<p><strong><em></em></strong>Vanessa Maranha<br />Especial para o Comércio</p>
<p><br />Depois de quase 50 anos trabalhando no Ensino Público, 12 dos quais dedicados à direção da Escola Estadual “Torquato Caleiro” (E.E.T.C.), com lágrimas nos olhos por todas as homenagens prestadas por colegas e alunos, Olinta Pereira Marcantônio se aposentou, no dia 11 de março, data, aliás, que marcou o seu septuagésimo aniversário. Ela diz que a saída é mesmo compulsória, pela idade, e que, se pudesse, ficaria mais um pouco para dar segmento aos projetos que implantou ao lado de sua equipe. Aliás, se propõe mesmo a isso, como voluntária, se seu sucessor permitir. Outro projeto seu de fôlego, este pessoal, é voltar à universidade para especializar-se em Direito Educacional. Mãe de quatro filhos, avó de três netos, sua vida é marcada pela Educação, tanto lecionando quanto dirigindo escolas - nesta última vertente, em mais de 25 anos em escolas de Franca e da região. Olinta, graduada em Geografia, Direito, Pedagogia e Ciências Sociais, entrega a batuta deixando uma escola de estatura em Franca, o E.E.T.C., uma das mais gabaritadas da Rede Pública local, possuindo hoje 1,9 mil alunos no Ensino Médio. Oferece cursos em seu Centro de Estudos de Línguas (CEL) para 1,2 alunos, além do programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), que congrega pelo menos 200 discentes, além de professores e funcionários que totalizam aproximadamente cem pessoas. A educadora destaca como um dos momentos mais marcantes em sua vida profissional o período em que lecionou na zona rural, no início da carreira. “A vontade que os pais tinham de que seus filhos aprendessem a ler e a escrever, a esperança que depositavam neles, desejosos de que não repetissem sua sina de analfabetos, adquirindo novas perspectivas de vida, eram tocantes. Não queriam deixar o analfabetismo e a miséria como legado aos seus filhos”. </p>
<p><strong><em>Comércio da Franca - Com que sensação a senhora recebe a aposentadoria?<br /></em>Olinta Pereira Marcantônio</strong> - Muito feliz. Às vezes me emociono, como você viu aqui, mas choro de felicidade, pelas homenagens. Não pensava, atropelada pelo dia-a-dia, que minha equipe, alunos e pais me estimassem tanto. Digo isso pelas bonitas homenagens que recebi. </p>
<p><strong><em>Comércio - A aposentadoria vem no momento certo ou seria melhor continuar?</em><br />Olinta</strong> - Se a lei que estipula os 70 anos como idade máxima no Ensino passasse para 75 anos, eu não digo que iria até lá, mas permaneceria por mais algum tempo, para completar efetivamente os 50 anos de magistério. </p>
<p><strong><em>Comércio - A senhora se dispõe a continuar trabalhando aqui como voluntária?</em><br />Olinta</strong> - É o que desejo, se a colega destacada para a direção da escola permitir. Gostaria de dar continuidade ao Grupo de Pais. A idéia é nos reunirmos com os pais dos alunos pelo menos duas vezes ao mês e aproximá-los da rotina escolar, envolvê-los no processo educacional. </p>
<p><strong><em>Comércio - Onde a senhora estudou?</em><br />Olinta</strong> - Vim de Rifaina para Franca aos 12 anos. Completei o ginasial no Colégio “Nossa Senhora de Lourdes”, passei para o “Torquato Caleiro” para fazer o Científico. Tinha muita vontade de ser professora e entrei na Escola Normal Livre “Dr. João Ribeiro Conrado”. </p>
<p><strong><em>Comércio - Como foi o início?</em><br />Olinta</strong> - Antigamente todos se começavam com aulas em fazendas. Comecei na Fazenda Santa Amália, em Cristais Paulista. Viajava numa jardineira e a cavalo até a Serra Jaborandi. Lecionei lá por 3 anos. De lá fui transferida para a Fazenda Floresta, na antiga estrada Franca-Batatais, onde trabalhei por 2 anos. De lá, fui para para a Fazenda Água Limpa, na mesma região, nas proximidades do Rio Sapucaí. </p>
<p><strong><em>Comércio - E o ingresso no Estado?</em><br />Olinta</strong> - Prestei concurso público e escolhi a Fazenda Fachini, em Cristais Paulista. Voltei para a Água Limpa. Depois de 8 anos consegui remoção para Ribeirão Corrente. </p>
<p><strong><em>Comércio - E quando veio para Franca?</em><br />Olinta</strong> - Já era efetiva no Estado, vim para o “Torquato Caleiro”, prestei concurso para administrador escolar, passei e entrei. Concomitantemente, entrei na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras e me formei em Geografia. </p>
<p><strong><em>Comércio - Quais as grandes transformações na Educação que presenciou?<br /></em>Olinta</strong> - A primeira grande mudança que vivi foi a progressão automática, diferente da progressão continuada de hoje. Aconteceu em fins de 60 e foi o caos na Educação. </p>
<p><strong><em>Comércio - Quais eram as implicações?</em><br />Olinta</strong> - O aluno passava de ano automaticamente. E assim foi por um longo período. </p>
<p><strong><em>Comércio - E qual é a diferença entre a progressão automática e a continuada?</em><br />Olinta</strong> - A progressão continuada foi instituída no governo Covas. Está na Lei de Diretrizes e Bases, a nível federal, e não sofreu tanta oposição como a progressão automática. Nesse sistema, o aluno não passa automaticamente. Os estudos se dividem em blocos - de 1ª a 4ª séries e de 5ª a 8ª. À medida em que ele progride, ele passa de série. Na 4ª, o aluno é submetido a avaliação. Se estiver apto, continua, senão, passa por aulas de reforço até poder acompanhar a série em questão. </p>
<p><strong><em>Comércio - Existe ressalva ao sistema?</em><br />Olinta</strong> - Sim. Se fosse bem interpretado, seria excelente. Mas não é o que ocorre na realidade. Porque muitas vezes o aluno de 1ª série, por exemplo, não tem condições de acompanhar a 2ª série. A professora deve acompanhá-lo desde o ponto onde ele parou, para então dar continuidade. Isso não ocorre, porque os professores já preparam a programação do ano inteiro e não param para atender casos individuais ou para fazer adaptações.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Por que temos muitos vestibulandos precariamente alfabetizados?</em><br />Olinta</strong> - No passado, a educação era elitista. Hoje, com a democratização da Educação, encontramos essas discrepâncias.<br /> <br /><strong><em>Comércio - A educação que se oferecia tinha mais qualidade do que a de hoje?</em><br />Olinta</strong> - Não. Os alunos chegavam à escola com melhores condições. As necessidades básicas deles eram supridas. Eles provinham de lares que alicerçavam o processo. Havia também muita rigidez nos exames de admissão e uma seleção prévia. Hoje, as escolas técnicas selecionam os alunos por meio de vestibulinho. Na Rede Pública não podemos fazer isso e recebemos alunos de todos os jeitos. </p>
<p><strong><em>Comércio - Em que outros aspectos a Educação de antigamente se diferencia daquela que é oferecida hoje?</em><br />Olinta</strong> - Nós tínhamos um planejamento diário avaliado pelo inspetor de Ensino. As avaliações eram preparadas pelo inspetor. Hoje o planejamento é anual. Tudo era cronometrado. Todo o conteúdo tinha de ser dado. Hoje a escola pública tem 50 alunos por sala. É muito. </p>
<p><strong><em>Comércio - E a questão da disciplina?</em><br />Olinta</strong> - De 5 anos para cá houve uma mudança para melhor. Talvez motivada pelo entrosamento do corpo docente.</p>
<p><strong><em>Comércio - Que ações foram implantadas nos 12 anos de Torquato Caleiro?<br /></em>Olinta</strong> - Se houve melhora foi por todos. Informatizamos a biblioteca, criamos um laboratório de Informática, reativamos o laboratório de Química e Física. Restauramos o mobiliário. Criamos sala de leitura e a Escola da Família, aberta à comunidade. </p>
<p><strong><em>Comércio - O que dizer àqueles que dirigem a Educação?</em><br />Olinta</strong> - Peço aos professores que tratem os alunos com mais amor e compreensão. Não digo ‘passar a mão na cabeça do aluno’ e ser omisso ou conivente com os erros, mas oferecer mais participação e cooperação, reconhecer e desenvolver as potencialidades. Educar é auxiliar na abertura de novos caminhos. Agir com firmeza e autoridade sem massacrar, vestir a camisa da escola.</p>
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