Antônio Carlos Caetano de Menezes
Foi emocionante assistirmos na última quarta-feira (29/3) o lançamento do foguete russo Soyuz, rumo à Estação Espacial Internacional, levando ao espaço o primeiro astronauta brasileiro, o tenente-coronel Marcos César Pontes, que ficará em órbita terrestre por oito dias fazendo experiências científicas. A viagem, batizada de “Missão Centenário”, é uma homenagem aos cem anos do primeiro vôo de Santos Dumont.
Confesso que derramei algumas lágrimas de emoção quando o nosso astronauta colocou o dedo sobre a bandeira brasileira em seu traje espacial. Acredito que todos aqueles que dedicaram a sua vida em busca de um ideal, que abdicaram de uma vida normal para abraçar uma carreira, um ideal de muitas cobranças intelectuais, físicas e psíquicas, que suportaram desafios, que se prepararam longamente, enfim, para aqueles poucos que conseguiram sentir de perto o “rugir” de uma turbina acionada a pleno, acho que a emoção foi imensa naquela noite do lançamento.
Na realidade, o que queremos abordar neste artigo dominical é o fato de alguns políticos que se dizem patriotas, mas que nunca deixaram seus prazeres de cidadãos comuns para dedicar algumas horas de serviços relevantes ao seu País, efetuaram comentários negativos e pejorativos quanto ao investimento efetuado para a primeira missão espacial brasileira.
Para esses “brasileiros” de “fachada”, é necessário informar que a missão principal do tenente-coronel Pontes não é efetuar as oito experiências no espaço e levar para a Estação Espacial uma réplica do chapéu de Santos Dumont, uma camisa da seleção brasileira, uma bola verde e amarela além de uma bandeira nacional, mas sim a missão número um se dará após o retorno a Terra, quando o mais novo herói nacional resgatará o “marketing verde-amarelo”, aproximando e explicando a necessidade do programa espacial brasileiro para a população, para que todos compreendam melhor a importância do desenvolvimento do setor para um País de dimensões continentais como é o Brasil. A missão não é só voar. É voltar e falar do enorme esforço que o País está fazendo para manter a soberania sobre nossas riquezas naturais, estabelecendo uma vigilância sobre o nosso território, falar da importância da base de lançamento de Alcântara, da necessidade da retomada dos investimentos para a construção dos dois satélites de sensoriamento remoto, objetos de questões de segurança nacional e que até o momento não saíram do papel. Enfim divulgar o desconhecido e combalido programa espacial brasileiro, na esperança de atrair mais verbas para sua revitalização.
Sabemos perfeitamente que o Brasil ainda está longe de possuir um veículo lançador de satélites (VLS), apesar de ser um programa estratégico, principalmente pelas condições geográficas e climáticas do nosso País. Os investimentos foram deixados de lado durante anos, cujo ápice se deu em 2003 com a explosão de um protótipo, num acidente ainda mal esclarecido que matou 21 especialistas, representando perda significativa para o programa.
O programa espacial brasileiro só não deixou de existir em razão da persistência de um pequeno grupo de cientistas e militares que teimaram em lutar contra tudo e todos.
Só para se ter uma idéia, citamos como exemplo a China, que há pouco mais de uma década encontrava-se no mesmo nível de desenvolvimento espacial do Brasil, mas, no entanto, hoje é o terceiro país do mundo em tecnologia espacial, passando de comprador a fornecedor de serviços espaciais.
Para muitos que desconhecem os reais objetivos da missão, o valor pago à Roskosmos, a Agência Espacial Russa, seria mais bem aplicado em programas próprios de desenvolvimento tecnológico no Brasil, não justificando a defesa da divulgação. Ora, todos nós sabemos que uma campanha publicitária com esse valor, de forma nenhuma alcançaria o impacto obtido no público-alvo (os cidadãos) e na mídia, como vem ocorrendo nos últimos meses e, o que é mais importante, os seus efeitos continuarão por longo tempo após o término da missão, através de palestras nas escolas, universidades, reuniões, seminários, livros etc. Fatalmente culminará numa melhor análise dos custos/benefícios dos investimentos, para um país que pensa em um dia ser grande.
E, apenas para reflexão daqueles parlamentares citados inicialmente, que acreditam ser o envio de um astronauta brasileiro ao espaço um tipo de “turismo espacial”: antes de conceder entrevistas, pensem e principalmente controlem os atos das administrações diretas e indiretas do governo federal, que gastam muito mais do que esse montante para patrocinar o desenvolvimento tecnológico de outros países, como por exemplo, o caso da Petrobras, que patrocina na Fórmula 1 a equipe Williams e está prestes a lançar uma campanha publicitária para o final do mês de abril que consumirá aproximadamente R$ 37 milhões.
Para finalizar, pelo preço cobrado para mandar alguém para o espaço, ficaria barato para o Brasil enviar, com passagem de ida, alguns políticos, perto dos prejuízos que trazem diariamente ao País, através de desmandos, falcatruas, corrupção, desvios, etc.
ANTÔNIO CARLOS CAETANO DE MENEZES é advogado, administrador de empresa, professor universitário, mestre em Direito Público pela Universidade de Franca, pós-graduado em Docência do Ensino Superior pela UFRJ, ex-procurador e ex-secretário de Recursos Humanos e Materiais (Administração) do município de Franca.
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