<p>Marta Suplicy (PT-SP), pré-candidata ao governo do Estado de São Paulo, esteve em Franca na última terça-feira para se encontrar com militantes locais e buscar apoio para a candidatura. Na rápida passagem pela cidade, ela visitou o Comércio da Franca para uma entrevista exclusiva aos jornalistas Sônia Machiavelli Corrêa Neves, Joelma Ospedal, Cláudio Amaral e Leandro Ferreira. Nos 45 minutos em que esteve no jornal, Marta criticou os governos de Geraldo Alckmin e José Serra (ambos do PSDB), apostou na reeleição de Lula e disse que vencerá a disputa para o governo de São Paulo. “Estou bastante otimista em relação às eleições deste ano. O PT está recuperando a credibilidade e a militância está mais unida do que nunca para acabar com essa onda de denuncismo. Estou no páreo para ganhar”. Segundo pesquisa Ibope, Marta lidera todos os cenários. “É muito gostoso liderar essa pesquisa de opinião. Isso mostra que a minha administração na prefeitura da capital foi positiva e que posso representar perfeitamente o partido nas eleições ao governo de São Paulo”. Em relação ao outro pré-candidato pelo PT, o senador Aloizio Mercadante, Marta disse que ambos estão disputando “fraternalmente” a vaga e que a militância tem dois bons nomes para votar. “O PT é um partido democrático, não tem nenhum cacique que decide quem é ou não candidato. As prévias, que ocorrerão no dia 7 de maio, servirão para os militantes exercerem seu direito de voto e escolher o melhor”. Marta está percorrendo o interior em busca de apoio. Na semana que passou, ela passou por Ribeirão Preto, Sales Oliveira, Morro Agudo, São Joaquim da Barra, Serrana, Franca e Jaboticabal, entre outras. “Eu gosto de conhecer os problemas de perto, conversar com as pessoas. Quero ser a governadora do interior”. </p>
<p><strong><em>Comércio da Franca - A senhora está em pré-campanha pelo Estado. Qual o papel do PT de Franca na sua candidatura?</em><br />Marta Suplicy</strong> - O PT tem o diálogo aberto e contínuo com toda a militância. É isso que nos diferencia. Vamos ter 16 plenárias no Estado e o importante é a possibilidade de o militante fazer sua avaliação. O PT é um partido que não tem voto de cabresto, não tem um cacique decidindo por todo mundo e isso que é bom no PT: a possibilidade de um posicionamento diverso, a democracia interna. No dia 7 de maio (dia da prévia que escolherá entre ela e o senador Aloizio Mercadante), nós esperamos mais do que 77 mil petistas . Está sendo muito rica para o partido a discussão e para mim, como pré-candidata, é importantíssimo visitar o interior. Agora que tenho mais tempo, quero conhecer as cidades e os problemas de perto. É escutar a população. Quero ser a governadora do interior. </p>
<p><strong><em>Comércio - O PT cresceu da eleição de 1998, em que a senhora disputou, para cá?</em><br />Marta</strong> - Cresceu muito. Cresceu não só em número de quadro, mas você ter a Presidência da República, o exercício do Executivo da maior cidade brasileira, muitos governos a mais em municípios, enfim, cresceu muito. </p>
<p><strong><em>Comércio - Essa será uma campanha mais acirrada, maior, que a de 1998?</em><br />Marta</strong> - Acho que será, porque o PT ficou muito atordoado e desanimado com toda a crise do ano passado. Mas, aos poucos, a maioria da militância petista percebeu duas coisas: o erro foi gravíssimo e a manipulação (pelos outros partidos) foi também quase da mesma dimensão. Agora, parte da militância está muito a fim de recuperar o prestígio perdido e outra parte a fim de dar o troco em todos que quiseram nos prejudicar. Estou sentindo uma animação muito grande de toda a militância para as eleições. </p>
<p><strong><em>Comércio - O PT prefere enfrentar Serra ou Alckmin na disputa da Presidência?</em><br />Marta</strong> - Adversário a gente não escolhe, enfrenta. Para mim, favorece mais se for o Serra, pois foi para mim que ele prometeu que não deixaria a prefeitura, foi comigo que ele foi no cartório e registrou que ele não deixaria o cargo. O Serra fez aquele papelão, assim que assumiu o cargo, dizendo a credores que a prefeitura estava quebrada. Quebrada a prefeitura está desde a época Maluf/Pitta. Nos próximos 30 anos, 13 % do orçamento está comprometido com isso (dívida). Mas o que importa é que nós a deixamos muito melhor do que recebemos, tivemos todas as contas aprovadas pelo Tribunal de Contas e pela Câmara. Apenas o quarto ano de governo e ainda não foi enviado à Câmara, mas tenho certeza de que as contas serão aprovadas. Desde o governo de Jânio Quadros as contas da prefeitura não eram completamente aprovadas. Tivemos uma bela gestão das finanças públicas. </p>
<p><strong><em>Comércio - Quais foram as marcas fortes de sua administração na capital?</em> <br />Marta</strong> - Três marcas: Educação, com a revolução dos Céus, os uniformes para um milhão de crianças, carreira para professor, universidade para todos os professores de escolas públicas, internet em todas as escolas públicas municipais e para todos os alunos; a revolução nos transportes, que eu diria que foi mais difícil que a Educação, porque em São Paulo tinha uma máfia nos transportes e nós conseguimos melhorar bastante, mesmo não sendo fácil tirar mais de 15 mil peruas clandestinas de circulação, a metade ligada ao narcotráfico, e implantar sete mil ônibus para transporte escolar gratuito de alunos da periferia, sem falar no bilhete único, que possibilitou uma economia enorme às pessoas que utilizam o transporte coletivo. Como terceira marca, eu diria que foi a descentralização, a maior experiência que eu posso levar ao governo do Estado. Criamos 31 subprefeituras, as quais tiveram orçamento próprio e foi muito positivo. Acredito que agora deveremos ter um consórcio de regiões, possibilidade que nunca foi levantada pelo governo do Estado. Eu gostaria de dar essa possibilidade para o Estado inteiro, com dotação orçamentária. </p>
<p><strong><em>Comércio - Considerando a experiência que a senhora já viveu, qual seria o maior desafio para governar São Paulo?<br /></em>Marta</strong> - Planejamento. Em 12 anos de PSDB, o que eu mais tenho percebido é a ausência de políticas públicas agrárias, agrícolas, uma falta de papel de indutor econômico do governo. Isso deveria ser prioridade. O que foi feito da Saúde do Estado? Temos um desafio grande e acredito que com a bagagem adquirida na capital, faremos uma revolução no Estado. </p>
<p><strong><em>Comércio - O que poderia ser feito para amenizar a crise no setor calçadista de Franca?</em><br />Marta</strong> - Tem o problema do desemprego grande aqui, por causa da questão do dólar. O setor têxtil também foi bastante prejudicado. É uma questão que temos que buscar alternativas para Franca e para as cidades têxteis, como Americana. Para tentar amenizar a crise no setor, a gente sempre pode pensar numa forma de o BNDES entrar com alguma proposta. Acho que esse poderia ser um caminho. </p>
<p><strong><em>Comércio - Como a senhora avalia o governo Alckmin?</em><br />Marta</strong> - É um governo que tem acertos, mas tem muitas dívidas, principalmente na área de Segurança, como é o caso das unidades da Febem. Outro problema do atual governo é que as coisas não são implementadas até o fim. O programa Escola da Família é uma iniciativa interessante, a ser ampliado, mas não tem estrutura para funcionar. Quanto à proposta de as escolas funcionarem em período integral, acho que isso deveria ser uma meta. Tenho perguntado para os prefeitos como está sendo o funcionamento e eles dizem que fornecem os pratos, as comidas...o currículo de disciplinas não foi adaptado para aula em período integral, o número de professores não aumentou. Então, o que é essa escola integral? É para inglês ver? O salário do professor tem sido feito através de bônus e não incorporado. O pagamento não pode ser feito dessa forma, porque acaba em engodo. O professor não pode ficar doente, não tem direito de cidadania, não pode entrar em greve. Depois de anos de arroxo salarial, o professor depende desse bônus porque está incorporado em sua mente que esse bônus é salário e não é. Isso é um abuso. A defasagem hoje na área da Educação é um absurdo. Não é em quatro anos que se resolve o problema. Uma de nossas metas é melhorar a situação do professor. </p>
<p><strong><em>Comércio - O volume que o Estado arrecada hoje pode crescer?</em><br />Marta</strong> - O Alckmin está aumentando a arrecadação, só que de uma forma muito disfarçada. O Judiciário teve um aumento enorme. Eu estava lendo o orçamento para esse ano e vai ter um aumento em algumas áreas. Outro aumento na receita do Estado virá de transferência federal. Achei isso interessante. O ICMS não aumenta, porque diminuíram várias alíquotas. </p>
<p><strong><em>Comércio - Por que a senhora merece ser a candidata do PT?</em><br />Marta</strong> - Acho que a escolha é do partido, que tem dois candidatos fortes, disputando fraternalmente e que são diferentes como pessoas e como bagagem. Nós temos personalidades e jeito de ser totalmente diferentes. O militante petista vai ter uma escolha de verdade, porque programa de governo é programa de governo, agora jeito de funcionar, o jeito que a pessoa impõe esse programa faz diferença. O nosso governo na Prefeitura de São Paulo agregou bastante o partido. O PT tem dois candidatos muito bons, com curriculuns excepcionais, dois militantes de coração. Essa disputa será muito boa. </p>
<p><strong><em>Comércio - O que a senhora tem a dizer da mais recente pesquisa do Ibope?<br /></em>Marta -</strong> É muito bom aparecer em primeiro lugar (risos). Ter 39% da preferência na capital, para mim, foi muito gostoso. É o reconhecimento do trabalho na prefeitura. Esse voto é muito válido porque é o reconhecimento de tudo o que fizemos de bom em São Paulo. Agora no interior, estamos crescendo gradativamente. A quanto tempo eu não venho ao interior? Agora que estou começando a visitar as cidades paulistas, estou com todo o tempo do mundo para fazer campanha. Eu gosto de ir às pequenas cidades, estar vendo os problemas de perto. Acho que a gente tem toda a condição de ganhar as eleições. Estou bastante animada. </p>
<p><strong><em>Comércio - E a respeito da denúncia de que Ratinho teria recebido R$ 5 milhões para falar bem do Lula e da senhora?</em><br />Marta</strong> - Se ele recebeu dinheiro para falar bem do meu governo, por que ele não falou? (risos). Acho que isso é piada, já está um festival de denúncias, mesmo porque o que eu apanhei do Ratinho não está escrito. Já desanimei, daqui a alguns dias teremos a CPI do Fim do Mundo...Até eu que sou política não agüento mais ler sobre tantas denúncia infundadas, imagina o cidadão normal...Essa denúncia não tem o menor cabimento. </p>
<p><strong><em>Comércio - Qual a solução para resolver os problemas na área de transporte e como reduzir o custo dos pedágios?<br /></em>Marta</strong> - Na questão dos pedágios a gente tem que ter cuidado, porque eu não tenho acesso às concessões. Temos que pensar que os pedágios e as concessões foram feitas no governo do PSDB e nunca mais ninguém analisou o que realmente foi feito. Eu tenho muita vontade de analisar em que circunstâncias essas concessões foram feitas. Mesmo as CPIs que foram propostas nessas áreas nunca conseguiram ser aprovadas na Assembléia. Tem 62 CPIs propostas, inclusive até sobre a Febem, que eu teria muito interesse em analisar. A gente só vai saber dessas coisas todas quando entrar no governo. Voltando aos transportes, acho interessante a gente estudar também sobre as hidrovias e a possibilidade ferroviária, que está muito abandonada. O transporte da cana pelas hidrovias poderia ser muito interessante. As regiões turísticas também foram bastante prejudicadas pelo excesso de pedágios. O PT tem que elaborar estratégias para melhorar bastante essas áreas e estamos no caminho. </p>
<p><strong><em>Comércio - Não resta dúvidas sobre a qualidade das estradas pedagiadas hoje...</em><br />Marta -</strong> Eu acho uma delícia viajar pelas estradas do Estado, só não gosto de pagar pedágios. </p>
<p><strong><em>Comércio - Após todas as denúncias de corrupção, como a senhora avalia a candidatura do presidente Lula à reeleição?</em><br />Marta -</strong> O presidente Lula está muito forte. Nas últimas pesquisas ele aparece em primeiro lugar em todos os cenários, inclusive no Estado de São Paulo, o mais difícil para ele. Como o presidente aparece em primeiro lugar e eu também em primeiro, acho que o PT está bem. </p>
<p><strong><em>Comércio - Essa será uma campanha boa de se acompanhar?</em><br />Marta -</strong> Acho que a oposição vai tentar transformá-la num mar de lamas, mas, no que depender de nós, vamos transformar em propostas. Eu sou sempre a favor de propostas, senão o cidadão vai desligar a televisão, isso que vai acontecer. Acho que não devemos propor nada impossível, apenas apresentaremos projetos sérios, isso que nos fará ganhar as eleições. </p>
<p><strong><em>Comércio - Qual sua mensagem em relação ao Dia Internacional da Mulher?</em><br />Marta</strong> - Acho que o Brasil está andando a passos de tartaruga nesse aspecto, estou um pouco decepcionada. Como prefeitas e governadoras, nós mulheres atingimos apenas 5,7% dos cargos no País, isso é vergonhoso. Não é à toa que o Brasil é o penúltimo País no mundo em mulheres na política. Acho que o meu partido tem uma chance histórica de mudar isso. O PT é um partido mais avançada, que lutou pelos direitos dos negros, dos homossexuais, das mulheres, então é uma chance única de colocar uma mulher no governo do Estado. Nossa candidatura será muito boa para todas as mulheres do Estado. </p>
<p><strong><em>Comércio - O PT tem alguma mulher que possa se candidatar à Presidência da República?<br /></em>Marta -</strong> Nós temos um candidato imbatível, que é o Lula. Agora para o futuro, gostaria muito que o PT ou outro partido elegesse uma mulher presidente. Mas acho que isso ainda está muito distante de acontecer.</p>
<p><strong><em> Comércio - Como a senhora avalia esse não-entendimento?</em><br />Marta</strong> - Não acho que tenha a ver com as mulheres não. Acho que tem a ver com os partidos, que não põem mulheres com força na política. </p>
<p><strong><em>Comércio - O PT se encontra em uma situação financeira difícil. A sua campanha será mais modesta que as anteriores?</em><br />Marta -</strong> Não acredito. Teremos nossos doadores, faremos uma campanha transparente, mas acho que todas as campanhas estarão a um patamar, ou dois, abaixo do que foi até agora.</p>
<p><strong><em> Comércio - E sobre a verticalização?<br />Marta</em></strong> - O Lula vai ganhar com ou sem verticalização.</p>
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