Paulo Pereira da Costa
A música exerce sobre mim, sobre o meu ser, um fascínio tão grande que me põe sob domínio de coisas que mal sei descrever.
Quando ouço música vem-me uma elevação tal que me sinto mais do que um simples mortal. Uma sensação indescritível, um bem-estar sem igual. Qualquer dor alivia, uma suave brisa me acaricia, sinto imensa alegria. Em cada nota, cada acorde, na harmonia da canção, na sinfonia, o amor brota, aflora e de mim se apropria.
Sob o influxo das vibrações que do som emanam, atinjo o nirvana. Meus dois eus entram em sintonia, dão-se as mãos, comportam-se como verdadeiros irmãos. Esqueço o dia da semana, não sei o que é calendário, quando é meu aniversário. Sinto uma magia, um encantamento, encontro paz nesse momento. Entro em êxtase profundo, esqueço os males do mundo, volto no tempo, revivo anos, décadas, num segundo. Invade-me uma calma, uma tranqüilidade, que vai até as profundezas da alma. Vejo crescer minha paixão pela vida; a vida vivida; a vida por viver, a juventude, a plenitude do meu ser.
Quando ouço música crio asas e, como pássaro, saio do chão, sobrevôo as árvores, as casas. Sou sobre-humano. Como avião, corto as nuvens, desapareço da vista, rumo ao Japão. Feito navio, cruzo o oceano. Igual a um camelo, consigo atravessar o deserto.
O longe fica perto. Sou esquimó no gelo. Qual nave espacial, trafego pelo espaço sideral, passeio pela imensidão. Passo por planetas, galáxias, vou além da imaginação. Transporto-me para outra dimensão. Imerso na melodia, saio de mim, em espírito vou para longe, no Universo sem fim. Misturo-me às estrelas. Sou luz na escuridão. Na leveza da canção, tudo é beleza, tudo é pureza, emoção, consigo enxergar todo o esplendor da natureza. Desprendo-me, flutuo, alcanço a liberdade, ganho as alturas, subverto a lei da gravidade. Vôo sobre cidades inteiras, florestas, mares, cordilheiras.
Quando ouço música vagueio pelo irreal, sou super-herói, sinto-me acima de todo o mal, o corpo invulnerável, mais denso que o metal. Livro-me da tensão, abro o coração, sou forte, desafio a morte, atenuo as marés, acalmo o vulcão, transformo em brisa o furacão, salvo a donzela do dragão, com meu tapete voador chego ao lado de baixo do Equador. Sonho acordado, sou aventureiro, guerreiro, escalo o Everest, tal qual o Sol vou de leste a oeste.
Sou noite, sou dia, cruzo fronteiras, derrubo barreiras, combato a tirania. Sou romântico, vejo-me em alto mar, a bordo de um transatlântico. Livro-me de todo estigma, decifro qualquer enigma. Ao som da música, sou lépido como os pássaros, feito colibris em tardes primaveris. Sou intrépido, enfrento os bárbaros. Ao mesmo tempo, sou todo sossego, vejo-me em noites enluaradas, caminhando tranqüilo em frescas madrugadas, por ruas arborizadas, com largas calçadas. Tomo café, ando a pé sob o sol da manhã, e quando me canso sento-me e descanso à sombra de um flamboyant. Quando ouço música esqueço minha idade, sou só felicidade, emoção, satisfação, mudo de planeta, viajo na cauda de um cometa, sou criança num parque infantil, sou pescador, sou primeiro de abril.
De volta ao real, posso afirmar que a música pra mim é algo sagrado, sem o qual não consigo passar. É um revigorante mental.
Faz tão bem ao meu espírito que me eleva aos céus, põe-me mais próximo de Deus. É indefinível pra mim. Mas certas coisas, enfim, não precisam ser definidas, apenas sentidas. E pra finalizar, Valsa Brasileira: ‘Vivia a te buscar/ Porque pensando em ti/ Corria contra o tempo/ Eu descartava os dias/ Em que não te vi/ Como de um filme/ A ação que não valeu/ Rodava as horas pra trás/ Roubava um pouquinho/ E ajeitava o meu caminho/ Pra encostar no teu/ Subia na montanha/ Não como anda um corpo/ Mas um sentimento/ Eu surpreendia o sol/ Antes do sol raiar/ Saltava as noites/ Sem me refazer/ E pela porta de trás/ Da casa vazia/ Eu ingressaria/ E te veria/ Confusa por me ver/ Chegando assim/ Mil dias antes de te conhecer’ (Chico Buarque e Edu Lobo).
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça.
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