Leandro J. A. Cruz
Editor-assistente do Caderno B
Uma multidão de trabalhadores negros penando de sol a sol nos canaviais sob o olhar vigilante do feitor, sempre pronto a castigar o escravo que não andasse na linha. À noite, os cativos voltavam para as senzalas escuras.
Esqueça. Não era assim. Esse cotidiano retratado nos livros didáticos estava restrito a apenas certas regiões monocultoras.
Uma história bem diferente é revelada pela pesquisa do historiador Ricardo Alexandre Ferreira, que, só após receber o reconhecimento internacional pela co-autoria de Instituciones y formas de control social en América Latina, é que publica no Brasil o já premiado Senhores de Poucos Escravos: Cativeiro e criminalidade num ambiente rural.
O livro, que integra a coleção Teses Premiadas da Editora Unesp e já está à venda nas melhores livrarias, tem a Franca do período 1830-1888 como palco.
Ferreira, natural de Frutal, discípulo do historiador chileno Horácio Gutiérrez, vasculhou processos criminais do século 19 que mostravam escravos tanto no papel de réus como no de vítimas. O autor acabou encontrando histórias repletas de ingredientes como ciúme, inveja, ganância, incêndios criminosos, malandragem, feitiço, sexo, jogatina, brigas em casas de prostituição, machados sujos de sangue de recém-nascidos.
Os depoimentos e investigações revelam o cotidiano da época. Em Franca, os donos de escravos eram bem diferentes daqueles dos romances de José Lins do Rego. Os senhores daqui tinham poucos escravos, nunca mais que cinco, empregados nos mais diferentes serviços, como no cuidado com o gado, na agricultura de subsistência, na lida doméstica, etc.
Com plantel tão pequeno, os senhores não tinham feitores para vigiar seus cativos, e não raro se arriscavam a tentar castigá-los sozinhos; o desfecho às vezes era fatal. A falta do feitor permitia que os negros tivessem uma mobilidade maior, andando por todo lado e protagonizando diversas intrigas.
Os donos sempre tentavam evitar que as faltas de seus escravos fossem levadas à Justiça, pois a prisão ou açoite (aplicado no pelourinho situado onde hoje é a Praça Barão) fazia com que o negro ficasse dias sem trabalhar.
Senhores de Poucos Escravos é, sem dúvida, um dos mais saborosos livros sobre a história de Franca desde a publicação de Do Sertão do Rio Pardo à Vila Franca do Imperador, de José Chiachiri Filho, em 1986. Contudo, duas ressalvas sobre a obra devem ser feitas antes que o leitor comece a devorar suas 174 páginas: a primeira dela é que Senhores (...) não foi escrito nem premiado como um livro de literatura de entretenimento, mas tinha como objetivo inicial (e esse foi alcançado) ser uma pesquisa historiográfica no sentido mais científico possível. Portanto a tecnicidade, as estatísticas e citações podem causar estranheza ao leitor pouco acostumado com historiografia, e que busca diversão em vez de análise, fazendo-o achar a introdução e a maior parte do capítulo 1 um tanto quanto cansativas, vindo a se deliciar com as boas histórias apenas por volta da página 50. Outra ressalva é que o leitor pode se frustrar com a falta de referência à Anselmada, um dos mais importantes acontecimentos da história francana, ocorrido no final da década de 1830.
Feitas essas observações, vale lembrar que Senhores (...) agrada a gregos e francanos, àqueles que buscam compreender melhor a sociedade no período escravista e àqueles apaixonados pelas páginas policiais do noticiário.
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