acusação dos pais adotivos contra a adolescente, a dona de casa não pensou duas vezes. “Se um dia ganhar a guarda dela, pego tranqüilamente”.
O destino de TMS, agora, depende da Justiça. O processo será encaminhado pelo Conselho Tutelar ao Ministério Público, que o analisará, mas não pode fornecer mais detalhes. “Está (o processo) resguardado pelo segredo de Justiça”, disse o promotor da Infância e Juventude, Augusto Arruda Neto.
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