Nelise Luques
da Redação
A família da dona de casa Maria José dos Santos, 61, acordou ontem com policiais militares e caminhões na porta de casa, no Bairro Miramontes. Após viver 32 anos em imóvel que já pertenceu à Fepasa (Ferrovias Paulistas S/A), os 20 moradores - sendo 12 crianças com idades entre 4 meses e 10 anos - tiveram de cumprir ordem judicial e desocupar o espaço. A novela da reintegração de posse, que já dura pelo menos três anos, parecia ter chegado ao último capítulo ontem, mas não foi o que aconteceu. À noite, todos retornaram para a casa.
A pendenga começou em 1991, quando a área foi adquirida pela prefeitura e Maria José parou de pagar aluguel do imóvel. Em fevereiro de 2003, houve a primeira notificação judicial para desocupação da casa, mas a ordem não foi cumprida. Desde então, o caso segue cheio de tentativas de acordo e desentendimentos. A família reclama de falhas da primeira advogada contratada para cuidar da ação. Segundo os irmãos, eles teriam assinado um papel sem saber que era para deixar o espaço até o fim de 2004. “Quando descobrimos, mudamos de advogado”, disseram.
No meio do ano de 2004, Jépy Pereira foi contratado. “Escolhemos ele porque falou que dava conta. Ele prometeu reverter a situação, trazer sossego para a gente e disse até que seríamos indenizados se tirassem a gente daqui”, disse o sapateiro Marcelino Veiga, 23. Foram pagos cerca de R$ 1.100 pelos serviços do advogado em várias parcelas. Dois anos depois, o problema continua. A Justiça manteve a ordem de desocupação do imóvel e ontem eles foram obrigados a deixar o local.
A remoção dos familiares começou às 7h30 de ontem. Quatro horas depois, mais de 15 pessoas da prefeitura e PMs continuavam no endereço para acomodar guarda-roupas, camas, colchões, sofá, brinquedos, roupas, panelas, carrinhos de bebê, pacotes de arroz e outros objetos em três caminhões. Tudo foi levado para casa de vizinhos e parentes.
Para abrigar os adultos e crianças, a prefeitura chegou a propor que fossem para o Abrigo Provisório Municipal, mas eles se recusaram. Perto das 22 horas já estavam de volta à casa, na Avenida Monteiro Lobato, 5.300, no Miramontes. “Voltamos para cá porque não queríamos ir para debaixo da ponte”, disse Maria José. “Se a gente ficasse um dia no abrigo, tenho certeza que a casa seria invadida por outras pessoas. Não podíamos deixar isso acontecer”, disse um dos filhos, Marcelino Veiga.
TENTATIVAS
Segundo o procurador municipal Eduardo Campanaro, houve tentativas de acordo ao longo do ano passado, mas a família não acatou. “Durante 2005, a prefeitura tentou uma desocupação menos traumática, mas a família não colaborou”.
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