Coincidindo com o processo da Reforma Psiquiátrica no País, na gestão de Cleomar Borges houve a redução de 200 leitos no Hospital Allan Kardec. Isto significa que duas centenas de pacientes foram transferidas para outras instituições, restando em Franca cerca de 140 pacientes moradores e atendimento a 60 reincidentes eventualmente internados em casos de surtos psicóticos. “A internação psiquiátrica está intimamente relacionada às questões sociais. Temos pacientes que estão na instituição há mais de 50 anos e não têm para onde ir”, esclarece o dr. Cleomar.
A proposta de uma reforma na assistência ao doente mental baseia-se na avaliação de que a forma como ela vinha se organizando nos hospitais psiquiátricos, além de ineficaz, era segregadora, utilizando práticas equivocadas. Assim, a lei propõe uma série de princípios ideais e humanísticos ao tratamento de pacientes psiquiátricos, dentre os quais o menor tempo possível de internações e a desinternação de internos.
Para o médico, a Lei Paulo Delgado, que regulamenta a reforma do sistema de atendimento psiquiátrico, é questionável do ponto de vista prático. “Toda tentativa de implementar um novo sistema no Brasil é uma cópia de experiências fracassadas na Europa. Para se ter uma idéia, a Inglaterra está tendo de construir hospitais psiquiátricos para dar conta do contingente de pacientes que restaram desatendidos. Acho que, por ingenuidade ou afobação de nossos legisladores, essa cópia de modelo foi realizada sem a necessária avaliação de sua relação custo-benefício e, sobretudo, de suas conseqüências”, diz dr. Cleomar.
De acordo com ele, a lei é falha desde o seu princípio, ou seja, buscou adaptar um modelo de atendimento ambulatorial que praticamente inexiste no País e é de difícil implantação, uma vez que requer infra-estrutura específica e investimentos altos dificilmente realizáveis por parte do governo. “Trocando em miúdos, a lei propôs iniciar a construção de uma casa pelo telhado, quando deveria ter sido aplicada primeiro ao alicerce”.
O médico acrescenta que “para atender à realidade estatística francana, seriam necessários no mínimo dez ambulatórios, mas só temos dois. Os egressos às vezes têm de esperar entre 3 e 4 meses na fila de atendimento. O Ambulatório de Saúde Mental também não dá conta da demanda. Em síntese, as autoridades governamentais fazem seus planejamentos sem medir as conseqüências”, conclui.
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