Há uma semana, os dias da aposentada Hilda Costa de Oliveira, 68, têm sido angustiantes. Seus problemas de saúde - uma tremedeira descontrolada e desmaios freqüentes - são apenas mais alguns além das condições do lugar onde passou a morar no sábado passado.
Insatisfeita com a falta de segurança onde vivia, no Jardim Aeroporto III, vendeu a casa por R$ 13 mil e comprou um terreno, sem construção, pelo mesmo valor. Agora, está no Recanto Elimar.
Sozinha e com ganhos mensais de R$ 300. Boa parte do dinheiro é gasto com remédios. Hilda não tem condições de construir a nova residência. Resultado: está no terreno, mas vive sob uma lona azul, presa a troncos de árvores. Debaixo ficam amontoadas mesas, cadeiras, armários, panelas e fogão, junto com pedaços de madeira e ferro abandonados. O lugar serve ainda de refúgio para galinhas. Faz sete dias que sua alimentação se resume a um único prato: arroz. “Está muito difícil viver dessa maneira”, diz Hilda, aos prantos. “Meu filho de 40 anos não encontra trabalho (ela não o vê desde que deixou o Aeroporto) e minha única irmã vive em São Paulo”. Na tentativa de ajudá-la, vizinhos chegaram a oferecer suas casas para Hilda dormir. Receosa, negou. À noite, dorme dentro da Kombi onde ficam seus objetos de uso pessoal. Como não há espaço para deitar, está com os pés inchados e, conseqüentemente, com andar manco.
Ontem, durante a transmissão itinerante das sextas-feiras do Fale Sem Medo, pela Rádio Difusora, Hilda expôs o seu drama. “Quando estava no Aeroporto III, apedrejavam minha casa, destruíram vidros e janelas”, lembrou. “Ao vir para cá, pensava em mudar de vida, mas talvez tenha sido pior”, disse, sem deixar de verter lágrimas por um instante.
Enquanto a história de dona Hilda era narrada ao setor competente da prefeitura, que colocou a situação para ser analisada por assistentes sociais, José Roberto Moura usou os microfones do programa para mostrar sua indignação. Cada tentativa de sair de casa é um desafio para este aposentado de 43 anos. Portador de paralisia na perna esquerda, ele está entre as centenas de moradores do bairro que sofrem com as ruas sem asfalto. Pior: como se não bastasse ter de andar de muletas, Moura precisa driblar buracos, todos de terra, localizados diante da casa. Em dias de chuva, qualquer compromisso é adiado. “É um problema antigo, que precisa de solução imediata”. O drama do aposentado resume a angústia de boa parte de quem vive no Recanto Elimar. A falta de asfalto foi a principal reclamação dos moradores durante o programa. Por conta disso, as cenas se repetem todos os dias. Quem anda de cadeira de rodas precisa ser levado. Quem tem bebê e pensava que com o carrinho mediria esforços engana-se. É preciso carregá-lo. “Não queremos nenhum luxo aqui, só viver com dignidade”, disse a merendeira Marta Augusta Martins.
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