Eles preferem a noite ao dia, sentem satisfação em estar ao lado dos mortos, vestem-se de preto e os cemitérios são seus pontos de encontro. Canções com metais pesados, interpretações guturais e letras que tratam de suicídio, dor e ódio embalam suas festas, mesmo assim, muitos preferem levar uma vida reclusa, introspectiva, sem muito papo. Apesar da semelhança com vampiros, não têm aversão a crucifixos e objetos sagrados; pelo contrário, usam-nos em abundância e exageros de tamanho. E, ao contrário do que pensam, eles não são maus nem gostam de confusões. Eles são os góticos de Franca. Jovens comuns - garotos e garotas - que levam uma vida igual a todo mundo, mas são dife- rentes no modo de pensar, vestir e agir.
Segundo historiadores, “o estilo gótico surgiu na cena pós-punk dos anos 80 com bandas como Joy Division, Sisters of Mercy, Bauhaus, The Cure, entre outras. O termo define um estilo arquitetônico medieval de igrejas dos séculos 12 a 15 na Europa. Durante a Idade Média, a invasão de povos bárbaros (godos) influenciou a arte européia com imagens de monstros como as gárgulas e os vampiros, por exemplo. Daí os góticos tiraram o gosto pelo sinistro e uniram ao ideal romântico de viver, o sofrimento por amor, o interesse pelo além, etc.”
Isso explica o gosto de Luciene Ferreira, 26, pelas imagens sacras e túmulos de cemitérios. Sua preferência “obscura” rendeu-lhe até apelido. Entre os amigos ela é mais conhecida como Vandinha, por causa da semelhança física com a personagem filha do casal Mortícia e Gomes Adams, do filme A Família Adams. Apesar de ter um guarda-roupas onde pelo menos 80% das roupas são pretas, a estudante não se considera gótica por inteira. Ela preserva sua fé católica em Deus, apesar de saber que todos acham o contrário. Seu estereótipo mal encarado, assim como o de seus amigos, parece ter sido copiado de filmes de terror.
E é mais ou menos para causar esta impressão que os góticos ou neogóticos agem assim. “Não queremos ser iguais aos outros. Apesar de ficarmos uns bastante parecidos com os outros, somos minoria e, por isso mesmo, conseguimos nos manter longe da cultura de massa”, diz ela.
Conversar sobre assuntos “mais profundos”, aliás, é o que difere os góticos de outros grupos. Luciene, seu namorado Leandro Vieira e seus amigos Zé Francisco, Felipe e Maisa, por exem- plo, habitualmente se encontram na Praça Carlos Pacheco, em frente ao Cemitério da Saudade.
Entre um bate-papo e outro, sempre rola um assunto ligado às questões do mundo, física ou até política. “Não se vira um gótico de uma hora para outra. A pessoa já nasce gótica”,completa Luciene “Vandinha”.
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