Wildnei Teodoro
da Redação
Primeiro dia de aula na faculdade. Motivo de felicidade para o aluno, de orgulho para os pais, dia de festa. Memória para sempre lembrada. Divisor de etapas de vida. Assim prometia ser o dia 13 de fevereiro para Tiago Rosa Careta, 21. O calouro do curso de Administração de Empresas na Unifran saiu de sua casa em Cristais Paulista e foi à faculdade ansioso, alegre e pronto para o novo.
A mesma sensação tinha Bruna Durães, 18. Era o dia em que sua formação em Administração de Empresas, assunto que ela “adora”, se iniciaria. A felicidade dominava suas expectativas.
Para Alysson de Souza Naves, 2006 era o segundo ano no curso de Sistemas de Informação da Unifran. Para ele, o sentimento do novo não existia, mas o primeiro dia de aula é sempre animado. Ano de aplicar trote nos “bixos” para recepcioná-los, como foi feito com ele. Brincadeiras, cortes de cabelo, tinta. No caso de Alysson, um pouco mais a ser levado. Permanganato de potássio, substância roxa originalmente usada para curar feridas de animais, era mais um dos recursos para colorir rostos e cabelos dos calouros. Indicação de um veterinário da empresa em que seu pai, Manoel Antônio Naves, trabalha.
Três personagens, a mesma ansiedade pelo início das aulas principais, mas o que era pra ser um dia feliz, transformou-se quase numa tragédia.
Tiago chegou à Unifran e se dirigiu à sala de aulas, onde, antes do intervalo, assistiu a duas delas. Durante o intervalo foi que o calouro viu pela primeira vez seus veteranos. Tesouras e máquinas de cortar cabelos ameaçaram os de Tiago, ainda intactos. Mas, por intercessão de seguranças da universidade, foram salvos ao menos por alguns minutos. Os alunos, “bixos” e veteranos, saíram do campus, onde é proibido o trote, e se dirigiram à Avenida Doutor Armando Salles Oliveira, que dá acesso à universidade. Não houve resistência por parte dos calouros. Nem mesmo de Tiago. “Acho que o trote tem sua importância, até mesmo como integração”, diz o jovem.
É neste momento que os três personagens principas da história se encontram. Em meio às brincadeiras, Tiago, Bruna e Alysson juntaram-se em um mesmo grupo. “Estava tudo normal, praticamente acabado”, conta Tiago, que já havia perdido boa parte de seus cabelos. “Estava feliz por ter encontrado antigos amigos que também estudam na Unifran. Em questão de segundos tudo mudou”, diz Bruna Durães.
Segundos em que Alysson jogou o permanganato de potásso que havia levado em Bruna. Segundos em que Bruna jogou o pó roxo em Tiago. Ao contrário do que aconteceu com a caloura, o produto químico passou a provocar queimaduras na cabeça e no pescoço do jovem, que deixou às pressas o local e se dirigiu para a casa da namorada para se lavar. “Em direção ao carro, tive que dar a volta porque não consegui passar pelo meio do povo. A distância entre a universidade e a casa dela (namorada) parecia infinita. Temi pelo pior”, diz o jovem. A reação química que causou lesões na cabeça e no pescoço do calouro pode ter ocorrido devido à mistura do pó com cerveja, também jogada em Tiago. Mas apenas o laudo da Polícia Científica, que deve sair nesta semana, pode confirmar a hipótese.
O trote continuou. Houve inclusive um grupo de estudantes que tentou virar quatro ônibus coletivos e algumas vans que passavam pelo local enquanto dezenas de passageiros pediam que parassem. Bruna conta que, para ela, as brincadeiras terminaram pouco depois das 22 horas. Ela foi pra casa descansar satisfeita com seu primeiro dia na faculdade. “Fui dormir feliz. Até então tinha sido um dia perfeito”. Segundo ela, seu sono foi interrompido em sua casa de madrugada, pela mãe da namorada de Tiago, que perguntava o que havia sido jogado na cabeça do rapaz. Neste momento, as lembranças boas que marcaram até ali o dia da caloura começaram a se transformar em pesadelo.
apuração
A Polícia instaurou inquérito para apurar o caso. Familiares registraram boletim de ocorrência na própria noite do incidente. Os envolvidos, entre eles Bruna e Tiago, estão sendo ouvidos. Alysson, em seu depoimento, disse não ter tido “intenção de machucar ninguém”. E demonstrou arrependimento. “Nunca mais farei uma coisa dessas”.
Bruna é só lamentos. “Eu só quero esquecer”. A garota afirma que o seu primeiro dia de faculdade só é fonte de tristeza. Para ela e para seus familiares. “Estou arrasada. Não durmo e não como direito. Nunca esperava uma coisa dessas”. Ela diz que não tem ido à faculdade por não estar com preparo psicológico suficiente. “Espero resolver a questão logo e voltar à vida normal para não prejudicar o andamento do curso que tanto adoro”.
As queimaduras na cabeça de Tiago, que ameaçam deixá-lo careca, parecem estar evoluindo para completa recuperação. “A princípio não haverá seqüelas. Já está começando a nascer alguns cabelos”, disse Tiago. Em relação à lembrança de seu primeiro dia na faculdade, que de memória feliz se transformou em uma quase tragédia, o rapaz foi categórico. “Uma decepção. Em vez de aproveitar a primeira semana de aula, me vi obrigado a compromissos legais e médicos. Só resta contornar os problemas e voltar às aulas na segunda”.
Tiago acredita que do ocorrido resta a lição. Apesar de crer que o trote é importante como forma de integração, o estudante acredita que, a partir do momento em que as brincadeiras ultrapassam a vontade do calouro, não são mais válidas. Ele diz que tudo na vida exige responsabilidade e ainda dá uma regra básica para quem aplica o trote. “O veterano deve espelhar-se em si mesmo para saber o que pode e o que não pode ser feito”. Mas, para Tiago, não há mais muito o que pensar em relação ao assunto. “No ano que vem, não darei trote”.
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