As 315 mortes sem causa definida registradas em Franca em 2005, apontadas no relatório da Vigilância Epidemiológica e reveladas na edição de ontem do Comércio, continuam sem explicação. O secretário de Saúde, Alexandre Ferreira, convocou uma entrevista coletiva para tentar explicar os números. Não conseguiu. Ferreira reduziu para 82 o número de casos que, em sua avaliação, são os que realmente não têm causa definida, mas não soube esclarecer a causa-mortis dos outros 277 óbitos.
Tudo é muito confuso. Ontem, pela terceira vez consecutiva, a Vigilância Epidemiológica apresentou números distintos para a mesma ocorrência. No primeiro relatório a que o Comércio teve acesso, datado de 27 de março, 315 óbitos eram registrados como sem causa definida. Na tarde de quinta-feira, novo documento apontava 307 mortes. Ontem, o número apontado pelo secretário subiu para 359.
A lógica do secretário é difícil de ser compreendida. O que se sabe é que 359 pessoas morreram em Franca sem que se conheçam as razões. Como não há SVO (Serviço de Verificação de Óbito, órgão operado por legistas e que, através de exames e necropsia, determina a causa da morte de uma pessoa) na cidade, o secretário diz que equipes da Vigilância visitam as famílias e, através de um questionário, tentam determinar a causa da morte. “O problema é que o relatório divulgado (anteriormente) continha apenas os dados que entram automaticamente no sistema e não o resultado das apurações da Vigilância”, tentou explicar.
Não conseguiu. A partir daí, a confusão só aumenta. Essas 277 mortes que foram investigadas e “esclarecidas” pela equipe da Vigilância deixam de ser contabilizadas pelo secretário como de causa indefinida, mas não são re-classificadas como coisa alguma. Os dados obtidos pelas equipes da Vigilância Epidemiológica simplesmente não foram compilados nem são tabeladas em qualquer categoria. Desaparecem.
A situação beira o absurdo. O secretário de Saúde de Franca diz que sabe como morreram essas pessoas, mas não atualiza os dados nem consegue explicar porque não o fez. Se faltam pessoas, equipamentos ou tempo para processar as informações, Alexandre Ferreira não disse. As razões de todas essas mortes, supostamente apuradas pela Vigilância, mas não divulgadas, permanece misteriosa. Se morreram de asma, vítimas de acidentes, acometidos por doenças respiratórias ou do aparelho digestivo, ninguém sabe, como também não se sabe se essas mesmas pessoas morreram de alguma doença contagiosa ou epidêmica que possa colocar em risco os mais de 300 mil habitantes de Franca.
Os problemas não terminam aí. Ainda que o trabalho da Vigilância Epidemiológica de Franca, como garante Ferreira, não apresente nenhum tipo de equívoco na determinação das causas das mortes destas 277 pessoas, os novos números apresentados pelo secretário de Saúde ainda representam índices preocupantes. As 82 mortes sem causa identificada admitidas oficialmente pelo secretário Alexandre Ferreira representam 4,69% do total de óbitos. Apesar de cumprir, próximo do limite, a recomendação do Ministério da Saúde, que é de no máximo 5%, o número é mais de nove vezes superior ao de cidades com um SVO em real funcionamento. É o caso de Ribeirão Preto, onde o índice de mortes por causa indefinida é de apenas 0,5%.
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