Eu queria


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Paulo Pereira da Costa “Não é caro o que eu queria/ uma pausa pra pensar/ colocar o corpo e a cabeça em dia/ pra melhor recomeçar/ O outono na fazenda/ toda tarde cochilar/ com o cheiro luxuoso de um fogão de lenha/ perfumando todo o ar...” (Guilherme Arantes). Quem não queria acordar um dia, com os pardais em algaravia, abrir a janela para o sol entrar, sentir que existia algo diferente no ar? Sem saber o que acontecia, folhear os jornais e não encontrar nenhuma notícia deprimente, sombria. Sair às ruas e ver que só havia casas sem muros nem grades; gramados e jardins bem cuidados, com bancos para os namorados, quintais com laranjeiras, crianças em alegres brincadeiras. Todos convivendo em harmonia, sem importar a cor, a crença, a etnia. Pássaros voando livres, cantando felizes de verdade, certos de que não viria ninguém com gaiola privá-los da liberdade. Pessoas com bom coração, sem vergonha de pedir nem de conceder perdão. Muitos amigos, viver com gosto, sem tanto imposto, sem solidão. Quem não queria? Quem não queria viver sem medo, levantar cedo, tomar café com leite, comer pão com requeijão? Ir a pé para o trabalho, sem precisar de condução. Cumprimentar os outros, conhecidos ou não. Todos com emprego, ganhando ao menos para o arroz, o feijão, a casa própria, um pouco de diversão. As crianças e os jovens em boas escolas públicas, recebendo melhor formação. Não ver animais e pessoas morrendo de inanição. Caminhar sossegado, sem temer ser assaltado, nas noites de verão. Ter na rua, na minha, na sua, faixas de travessia de pedestres, onde os pedestres pudessem mesmo cruzar a via sem temer pela própria integridade, pois os motoristas, de qualquer idade, dotados de decência, parariam, respeitariam a preferência. Um trânsito sem perigo, em que cada condutor não visse o outro como inimigo. Ter certeza de que o homem é realmente humano, respeita a natureza, preserva o meio ambiente, trata o próximo como gente; não é uma ilha; compartilha tudo que tem e sente. Não seria diferente? Quem não queria um mundo sem fronteiras vigiadas por exércitos que matam? Um mundo com todos os povos, de qualquer nação, falando a mesma língua, vivendo em comunhão. Ter paz em qualquer lugar, aqui, no Oriente Médio, na China, em Cuba, no Afeganistão. Saber que Fidel Castro, Saddam Hussein, George W. Bush, Hugo Chávez e outros eram apenas personagens de ficção. Um mundo sem falsos pastores, falsos evangelizadores, indivíduos sem caráter passando por benfeitores. Água no sertão, para a sede, o banho, a plantação, para que o sertanejo não abandonasse seu querido rincão. Um mundo sem guerras, terrorismo, fanatismo, drogas, corrupção; mais justo, sem tanto desalento, sem tantas pessoas dormindo ao relento. Com mais igualdade, fraternidade, bondade, sem famílias desfeitas, sem tantas seitas, mais simplicidade, civilidade. Quem não queria mais alegria, menos melancolia, uma vida sem tanta correria? Um mundo onde não valia cara amarrada, mau humor, apatia, preconceito, covardia. Que pudesse queijo com goiabada, chocolate à vontade, sem peso na consciência nem perigo de obesidade. Que se desse mais valor às pequenas coisas, buscasse mais paz de espírito, houvesse menos apego ao dinheiro, menos ganância, nada de animais em cativeiro. Mais calma, tolerância, paciência, alma. Mais amizade, amor, felicidade, menos hipocrisia, mais sinceridade. Mais ética e senso do justo, menos estética a qualquer custo. Um mundo sem armas, sem criminalidade, onde todos prezassem a verdade, respeitassem do próximo a honra, a integridade. Uma vida em que sempre houvesse esperanças, que os adultos ouvissem mais e aprendessem com as crianças. Que os jovens tivessem gana de viver por um ideal, não se matassem por vazio existencial. Rios limpos, cachoeiras, verdes matas, que as amadas acordassem de madrugada ao som das serenatas. Nada de maus-tratos a animais, nada de praças com monóxido de carbono dos automóveis, as pombas deixadas em paz. A cidade limpa, gente bacana, ar puro, sem as fuligens das queimadas de cana. Quem não queria? Eu queria. Como eu queria! Pode ser utopia. Todavia... PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça.

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