Lisiane Marques
da Redação
No ano passado, foram dispensados mais de 4.500 empregados do setor calçadista. “Se o dólar continuar caindo poderemos perder novamente, em 2006, perto de cinco mil empregos”. Esse é o quadro nada colorido pintado pelo presidente do Sindifranca (Sindicato das Indústrias Calçadistas de Franca), Jorge Felix Donadelli.
Em janeiro, as exportações brasileiras de calçados totalizaram US$ 141 milhões, 7% menos que em janeiro de 2005. “Até dezembro, ainda registrávamos receita positiva, mas este quadro está mudando e os empresários não têm mais fôlego”, disse Elcio Jacometti, presidente da Abicalçados (Associação Brasileira da Indústria de Calçados).
Com um volume bem menor de negócios, quem sente os reflexos da crise primeiro são os trabalhadores das indústrias de calçados, que têm que conviver com o fantasma do desemprego. “Não agüento mais. Às vezes perco noites de sono só de pensar na possibilidade de ser mandada embora”, disse a coladeira Maria da Graça Pimentel Bernardes, viúva, mãe de uma menina de 5 anos. O medo dela é tanto que, mesmo trabalhando, acompanha os Classificados do Comércio para ver como está a demanda. “Estou sempre de olho. vai que eu preciso?” E é este mesmo olhar atento, porém acrescido de um desespero maior, que acompanha as centenas de sapateiros já desempregados. Muitos deles vão, todos os dias, à porta da Rádio Difusora conferir as vagas abertas, afixadas em lista do lado de fora do prédio. Sentado diante de um estabelecimento comercial ao lado da rádio, Gilberto Magalhães estava desanimado. “Estou cansado, todo dia é a mesma coisa. A gente vai atrás das poucas vagas, entrega currículo, faz entrevista e fica de ouvido atento ao telefone, na esperança de ser chamado, e nada”.
A crise tem deixado “órfãos” outros profissionais. A cidade, um dos principais pólos calçadistas do País, movimenta vários setores conexos, que também estão sofrendo com os reflexos da crise que assola o mercado de sapatos. Como bem exemplifica Clóvis Fernandes Parra, dono da Central Máquinas para Calçados, “estamos sofrendo como todo mundo. Não temos boas perspectivas a curto ou médio prazo”. Diante da redução no volume de negócios na cidade, sua empresa só não dispensou funcionários porque procurou outras alternativas, como o mercado de Jaú e Birigüi. “É claro que o setor calçadista sofre como um todo, mas como esses dois pólos trabalham menos com exportação, dá para fazer mais negócios por lá, uma vez que por aqui as negociações caíram 50%”, disse.
A esperança de todos é que o governo federal volte seus olhos para o setor. “O governo tem meios de criar algum expediente para diminuir essa perda do setor. A balança comercial está boa, o governo tem prestígio internacional, mas o setor calçadista pode ser, quem sabe, considerado pequeno para o contigente do governo, porque eles falam, prometem e não fazem nada”, finaliza.
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