Alceu Castilho<br />Correspondente do Comércio em Brasília<br /><br />O secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti (foto), esteve no Palácio do Planalto, há poucos dias, em cerimônia de lançamento de um grupo técnico para a divulgação da cultura cigana. Defensor da inclusão de minorias na política cultural do Brasil e nas leis de incentivo, ele assistiu a apresentações da etnia Calon e acenou com a oferta de cotas para projetos ciganos, a exemplo do edital já realizado para culturas indígenas. Conhecido pela atuação em novelas globais, como o Eugênio de Vale Tudo, Mamberti diz que nem tudo vale em termos de liberdade de expressão - em referência à recente crise entre Ocidente e Oriente provocada pela publicação de charges sobre o profeta Maomé. Ele se declara ainda preocupado com a ascensão de uma “nova direita”, até mesmo na mídia brasileira, pois diz que ela defende posições autoritárias, que vão contra a noção de diversidade cultural, promovida pela Organização das Nações Unidas há pelo menos 25 anos. Confira a entrevista: <br /><br /><strong><em>Comércio da Franca - O Diário Oficial de terça-feira mostrou alguns projetos aprovados pela Lei de Incentivo Cultural. São R$ 1,8 milhão para a Imperatriz Leopoldinense e R$ 5,6 milhões em três projetos para a turnê de Bruno e Marrone. Em ambos os casos eles não podem viver das próprias pernas? O incentivo não deveria ir para outro tipo de produção?</em><br />Sérgio Mamberti -</strong> O problema é o seguinte: as leis de incentivo são abertas. Desde que os projetos sejam tecnicamente bem apresentados, não cabe ao Ministério fazer uma observação crítica com relação ao gênero. Estamos trabalhando a idéia, no decreto que muda a regulamentação, de ter uma limitação. Eu particularmente acho que está muito concentrada a verba. A gente luta há muito tempo por uma democratização desse acesso às leis de incentivo. Elas cumprem um papel muito importante, mas certamente deixam a desejar quando muitas produções de qualidade não conseguem patrocínio. É por isso que estamos brigando por um sistema nacional de incentivo cultural, para a construção de um Plano Nacional de Cultura, para o aumento da verba direta do orçamento, para que a gente tenha um Fundo Nacional de Cultura privilegiando outras expressões que a lei não consegue atingir. Mesmo tendo modificações a serem feitas, a lei se democratizou muito, mas ainda tem esse tipo de distorção. <br /><br /><strong><em>Comércio - É esse projeto que está agora na Câmara e no Senado?</em><br />Mamberti</strong> - Exatamente. Nós terminamos as discussões em nível nacional no final de 2003, e durante esses dois anos estivemos rediscutindo para chegar o mais próximo possível, sem rupturas, das aspirações não só da comunidade cultural, mas também da visão que o Ministério tem privilegiado, de uma democratização do acesso aos meios culturais. Principalmente, no que diz respeito ao seu financiamento. <br /><br /><strong><em>Comércio - O senhor se diz preocupado com a “nova direita”, conforme expressão publicada recentemente pela Folha de S. Paulo. Por quê?</em><br />Mamberti </strong>- Um caderno da Folha fez um arrazoado sobre o pensamento da nova direita, que questiona esses valores que nós consagramos aqui no Ministério da Cultura. Eles não fazem parte só das nossas discussões, mas vêm sendo promovidos desde 1980 sobre a diversidade cultural e a proteção dessas manifestações, o respeito à diferença. Hoje, o que me deixou bastante inquieto foi, que de repente, um editorial da Folha de S. Paulo, que é um dos jornais mais importantes do País, esteja assinando embaixo dessa visão, justamente porque toda a questão da diversidade cultural, que hoje é um tema central nas discussões no mundo, foi colocada abaixo, sob pretexto de que são visões arcaicas. Então eu fiquei particularmente surpreso e vou dizer uma coisa: me deixou bastante motivado a continuar esse trabalho. Parece-me que esse tema hoje está diretamente relacionado à questão dos direitos humanos, da possibilidade de uma convivência fraterna e solidária no mundo. A gente vê hoje um mundo dividido e extremamente convulsionado justamente pelo desrespeito a essas especificidades. A matéria do jornal fala especificamente de que o Ocidente, ao publicar aquelas charges, foi considerado culpado de um delito pelos povos muçulmanos. Na verdade, essa exacerbação é provocada por uma série de fatores, mas principalmente pelo desrespeito à diferença, ao direito de você ter uma religião. Acho que você pode desenvolver o papel crítico sem desrespeitar. <strong><em></em></strong><strong><em><br /><br />Comércio - O senhor acha que a liberdade de expressão está sendo utilizada como escudo?</em><br />Mamberti</strong> - Eu acho que aí sim. Ela vai até o ponto que você não esteja tolhendo a liberdade do outro. Não é ilimitada. Ela tem os seus contornos, na medida em que você não pode ter uma liberdade absoluta e que em nome dela você cerceie a liberdade do outro. <br /><br /><strong><em>Comércio - O Estado de São Paulo publicou no domingo uma entrevista com uma ativista holandesa de origem em um país muçulmano, onde ela diz que o Ocidente está ficando refém desse tipo de revide dos muçulmanos, quando, em minhas palavras, eles não são uns santos. Em muitos desses países há violência contra a mulher, inclusive mutilações, violação de direitos, etc. Não há esse outro lado?</em><br />Mamberti </strong>- Os fundamentalismos se enquadram na visão que defendi aqui da liberdade. Não conheço essa senhora, mas concordo com ela, não é sobre isso que estou falando. Não estou defendendo especificamente nenhum tipo de etnia, mas o direito de eles defenderem a sua religião absolutamente se coaduna com isso. A exacerbação se dá em função dos choques que estão acontecendo. De repente, um país como os Estados Unidos se instala no Iraque, desrespeita a tradição cultural daquele país em nome de uma democracia. Ninguém está de acordo que o governo de Saddam era democrático e respeitava o cidadão, mas a gente não pode se esquecer também que quem colocou o Saddam no poder foi justamente quem invadiu. Então que interesses são esses que estão por trás desse processo? A ONU teria de cumprir um papel mais importante nesse sentido. O nosso Sérgio Vieira de Mello foi morto justamente porque tinha uma visão parecida com essa. Até hoje não sei por que ele foi morto, se pela violência da guerra ou até por outros interesses. Porque ele defendia o Iraque para os iraquianos. E o que está acontecendo não é bem isso. A gente viu o que aconteceu no Afeganistão, a exacerbação dos fundamentalismos. Entre palestinos e judeus, são situações que dizem respeito a essa questão do direito de cada um ter sua liberdade. Aí, a política de direitos humanos passa a ser uma questão a ser aprofundada e não colocada como uma... Ele, o Marcos Augusto Gonçalves, editor de cultura da Folha, fala que o Bono é chato porque defende justamente esses direitos. O que me chocou, pois sempre tive a Folha como um jornal importante para o País, que tem um papel muito importante no sentido da informação, e nunca vi a Folha - e já divergi muitas vezes dela - defender uma posição assim. Primeiro que é um editorial (na verdade foi um artigo com chamada de capa), a Folha se posicionando ali. <br /><br /><strong><em>Comércio - O senhor não teria se surpreendido se fosse a Veja, é isso?<br /></em>Mamberti</strong> - Bom, a Veja já há muito tempo vem atrelada a outros interesses, não exatamente os da notícia. Sou assinante da Veja ainda, para tomar conhecimento do que está acontecendo. Mas o interesse pela leitura... As matérias da Veja hoje eu passo os olhos. Porque não parecem fundamentadas, elas são em cima do preconceito, de uma visão unilateral, onde não se dá o pleno crédito a todos os envolvidos. E esse é um dos princípios do jornalismo. Fico preocupado porque são órgãos de imprensa que têm um papel muito importante. Sou um grande defensor da liberdade de imprensa, vejo nela um papel fundamental na construção de uma sociedade democrática e me pergunto o que está acontecendo com esses jornais e revistas. <br /><br /><em><strong>Comércio - A Rede Globo foi citada negativamente aqui no Palácio do Planalto, em evento sobre ciganos. Eles falaram de distorções sobre suas etnias, em particular em novelas, como</strong> Explode Coração<strong>. O senhor, até como ex-ator global, o que tem a dizer sobre isso?</strong></em><br /><strong>Mamberti</strong> - Respeito a opinião de pessoas que são ligadas à comunidade cigana, que defendem um retrato mais autêntico do que o que foi apresentado. A Globo, como todo jornalismo, cumpre um papel importante. As novelas de algum modo colocam o brasileiro em cena. Como a gente tem uma exigüidade de público no cinema brasileiro, em relação ao poder do cinema americano, o fato de a gente ter artistas brasileiros e histórias brasileiras no horário nobre é positivo, pois em outros países isso não existe. A Globo tem um papel importante. Agora, isso não quer dizer que não se tenha uma perspectiva crítica. Você tem uma liberdade de divagar e fazer a sua criação. Certamente O Clone não tinha a pretensão de ter uma fidelidade antropológica, mas traduziu, de alguma forma, o mundo islâmico e muçulmano. Pode ser que tenha havido uma ou outra distorção, mas trouxe esse universo mais próximo da gente. Até para se criar uma perspectiva crítica. O problema, na minha opinião, é quando você vai recolher uma informação e deforma o caráter de uma etnia, aí você provoca, principalmente para quem conhece, um sentimento de revolta. O artista tem essa liberdade de criar, mas quando você pensa num meio como a televisão tem de pensar duas vezes.
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