Como nos velhos tempos


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A META - Miguel Sábio de Mello Neto é visto diante do quadro de sua família no escritório que ocupa na empresa: aos 45 anos, ele se diz no momento certo de realizar a tarefa de sanear a empresa: “Estou pronto para participar de
A META - Miguel Sábio de Mello Neto é visto diante do quadro de sua família no escritório que ocupa na empresa: aos 45 anos, ele se diz no momento certo de realizar a tarefa de sanear a empresa: “Estou pronto para participar de
<p>Marcos Junqueira<br />Editor-assistente de Esporte<br />Depois da tempestade, a bonança. Ou pelo menos o início dela. Esta é a situação vivida hoje pela Samello, uma das mais tradicionais indústrias calçadistas do País. Após um período de dificuldades nas finanças, do qual surgiram boatos que apontavam até para o fechamento das fábricas, a família Mello, fundadora da empresa em 1926, reassumiu o comando administrativo. Nos últimos 18 meses, a direção estava terceirizada na mãos de Renato Furtado. Agora, Miguel Sábio de Mello Neto, 45, foi eleito pelo Conselho Administrativo para assumir a presidência da Samello. “Está na hora certa de eu encarar este desafio. Aprendemos muito com o Furtado e já estamos colocando tudo em prática”, disse Miguel ao Comércio. O desafio será grande. Ele será responsável por administrar um grupo que conta com as unidades da Samello e Charm (na área de calçados), Vaccaro e MSM (solados), três fazendas de criação de gado e plantio de café no Mato Grosso, em Uberaba (MG) e Cristais Paulista (SP) e o Hotel Comfort. Tais empreendimentos geram, anualmente, um faturamento de mais de R$ 100 milhões, e 2.200 empregos diretos e milhares indiretos. “A Samello não pode acabar. Muita gente depende do grupo. E vamos levar a empresa de volta ao topo a médio prazo”. Para isso, segundo o confiante Miguel, a Samello conta com a tradição da marca no País e no exterior e “um patrimônio considerável”. </p> <p><strong><em>Comércio da Franca - Como foi a volta da família Mello ao comando da Samello?</em><br />Miguel Sábio de Mello Neto</strong> - Foi natural. Após um período de profissionalização, chegamos à conclusão, em reunião do conselho, de que um de nós deveria assumir a presidência e, após votação, eu fui indicado e, desde fevereiro, estou na função. </p> <p><strong><em>Comércio - Quantas pessoas da família estão envolvidas no comando da empresa?</em><br />Miguel</strong> - No comando operacional, só eu, como diretor-superintendente. Mas, no total, incluindo-se o Conselho de Administração, são 13 da terceira geração, a minha, e quatro da segunda, com meu pai e meus tios. </p> <p><strong><em>Comércio - Como foi a profissionalização administrativa?</em><br />Miguel</strong> - Não foi um afastamento total. Por meio do Conselho, a gente orientava nas questões políticas e estratégicas. Foram 18 meses sob a direção de Renato Furtado. Nós influenciávamos em todas as decisões, com diretrizes e orientações, mas sem participação efetiva. </p> <p><strong><em>Comércio - Por que a Samello tomou a decisão de terceirizar o comando da empresa?</em><br />Miguel</strong> - Há pouco mais de dois anos, chegamos à decisão definitiva de profissionalizar o comando operacional, mas, como não tínhamos definido uma pessoa na família e havia dúvidas, decidimos profissionalizar. Agora, pode-se dizer que este processo profissional de administração continua. Temos três diretores em Franca e um na Paraíba, além de membros da alta supervisão e alta gerência. Todos sob o comando de um membro da família.</p> <p><em> </em><strong><em>Comércio - É mais fácil para um executivo, sem vínculos afetivos com a empresa e seus funcionários, tomar decisões extremas, como demissões em grande escala?</em><br />Miguel</strong> - Aprendemos demais com esse processo. Em um primeiro momento, quem vem de fora, sem ligações afetivas, sem conhecimento do dia-a-dia, deixa esta impressão. Mas o Furtado ensinou-nos muito em relação a isso e hoje estamos preparados para fazer qualquer tipo de enxugamento necessário. A gente nunca quer ou pretende dispensar pessoas, mas é uma medida necessária à medida que as dificuldades existem. </p> <p><strong><em>Comércio - No que se refere ao aspecto financeiro, o que a Samello ganhou com a passagem do executivo Renato Furtado?</em><br />Miguel -</strong> Não houve muita modificação. A situação conjuntural de dificuldades no setor de calçados, com altas taxas de juros, carga tributária grande, encargos sociais pesados, taxa cambial desfavorável e, agora, esta invasão do calçado chinês, prejudica-nos demais. A dificuldade já existia e ainda existe. Estamos atrás de recursos, mas a dificuldade financeira permanece. Vamos trabalhar para gradativamente diminuir as dificuldades e colocar o mais rápido possível a casa em ordem. Mas, profissionalmente, ganhamos muito em conhecimento administrativo. </p> <p><strong><em>Comércio - Qual foi o auge produtivo da Samello?</em><br />Miguel</strong> - Nos tempos áureos de exportação e mercado interno, chegamos a produziu oito mil pares por dia. Em fases mais ruins, principalmente em começo de ano, já caímos para até três mil. </p> <p><strong><em>Comércio - E hoje?</em><br />Miguel</strong> - Temos capacidade para produzir até cinco mil pares, mas estamos fazendo 4,5 mil, tanto para exportação como para o mercado interno. </p> <p><strong><em>Comércio - Quanto da produção é destinado para exportação?</em><br />Miguel</strong> - Em torno de 70%. Mas é uma porcentagem que a gente gostaria de reduzir, não só pelo fato do dólar estar baixo, mas para atender bem o mercado interno. Temos a filosofia de destinar 50% para cada mercado. </p> <p><strong><em>Comércio - O recuo do dólar faz com que o mercado interno se torne uma “válvula de escape” para o fabricante?</em><br />Miguel</strong> - É uma boa opção, principalmente no nosso caso. Não só pelos 80 anos da Samello, mas pelo valor agregado à marca, o prestígio da marca e a qualidade que sempre apresentamos. Mas os dois mercados possuem potencial e lucratividade e isso é uma questão que tem de ser buscada pelo empresário. O que pesa contra é que, à medida que os empresários focam mais o mercado interno, a concorrência será cada vez maior.</p> <p><strong> <em>Comércio - Até que ponto o calçado chinês atrapalha a indústria de Franca?</em><br />Miguel</strong> - Prejudica bastante, pois há poucas barreiras para o sapato chinês. A mão-de-obra deles é intensiva e barata, quase sem encargos sociais, tributos, taxas e impostos como no Brasil. Assim, o sapato deles fica muito mais barato e praticamente destrói as indústrias nacionais.<br /></p> <p><strong><em>Comércio - O que dizer da medida adotada pelo empresário francano Lauro Pimenta de Oliveira, que compra sapato chinês para vender no Brasil?</em><br />Miguel</strong> - Pode até virar moda, mas nem tudo é simples e fácil como parece. Há dificuldades neste processo e pode haver sanções. Sobre o Lauro Pimenta, não posso dizer nada, pois não o conheço. Mas acho que é uma faca de dois gumes. Por um lado, pode motivar o empresário francano a se organizar. Por outro, corre-se o risco de causar um desastre na indústria nacional de calçados.<br /></p> <p><strong><em>Comércio - Qual a reação da sociedade quando uma empresa com a tradição da Samello atrasa pagamentos de funcionários, como aconteceu em 2005?<br /></em>Miguel -</strong> Temos consciência disto. Gostaria de frisar que naquela ocasião atrasamos dois ou três dias em parte da remuneração de fevereiro e isso repercutiu de uma forma muito grande. Mas conseguimos dar a volta por cima, com enxugamentos e corte de despesas. A maioria dos funcionários entende. Estamos, aliás, muito agradecidos com a tolerância que temos dos nossos funcionários. São pessoas de alto valor para nós, responsáveis. Alguns deles estão conosco há 40, 50 anos. Lógico que eles têm despesas e necessidades, mas são pessoas abertas ao diálogo. Hoje, esta é uma questão que praticamente não existe mais. </p> <p><strong><em>Comércio - Qual a situação financeira do Grupo Samello?</em><br />Miguel</strong> - Não está totalmente saneada, mas está caminhando para isso. Trabalhamos insistentemente com três ou quatro fontes de recursos. Não temos dia nem hora para isso e tenho certeza de que, rapidamente, daremos a volta por cima. </p> <p><strong><em>Comércio - Até que ponto são benéficos os empréstimos junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)?</em><br />Miguel</strong> - Toda proposta tem que ser muito bem estudada, porque envolve vários dados, números, demonstrativos e balanços da empresa e às vezes se fica só no “blá-blá-blá” e na conversa e nada acontece. Ou acontece com uma morosidade que não dá para aguardar. Então, alguns empréstimos são benéficos, mais simples e ágeis, mas quando ficam no campo do lobby político são demorados e acabam atrapalhando. </p> <p><strong><em>Comércio - Quantas e quais empresas formam o Grupo Samello?</em><br />Miguel</strong> - Temos a matriz, e a unidade da Paraíba, e o Charm, todos produzindo calçados; a Vaccaro, que faz solados e componentes; a MSM, que fabrica solados, borracha e tricês para a Samello e outras fábricas de Franca. Ainda nesta área, possuímos a rede de lojas, com 25 unidades, três próprias e 22 franqueadas. Em outros segmentos, temos a maioria dos apartamentos do Hotel Comfort e três fazendas de gado, no Mato Grosso, em Uberaba (MG) e Cristais Paulista (SP). </p> <p><strong><em>Comércio - Com todo esse patrimônio, como justificar a crise financeira?</em><br />Miguel</strong> - A crise da Samello é financeira e não econômica. Com toda esta fase conturbada, não nos desfizemos do patrimônio. Agora, se for necessário, podemos até fazê-lo, pois a Samello é que proporcionou tudo isso. </p> <p><strong><em>Comércio - Qual o faturamento anual do grupo?</em><br />Miguel</strong> - Somando a receita de todas as empresas, algo em torno de US$ 45 milhões (R$ 102,4 milhões). </p> <p><strong><em>Comércio - Entrando um pouco na área política, se compararmos os governos de Fernando Henrique (PSDB) e Lula (PT), qual trouxe mais benefícios à indústria calçadista?</em><br />Miguel</strong> - Os dois, dentro das dificuldades que um presidente tem para administrar o País, foram bastante prejudiciais. Isso começou antes do FHC, piorou com ele e, agora, com o Lula, piorou um pouco mais. Eles poderiam ter mais consciência da necessidade de gerar produção, prestigiar os industriais, não só de calçados mas de todas as áreas. </p> <p><strong><em>Comércio - A candidatura do governador Geraldo Alckmin (PSDB) ao Planalto tem sido vista com bons olhos pelo empresariado francano?</em><br />Miguel</strong> - Pelo que tem acontecido, o Alckmin seria uma boa opção para o empresariado paulista e do Brasil todo. Mas não torço necessariamente para que ele ou o Lula vença, pois quero alguém antenado, preocupado com produção, geração de empregos e divisas para a Nação. </p> <p><strong><em>Comércio - Quais os planos para o Samello para os próximos anos?</em><br />Miguel</strong> - Temos a intenção de sanear totalmente, nos próximos dez anos, a parte financeira da empresa. Acabo de completar 45 anos e me sinto no momento certo, pronto para participar deste processo.</p>

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