Leandro J. A. Cruz
Editor-assistente do caderno Brasil
A manhã de sol de ontem foi recebida com alegria pelos membros do Movimento pela Libertação dos Sem-Terra (MLST) que estão acampados na Fazenda Santana, em Cristais Paulista. Cerca de 250 famílias invadiram o local na madrugada de sábado. São trabalhadores rurais que saíram de Minas Gerais, do interior de São Paulo, e por pessoas que migraram do nordeste para Franca.
Se a chuva é tida como benção pelo agricultor estabelecido em sua propriedade, pelo sem-terra montando acampamento é ameaçadora inimiga.
A forte precipitação de domingo derrubou cinco barracas, deixou alguns acampados com dor de garganta, molhou pertences e tornou intransitável a estrada de terra que leva à fazenda invadida, de modo que se houvesse alguma emergência médica não seria possível buscar socorro na cidade.
Era sob esse sol animador que os sem-terra trabalhavam na reconstrução e manutenção do acampamento. Até o final da tarde de ontem, continuava sendo respeitado o trato feito entre os sem-terra e o proprietário do local de não ocupar a sede, nem danificar ou retirar coisa alguma da fazenda. Assim, os carneiros pastam tranqüilamente sem correr o risco de se juntar ao arroz, ao feijão e às batatas, compradas em supermercados antes da invasão, que serviram de almoço ontem.
Os mais novos cortam bambu, os mais experientes, como o retirante João Severino (que já participou de outras três invasões sem ter conquistado terra alguma) e o lavrador Raimundo, levantam os barracos, algumas mulheres cozinham; outras cuidavam das crianças. Quem sabe dirigir buscava, em um velho fusca azul, aquilo que fosse necessário em Cristais Paulista. Na porteira, os homens mais fortes se revezam fazendo a segurança em uma guarita improvisada junta à bandeira do MLST.
Os líderes do movimento negociam com o prefeito de Cristais Paulista, Hélio Kondo, o fornecimento de transporte escolar para que as crianças do acampamento possam estudar na cidade. O prefeito disse à reportagem do Comércio da Franca que não será possível mandar um ônibus até a Fazenda Santana, mas que poderá ser fornecido o transporte se as crianças caminharem até a estrada vicinal.
Por enquanto, a rotina do acampamento continua. Até quando, ninguém sabe precisar. O prefeito de Cristais disse que o proprietário da fazenda deve pedir a reintegração de posse do local. Para os sem-terra, quanto mais as medidas demorarem, melhor. Isto porque eles garantem que o objetivo é invadir a fazenda vizinha, Santa Cruz, que possui cerca de 1,2 mil hectares.(o equivalente a 1904,7 campos do Maracanã). E assim, sem saber como será o dia seguinte, a vida segue no acampamento.
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