Poesia francana


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Vanessa Maranha Especial para o Comércio E há em Franca um poeta raro, que se chama Ari Pedro Balieiro Júnior. Psicólogo clínico na linha cognitivo-comportamental, com mestrado em Lingüística pela Unicamp, professor na Unifran (Universidade de Franca), Instituto Agostiniano de Filosofia e Novo Colégio, pesquisador do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto, Ari Pedro, repita-se, é poeta. E sabe-se que ele o é genuinamente por duas razões: a lírica absolutamente original e a afirmação de que nele a escrita se impõe imperativa: “Eu não consigo não escrever”, confessa. Autor do livro de poesia Feitiços Diversos, editado em 1985 “por uma prima que é editora de livros médicos e financiado por Omar Pucci e Wilson Samello”, Ari tentou a divulgação local, por meio de um conhecido literato francano que, no entanto, subestimou a arte e elevou a política em primeiro plano para se negar a auxiliá-lo. Resumindo a história: o literato, que mantinha posicionamento político oposto ao de seu pai, o então prefeito Ari Balieiro, preferiu desconsiderá-lo. Ari Pedro não desistiu. Continuou escrevendo, a despeito do cabotinismo, mas preferiu não buscar envolvimento com a turma da literatura nem conduzi-la como projeto. “Decidi investir na minha área, na minha carreira como psicólogo. A poesia eu deixo fluir, sem compromisso”, explica. Mas como arte é sempre arte e, como tal, atemporal, manufatura que não se represa tampouco se esconde - a arte sempre grita e se impõe, ainda que para isso seja necessário um século -, eis que no corrente ano da graça de 2006, o livro laranja reaparece, forte, denso, irreverente, para mostrar que a poesia francana possui nichos inexplorados e que não é rala tampouco purista, como faz supor o senso comum dos círculos literários da Alta Mogiana. Aos 47 anos, com material para pelo menos outros sete livros (ou plaquetes, como ele prefere), Ari é autor de uma lírica, que se identifica, na forma e conteúdo, com aquela produzida pela Geração Mimeógrafo e cuja evolução deságua nos blogs atuais, como os de Nicolas Behr e Glauco Mattoso. Um recorte meramente cronológico não é suficiente para definir a Geração Mimeógrafo, que surgiu na década de 70 e seguiu até fins dos anos 80 e teve por santo padroeiro o francês Antonin Artaud, congregando, em terras tupiniquins, nomes como Cacaso, Ana Cristina César, Chacal, Ledusha Spinardi (essa, a propósito, amiga de Ari), Leila Mícollis, Alice Ruiz, Torquato Neto, Nicolas Behr, Glauco Mattoso e o papa de todos, Paulo Leminski. A poesia desse, digamos, movimento, surgiu como uma resposta à repressão da Ditadura Militar, como tentativa de novas delineações estéticas semeadas pela Geração Beatnik norte-americana, equalizadas pelo Surrealismo francês, erguendo-se, por fim, a partir de três blocos da lírica de vanguarda que então se colocava: poesia concreta, poesia práxis e poema processo. É também característica desse momento a atitude ética e estética, o poeta como parte do poema. Em todas essas nuances a poética de Ari se enquadra. Mais do que pelos contornos de sua produção, “Geração Mimeógrafo” é designação dada pela característica de produção de suas obras: edições independentes, de baixo custo e comercializadas em circuitos alternativos, geralmente de mão em mão - particularmente em bares e universidades. Ainda assim, há nela uma unidade visível. Vigorosa, militante e não convencional, essa produção estava à margem do circuito editorial estabelecido (daí o recurso do informal). Segue o propósito de, por meio de jogos intertextuais, discutir o paradoxo entre lírica e sociedade, conforme posto Adorno e tantos outros. Mas Feitiços Diversos é obra a ser lida e relida com prazer. São haicais singelos, deliciosos e assertivos, como no intitulado “Hora” (em que se vale de recurso gráfico, dispondo as letras das palavras na horizontal e na diagonal, reproduzindo ponteiros de relógio marcando as 2h30): “Aquele relógio me olhando/com cara de duas e meia”. Ou a irreverência de frases como “a geladeira é um grilo condenado ao celibato”. A linguagem, experimental, traz também aliterações engenhosas, neologismos, sintagmas, sofisticações várias, bem como os “prosoemas”, ou seja, poesias com os versos dispostos de forma linear, horizontal, numa estrutura semelhante à da prosa. Alguns trechos do livro explodem e se transformam em belíssimos cenários - aí se diferindo da turma do mimeógrafo, eminentemente urbana. Em Ari, o regionalismo, as influências da cultura local, algo rural, se fazem perceber logo de entrada: sua reverência à natureza, à prosódia fronteiriça. INÉDITOS Autópsia/Autoespia é um livro em que Ari diz viajar dentro de si mesmo como se fosse um cadáver e estivesse se dissecando a si próprio. “A poesia busca uma dicção solene, ao mesmo tempo em que os temas são sempre íntimos. Embora os poemas sejam sobre medo e dor, a viagem nem sempre é dolorosa ou triste. Medra a vida”, diz ele. Ilustrativo dessa produção é o poema “Dor”: “A solidão da dor/ dentro da gente/dura o tempo/de gentilmente/encará-la de frente/mordê-la/mastigá-la/ e digerir devagarinho”. Em “A Lira Poeirenta”, o canto vai para a sua mulher, Valéria Vieira Balieiro, mais lírico. “Valéria, minha musa, minhas aspirações de amor. A lira é poeirenta porque eu busco uma dicção romântica, como na 3ª estrofe deste poema, Pastoral à maneira de Pablo Neruda: ‘todos os lírios olhavam, azuis/o céu, que o olhar é sempre azul/desmanchavas-te fluida /e chovias pelo campo/de algodão subias e eu, aqui/calado, triste, te soprei/subiste mais então/choveste mais fortemente ainda’”. A LIRA COM PHASER Phaser é um distorcedor: um aparelho eletrônico usado para distorcer o som de um instrumento musical, especialmente as guitarras, produzindo um som rascante, característico do rock-and-roll dos anos 70. Neste livro há influência do Concretismo dos anos 70, principalmente Paulo Leminski e Décio Pignatari. No entanto os poemas continuam sendo basicamente uma proposta lírica, são fundamentalmente poemas de amor. Ilustra esse momento o poema “O Silêncio da Amiga II”: “As palavras/ gaivotas/ voltam todas/pro mar/mas amar/sem palavras não tem volta”. No livro Linhagem, o poeta quer construir um conjunto de poemas que repita o espírito e a dicção de poetas que o inspiram, como João Cabral, Mário Quintana, Fernando Pessoa, Cecília Meirelles. Os temas também, explica ele, são uma tentativa de atualizar as preocupações desses poetas. Num de seus versos, Ari Pedro diz: “Escrever é escravidão/que se vive estranhamente/embrenhando-se na mente/da palavra imensidão”. REVOLIGIÃO A idéia, nessa obra, é investigar ideologia (revolução) e transcendência (religião). “O sotaque talvez seja o mais caracteristicamente meu de todos os livros, buscando evitar a interferência de ‘outras vozes’ nos poemas. Os temas são também reflexo de minhas preocupações mais fortemente sociais e culturais, do homem político mais do que do poeta”, comenta. E há mais. Muito mais. Ari Pedro Balieiro Júnior é poeta da melhor cepa. Vale a pena conhecer sua obra.

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