Providência divina


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O LADO BOM DA VIDA - Para o capitão Ferreira, os filhos, naturais ou adotivos, representam a maior alegria da vida: “Ver os casos de sucesso que passaram pelas entidades, a gratidão de uma pessoa ao receber um simples abraço, é
O LADO BOM DA VIDA - Para o capitão Ferreira, os filhos, naturais ou adotivos, representam a maior alegria da vida: “Ver os casos de sucesso que passaram pelas entidades, a gratidão de uma pessoa ao receber um simples abraço, é
Melissa Toledo<br />Correspondente em Batatais<br /><br />Advogado, capitão da reserva da Polícia, Francisco Ferreira Alves Neto, conhecido como Capitão Ferreira, foi eleito vice-prefeito de Batatais em 2000 pelo PDT numa dobradinha com o PT. Em 2002, dizendo-se sem o apoio do prefeito da época, Fernando Ferreira (PT), candidatou-se a deputado estadual. Não conseguiu ser eleito e renunciou ao cargo de vice-prefeito no ano seguinte. Disse estar investido de uma “missão maior” e passou a se dedicar intensamente à assistência social na cidade. Abriu mão, inclusive, do salário de vice-prefeito, de cerca de R$ 2.800 à época. Cumpriu dois mandatos como presidente da Comarev (Comunidade Auxiliadora Recuperando Vidas), fundada por ele em 1996 com o objetivo de recuperar pessoas viciadas em drogas e álcool. Pai de quatro filhos naturais, Ferreira adotou outros seis. Um deles com sérios problemas de saúde. Três já com mais de 15 anos quando adotados. Atualmente é coordenador geral da Comunidade Missionária Divina Misericórdia, fundada por ele em 2003. Trata-se de uma associação privada, sem fins lucrativos, cuja finalidade é acolher os moradores de rua, andarilhos e outros peregrinos, fornecendo-lhes abrigo, roupas, alimentação e assistência espiritual. Ferreira diz que a entidade é mantida pela “providência divina”. Pelo local já passaram pessoas de todos os Estados do Brasil e algumas de outros países latinos. Ao todo, são 1.011 pessoas constantes no livro de registros da Comunidade, que atende uma média de 25 pessoas por dia, mas já chegou a atender 80. O estatuto da associação proíbe a remuneração dos funcionários e não permite a realização de eventos para a arrecadação de fundos.<br /><br /><strong><em>Comércio da Franca - Como o senhor avalia a carreira militar?</em></strong> <br /><strong>Capitão Ferreira</strong> - Como algo muito bom. Saí de Santo Antônio da Alegria, onde a maioria das pessoas se contentava em trabalhar na lavoura. Tive a oportunidade de estudar, terminar o ginasial e o científico, e quando completei 17 anos fui para São Paulo para conseguir um emprego. Ingressei, com 18 anos, na Polícia Militar como soldado. Nunca fui de me acomodar. Já dentro da PM fiz cursos, fui aprovado no vestibular da academia e me formei oficial. Fiz faculdade de Direito. Fui aspirante, estagiário em Franca e trabalhei em Santos por seis anos. Então fui transferido para Franca, onde tive a felicidade de trabalhar com grandes policiais militares e desenvolver um trabalho muito bom, principalmente na área esportiva. Conseguimos montar equipes da PM de basquete, vôlei, futebol de salão, atletismo, com as quais conseguimos boas colocações em campeonatos. Quando promovido (a capitão), fui para Batatais. Posso dizer tranqüilamente que foi uma carreira positiva. <br /><br /><strong><em>Comércio - Como foi a passagem da polícia para a política?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - A política era um desafio, algo completamente diferente. Inicialmente disputaria o cargo de vereador, mas houve um convite para ser vice-prefeito. Fiquei com receio porque não queria partir para uma eleição e perder, o que acarretaria a minha transferência para outra cidade, dentro da PM, e eu não gostaria de sair de Batatais. Conseguimos a vitória e aí a aposentadoria da polícia é compulsória: todo militar que ingressa na política é aposentado. <br /><br /><strong><em>Comércio - O senhor disputará as eleições deste ano?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Este ano, se me chamassem para ser candidato, eu diria que não. Trabalhar para algum candidato também não é de meu interesse. No futuro eu não sei, depende de muitas circunstâncias. <br /><br /><strong><em>Comércio - Por que renunciou ao cargo de vice-prefeito?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Durante um retiro espiritual, em meio a um clima forte de oração, senti um chamado para desenvolver um trabalho social. Ouvia em meu interior uma voz que dizia: “entregue o que você tem de mais precioso aos olhos dos homens”. Naquele momento seria o cargo de vice-prefeito. Então eu imaginava comigo: “renunciar?”, “entregar o cargo?”. Havia acabado de adotar alguns filhos e, querendo ou não, eu tinha um salário, o compromisso político com as pessoas, mas realmente foi forte a decisão de abandonar e foi isso que fiz: renunciei ao cargo faltando um ano e dois meses para terminar o mandato. A partir de então me dediquei exclusivamente à minha família e ao trabalho com a comunidade. Não fiz outra coisa até hoje. Outro motivo foi o desgaste no relacionamento com a administração da época. Infelizmente, a administração foi para um lado que não gostei e como eu sempre expus minhas opiniões, começaram a me deixar de lado e passei a não ter acesso a absolutamente nada. Inúmeras vezes eles esperavam que eu saísse da prefeitura para fazer reuniões entre eles (o prefeito e os secretários). Muitas vezes eu chegava à prefeitura e, ao perguntar pelo prefeito, a secretária dizia que ele estava em Brasília ou São Paulo. Então foi ficando uma situação ruim, muito pesada. <br /><br /><strong><em>Comércio - E hoje, com é o relacionamento com essas pessoas?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Não consigo guardar raiva das pessoas. É claro, se tivéssemos que sair na política juntos de novo, eu não sairia porque a experiência não foi boa. Preferi sair para não me envolver com algumas coisas das quais  discordava. <br /><br /><strong><em>Comércio - A política lhe trouxe alguma decepção?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - A população civil se organiza, a exemplo das ONGs, e partindo do nada se consegue construir alguma coisa. Já o poder público tem verba e funcionários e emperra, não constrói. A falsidade e a mentira de muitos que estão envolvidos na política são terríveis, é uma grande decepção. <br /><br /><strong><em>Comércio - Por que criar uma entidade com o foco na recuperação de viciados em drogas?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Por estar sempre presente na igreja e trabalhar na PM, via que o maior problema social eram e são as drogas. Basta pegar os dados na polícia: em 70 a 80% das ocorrências há drogas no meio. As pessoas nos procuravam pedindo apoio e não tínhamos como oferecer. Então unimos um grupo de amigos e fizemos a ata de criação da entidade, dentro de uma igreja, em um domingo. Na segunda-feira eu estava no cartório para registrar e começamos a trabalhar. Hoje é uma realidade bonita, tem um escritório bem montado no centro da cidade, oito funcionários com a folha de pagamento em dia. Há psicólogos, assistentes sociais e é um orgulho. Depois de ter sido presidente por dois anos, hoje não tenho cargo, já que temos um outro trabalho social, a Comunidade Missionária Divina Misericórdia. <br /><br /><strong><em>Comércio - Qual é a principal missão da Comunidade Missionária Divina Misericórdia?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Na Comarev, a pessoa precisa querer fazer o tratamento, que dura nove meses. Já a CMDM trabalha em cima da doutrina da Igreja que diz sobre as “obras de misericórdia”, por isso o nome. As obras de misericórdia existem em dois planos: material e espiritual. “Dar comida a quem tem fome”, “dar roupa a quem precisa”, “dar cama a quem não tem onde dormir”, “visitar os doentes e atendê-los”, “enterrar os mortos com dignidade”, “visitar os presos nas cadeias”, todas essas obras fazem parte do plano material. Outra ação que a CMDM faz é a assistência espiritual, dentro do campo das obras espirituais, como dar aconselhamentos, ensinar os ignorantes, perdoar os que erram, entre outras. A grande diferença entre as entidades é que a Comarev tem como público- alvo os dependentes químicos. Já a CMDM não tem público-alvo; atendemos quem bate à nossa porta. É freqüente recebermos pessoas inconscientes, às vezes sujas, às vezes com feridas, com sarna, e acolhemos, damos banho, fazemos curativos, medicamos, cortamos o cabelo, a barba, damos comida e pouso. Esse é o nosso trabalho. <br /><br /><strong><em>Comércio - A CMDM é uma associação privada sem fins lucrativos. Como ela é mantida? Por que incluir no estatuto um artigo que proíbe a realização de eventos para a arrecadação de fundos?</em></strong><br /><strong>Capitão Ferreira</strong> - A CMDM é ligada à Arquidiocese de Ribeirão Preto. Tudo que é disciplina está dentro do código do direito canônico e optamos por viver da providência de Deus. Vivemos absolutamente de doações, comemos o que tem. Optamos por incluir no estatuto a proibição da promoção de eventos para arrecadação de dinheiro porque, se fizéssemos eventos, ao invés de estar na CMDM atendendo a quem precisa, estaríamos vendendo ingressos, preocupados em arrumar salão para baile e o foco seria desviado. Também somos proibidos de ter funcionários. Todo trabalho é desenvolvido por oito voluntários. <br /><br /><strong><em>Comércio - Recentemente o senhor inaugurou um bar. Não seria uma contradição?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Não. O bar foi inaugurado para os meus filhos. Eles queriam trabalhar e emprego está difícil. Quatro de meus filhos me pediram para montar alguma coisa e optou-se pela lanchonete. Lá são tomados alguns cuidados, como não colocar bebidas destiladas expostas e não se vender bebidas a pessoas visivelmente alcoolizadas. <br /><br /><strong><em>Comércio - Como foi a decisão de adotar seis filhos?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Quando vice-prefeito, fui nomeado titular da Secretaria da Família, que tem uma casa abrigo. Minha esposa, concursada da prefeitura, trabalha nela. Passamos a ver o sofrimento de crianças que queriam uma família e havia um caso especial de 3 irmãos, um casal de gêmeos com três anos e um garoto de 6, muito unidos entre si, que não conseguiam ser adotados, pois a juíza (Flávia Zanferdini) exigia que os três fossem adotados pela mesma família. A dificuldade era maior porque um dos gêmeos, o Maxwel, tem problemas sérios de saúde. Usa fraldas, não fala, não anda, quase não enxerga, já fez oito cirurgias e, na medida em que o mais velho crescia, as barreiras se tornavam maiores. Então decidimos adotar os três e hoje a maior alegria aqui, dentro de minha casa, é o Maxwel, com 6 anos. <br /><br /><strong><em>Comércio - E os demais?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Já na CMDM, Deus me presenteou com mais três filhos. Eles foram para a CMDM já praticamente adultos, mas sem referencial nenhum, e ficaram. Até que um dia um deles, com 19 anos, começou a me chamar de pai e perguntou se eu não queria ser pai dele. Então, reuni a minha família, todos concordaram e o adotamos. Como ele tinha uma irmã menor, de 17, que estava na casa abrigo prestes a sair, adotamos os dois. Ao mesmo tempo, havia um outro rapaz abandonado pela família, que também me chamava de pai e chorando veio me pedir para adotá-lo e eu disse: “vamos”. Já faz dois anos e é uma bênção. Hoje são dez filhos e somos uma família feliz. <br /><br /><strong><em>Comércio - O senhor pretende adotar outros?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Acho que o juiz não vai deixar (risos). Não digo nem que sim, nem que não. Sabemos, e os nossos filhos naturais compreenderam, que eles foram privados de uma série de coisas materiais. Se dependesse somente de mim e de minha esposa e aparecesse mais algum filho, adotaríamos. <br /><br /><strong><em>Comércio - Quais os próximos planos?<br /></em>Capitão Ferreira</strong> - Profissionais não tenho. A minha aposentadoria e o salário de minha esposa são investidos integralmente em nossa casa. Sempre digo que não quero nada de meus filhos, as contas da casa são todas pagas por mim e por ela. O que eles estão construindo é deles; sete dos dez trabalham. Quero continuar desenvolvendo o trabalho social.

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