“Jesus foi o homem mais perfeito que já passou aqui na Terra. E nem ele agradou a todo mundo”. É assim que Onofre Gosuen, prefeito de Franca durante os anos em que Juscelino Kubitschek ocupou a presidência da República, comenta a impolularidade de JK em Franca por sua ortodoxia econômica.
Gosuen, que ainda não completara 30 anos quando tomou posse da chefia do Executivo municipal, nutria grande admiração pelo presidente que melhor encarnou o ideal de progresso. Gosuen era inexperiente, mas tinha também uma visão modernizadora. Foi ele o responsável pela instalação do sistema de captação de água, pelos telefones automáticos e pela implementação da Faculdade de Direito de Franca.
Para se ter uma idéia do projeto de progresso de Gosuen, basta lembrar que, tão logo assumiu a prefeitura, criou a Associação de Ensino Superior de Franca, que tinha por projeto a criação de vários centros universitários municipais, dentre os quais se destacavam: a Faculdade de Ondontologia, Faculdade de Ciências Econômicas, Faculdade de Filosofia, Escola de Belas Artes, Conservatório Musical, escola de Química, escola Agro-industrial e Faculdade de Direito. Onofre sonhava também com a instalação de uma faculdade de medicina em Franca. No seu governo também foi criada a Comissão Municipal de Desenvolvimento, sem apoio de esferas superiores.
O pesquisador da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) Agnaldo de Sousa Barbosa afirma que, apesar dessa visão modernizadora, o jovem Gosuen carecia de tato político. A falta de habilidade diplomática e temperamento forte e trapalhão de Gosuen prejudicaram as relações da prefeitura com a Câmara Municipal e com o governo paulista. O próprio Onofre Gosuen admitiu em entrevista à reportagem do Comércio que sua relação com o governador Jânio Quadros foi “pior do que vocês podem imaginar”. As brigas entre Jânio e Gosuen teriam custado a Franca, segundo Barbosa, cortes no repasse de verbas do Estado para saúde, pavimentação e educação.
Restava a Gosuen buscar apoio na popularidade de JK. Não tendo sido ainda recebido pelo presidente na capital da República, ele aproveitou a inauguração da usina de Peixoto, ocasião na qual JK estaria na região, para levar alguns de seus projetos ao presidente. Foi nessa ocasião que Juscelino assinou a criação da Faculdade de Direito (na época a assinatura do presidente ou do governador era nescessária para a instalação de instituições de ensino superior), a implantação de uma agência da CEF e a doação de uma ambulância.
Apesar de a maioria dos projetos de Gosuen não terem sido realizados por falta de movimentação federal, o ex-prefeito sempre guardou gratidão por JK por aquilo que ele fez. Assim, após o golpe militar de 1964 e o exílio de Juscelino para a França, Gosuen teve seu mandato cassado por defender JK.
Durante entrevista ao Comércio Gosuen revelou: “Todo mundo acha que os militares cassaram meu mandato porque eu tinha viajado para Cuba, para China, para União Soviética e pra outros países tidos como comunistas, mas a verdade que eu vou te contar e não é para você falar para ninguém, é que eles ficaram bravos comigo quando na Assembléia Legislativa eu subi para defender o Juscelino. Eu falei assim: ‘o Juscelino, que expulsaram do País, é o tipo de homen que as mulheres parem de mil em mil anos.
Agora, essa raça de samaco desses militares pinga por aí de meia em meia hora em qualquer buraco’”. Ofendidos, mas sem entender direito o que Gosuen dissera, deputados pró-governo militar teriam perguntado “O senhor, que é um nobre deputado caipira, poderia nos explicar o que quis dizer com ‘raça de samaco’?”. A isso Gosuen conta que respondeu: “Samaco? É uma mistura de sapo com macaco, igual ao Castelo Branco”.
Gosuen perdeu o mandato, indo posteriormente à França, onde se encontrou com JK, que o teria recebido na casa em que vivia enquanto estava exilado.
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