Nelise Luqes e Arnon Gomes
da Redação
Alvo de violência, a aposentada Hilda Costa, 68, se viu obrigada a trocar a casa no Jardim Aeroporto III por um barraco no Recanto Elimar coberto com uma lona para abrigar seus objetos pessoais.
Uma Kombi transformou-se em dormitório. Em 48 horas, o pedreiro Sérgio Barbosa, 38, sua mulher e nove filhos com idades de 3 a 17 anos, terão de desocupar o cômodo onde moram no Residencial São Domingos. O mesmo drama retratado em duas histórias. Famílias esquecidas e sem um lar.
A história de Sérgio começou no fim de 2004, quando vendeu a parte que tinha na casa da família para o irmão e usou o dinheiro para pagar parte de um terreno de 160 metros quadrados, no Residencial São Domingos, no valor de R$ 17 mil. Aceitou pagar cem prestações (8 anos e quatro meses) de R$ 190. Sérgio estava empregado, ganhava bem e aproveitou as horas vagas, parte do salário e doações de tijolos e cimento para construir no local cinco cômodos e um banheiro. Foi necessário um ano para terminar os serviços e aproximadamente R$ 3 mil. Um dia o pai de família ficou doente. Precisou passar por duas cirurgias e não conseguiu mais trabalho. Desempregado há nove meses, não pagou as prestações do terreno e agora, sem conseguir negociar a dívida, o perdeu. Ele e sua família têm até segunda-feira, para cumprir ordem judicial de despejo. “Só tenho feito bicos. Eles queriam parcelar a dívida de R$ 3.200 em seis vezes, mas as prestações ficariam muito caras. Temos passado o mês com apenas R$ 100”.
Para não perder o material, Sérgio resolveu desmanchar os cômodos e guardará os tijolos para usar na outra casa, que, por enquanto, é apenas sonho. Dos seis espaços que construiu, ontem, restavam apenas um dos quartos e o banheiro. Há três dias, as onze pessoas dormem num compartimento pequeno (10 metros quadrados) em três colchões, com um sofá e a geladeira. A energia está cortada por falta de pagamento. A iluminação vem de velas e os banhos são com água esquentada em uma lata num fogão improvisado no chão. As janelas retiradas precisaram ser vendidas para o ferro-velho e os R$ 25 usados para comprar comida. Três litros de leite por dia, arroz, feijão, ovo e alguma mistura. Quando sobra dinheiro. “Contamos com doações das pessoas”. Sobre o futuro? Esperança. “Não tenho para onde ir com meus filhos. Espero que a prefeitura arrume um lugar para eu ficar ou uma casa popular com uma prestação mais baixa”, disse Sérgio. O apelo foi feito no programa Hora do Cacete, da rádio Difusora. Deu certo. Na rua eles não ficarão. A Secretaria de Desenvolvimento Humano e Ação Social prometeu encaminhar a família para o Abrigo Provisório e avaliar a situação para inseri-la em programas sociais e de renda do Governo. Mas até ontem às 18h30, todos continuavam no Residencial São Domingos, acabando de desmontar a casa.
O Comércio da Franca falou com Marcos Parra, proprietário da Ética Imobiliária, intermediária da venda do lote. Ele revelou que Sérgio Barbosa está inadimplente desde novembro de 2004, não tendo cumprido os acordos feitos anteriormente. O caso acabou ajuizado e a ação terminou com ordem de despejo.
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