As crônicas e o olhar de Luiz Cruz em livro


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Vanessa Maranha Especial para o Comércio Para Luiz Cruz, a tímida repercussão na cidade, inclusive nos meios acadêmicos, de seu último livro, a obra de referência Esboço de História da Literatura Francana, já era prevista. “Santo de casa não faz milagre. Mas, contraditoriamente, em Cássia (MG), minha terra natal, a acolhida foi surpreendente, uma vez que o livro traz nomes de cassienses envolvidos com literatura aqui em Franca. Bem, eu pesquisei e escrevi o livro. Acho que as gerações futuras é que se beneficiarão dele. As pessoas passam e o livro acaba ficando”, comenta o autor a quem o adágio popular “em terra de cego quem tem um olho é rei” nesse ponto talvez se aplicasse ainda mais apropriadamente. A título de ilustração, Esboço de História da Literatura Francana é um corajoso apanhado de todo o panorama histórico da escrita na cidade de Franca, com nada menos que dados biobibliográficos de 82 escritores que tiveram obras publicadas nessa terra fundada pelo Capitão Hipólito Antônio Pinheiro e cantada por Antônio Constantino. Incansável, um peregrino mesmo das letras francanas, o escritor Luiz Cruz de Oliveira ultrapassa os limites impostos por uma degeneração macular que lhe tem retirado 60% da capacidade de visão e lança, em março, um volume intitulado Os Anônimos, que reúne 50 das crônicas que há pelo menos dez anos publica semanalmente no Caderno de Domingo do jornal Comércio da Franca. Seu critério de escolha, entre mais de 350 textos, foi o de pinçar das páginas fugazes do jornal aqueles que traçam retratos dos humildes que fazem o cotidiano e a história de Franca. “Quem faz a história não são esses nomes que a História - com H maiúsculo - cita e tenta guardar na memória dos pósteros, mas sim os anônimos. Não são os napoleões que fazem a história, e sim os soldados”. Mas Cruz não se atém aos desconhecidos. Fala também, por exemplo, do jornalista Alfredo Hen-rique Costa, que julga injustiçado pela memória local. “Alfredo Henrique Costa foi um apaixonado, um homem fundamental para a nossa literatura, ainda que não fosse literato. Ele, que foi proprietário do jornal Comércio da Franca, rodou, na gráfica do próprio jornal, vários livros de francanos, por puro idealismo e amor à cultura”. Como no livro O Anônimo Célebre, de Ignácio de Loyola Brandão, Os Anônimos de Luiz Cruz - que não o leu - estão livres, porém, das crueldades do personagem-narrador daquele. O pedreiro, o sapateiro, o cachaceiro, compõem crônicas irreverentes, recortes do cotidiano de uma cidade de interior. Outros personagens reais presentes no livro: o Régis Cunha, da panificadora Pão Nosso; o cabeleireiro Japa; o Nicola Maniglia (para quem o escritor inventou uma namorada fictícia, “carinhosamente” chamada Teresona Pitbull); o companheiro do Grupo Veredas Ronan Roberto da Silva; o Geraldo Pelotão; o poeta Carlos de Assumpção; o carteiro e compositor Antônio Domiciano; o polêmico conterrâneo, apelidado de Dr. Filé, que se transformou em médico do juiz Lalau, alçando notoriedade enviesada fora de nossos quintais etc. Na especificidade da crônica apresentada dominicalmente ao público, o autor remete a páginas de memória, comentários metafísicos, considerações literárias muito bem dosadas. Depois segue rumo aos poemas em prosa, sempre sob o signo da ficcionalização e estilização literárias. Assim, múltiplo, transitando pela crônica, pelo conto e pelo romance, o escritor reconhece no lirismo e subjetivismo a sua grande chave literária. Lendo com lupa e escrevendo com a ajuda de caros amigos que o acompanham no apostolado das letras, Cruz não se curva jamais e quer mais: publicar, talvez ao lado do livro de crônicas, se seus recursos permitirem, o livro de bolso Por Enquanto, Canto, com a prosa de que realmente gosta, a saber, aquela de delineios poéticos, numa lírica quase extremada, que persegue a linha de Cadernos de João, de Aníbal Machado, ou ainda a prosa poética de Charles Baudelaire. “Quero fazer uma coisa simples, nessa área, num texto subjetivo,derramado liricamente, mas sem complicação”, projeta. A simplicidade que é a tônica desse escritor e, afinal, o futuro mesmo da literatura, em predição de Haroldo de Campos. A prova irrefutável de que, se as retinas às vezes falham, os olhos da alma continuam enxergando cada vez mais fundo e amplamente.

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