Lisiane Marques
da Redação
Uma senhora pacata, reservada e com graves problemas de saúde. Foi desta maneira que os vizinhos de Aparecida dos Santos Bernardes, a “dona Fia”, mãe de dez filhos, separada do marido, foi definida. Se andasse na rua, talvez o que poderia chamar a atenção das pessoas seriam as tatuagens que ela tem nos braços, algo pouco comum em mulheres com 75 anos.
A surpresa ao vê-la acusada de ter feito aborto em uma menina de 13 anos (dentre outros casos que estão sendo levantados) também foi unânime entre seus vizinhos. “Nunca imaginei que ela pudesse fazer algo desse tipo. É até engraçado porque ela é muito doente, quase não sai na rua. Além disso, ela sempre pareceu ter o coração muito bom. Fiquei chocada”, disse a dona de casa Delma Borges, que mora próxima à “dona Fia” há 12 anos.
A casa em que ela mora é muito simples, tem dois quartos pequenos, sala, cozinha e banheiro. Fica no Bairro São Jorge, local não muito afastado do Centro. No terreno, duas casas. Em uma, moram a acusada e seu filho solteiro de 42 anos, que sustenta a casa com o salário de sapateiro. “Dona Fia” colabora por meio da aposentadoria conquistada, segundo sua neta, que preferiu não ser identificada, há dois anos. Na outra casa mora seu outro filho com a mulher e seus dois filhos. “Minha avó não passa necessidades, ela não precisaria fazer nada disso por dinheiro”, disse Carolina (nome fictício). Ela, que tem 19 anos, vive com a avó desde criança e disse desconhecer qualquer atividade relacionada a aborto em sua casa. “Está certo que eu estudava, não ficava direto em casa, mas nunca vi ninguém estranho aqui, nunca houve nenhuma movimentação desse tipo”, disse a garota, que é contra a prática do aborto. “Acho que se a pessoa fez alguma coisa, tem que assumir. E se essa menina que denunciou a minha avó foi boa o suficiente na hora de fazer o filho, ela deveria pagar também pelo que fez, e não só a mãe dela e o namorado”, disse, como se estivesse considerando que “dona Fia” realmente fazia abortos, apesar de negar. “Eles (polícia) vieram aqui, não encontraram nada que incriminasse a minha avó, não pegaram ela em flagrante; não dá para acreditar só na versão da menina, né? Tem que ouvir as duas partes”, afirmou, indignada, sem se dar conta de que sua mãe, durante depoimento na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), confirmou que “dona Fia” praticava o crime. A própria acusada acabou confessando posteriormente. “Minha mãe estava sob pressão lá. Ela estava com meu sobrinho no colo e ele queria mamar e dormir, aí eles estavam fazendo pressão em cima dela, ela disse que não sabia de nada e a Graciela (delegada) disse que se ela não falasse nada ela ia sair como testemunha. Eu acho errado a minha mãe pagar por uma coisa que ela não fez”, disse indignada. Quando questionada sobre a avó, Carolina afirma apenas que ninguém conversa com ela sobre isso por causa do seu estado de saúde. “Ela está muito mal, não sei se vai agüentar tudo isso”.
OUTROS CASOS
Dona Fia foi tida pela polícia de Franca como uma verdadeira especialista em interromper gestações. Sua fama já ultrapassou a cidade há tempos, apesar de só há pouco as atenções da “lei” terem sido voltadas para ela. Segundo a Polícia Civil, a mulher respondeu a quatro processos por provocar aborto, o primeiro deles em 1969. Em 1978, foi condenada pelo crime, mas, beneficiada por sursis, teve a pena suspensa e não foi presa. Há 12 anos, foi acusada de interromper a gestação de uma jovem moradora de Ribeirão Corrente. Também já respondeu a processo por lesão corporal. Apesar do currículo, nunca foi presa.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.