AMOR POR FRANCA E PELA CULTURA


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Cláudio Amaral<br />da Redação<br /><br />Nelson Pucci nasceu em Franca há 77 anos e sempre trabalhou na indústria calçadista, tal qual o avô (Pedro Pucci, italiano de Catanzaro, nascido em 1862 e falecido em 1939), o pai (Paulino Pucci, criador da Calçados Amazonas, em 1947), o tio, os irmãos e os primos. Morou e estudou em São Paulo por 30 anos, período em que se formou em administração de empresas e cuidou dos negócios da indústria na capital paulista: compras, vendas, importações e exportações. É um homem de posses. Culto, elegante, fino e solteiro. Com essas características, poderia viver em qualquer lugar do Primeiro Mundo, pelo qual viajou muito. Mas, não. Ele prefere viver em Franca. Ama essa cidade declaradamente. E foi por isso que, “há 13, 14 anos”, criou a Livraria Pórtico, no Franca Shopping. Entrou no ramo livreiro “por puro gosto”, até porque na época já sabia que esse setor tem margem de lucro reduzidíssima, especialmente para uma livraria isolada. O amor por Franca, aliado ao gosto pelos livros e à paixão pela música, às artes plásticas, aos objetos de arte, às raridades e à cultura em geral, levou Nelson Pucci a concretizar um outro sonho, na noite de 19 de dezembro: inaugurar o auditório da Pórtico Cultural, numa das esquinas históricas da cidade, a das avenidas Rio Branco e Paschoal Pulicano, no Jardim Francano, região central. Esse foi o tema inicial da entrevista que ele concedeu ao Comércio da Franca, na ocasião, momento antes da primeira de uma série de cinco Audições de Natal, promovidas de 19 a 23 de dezembro, sempre com entrada gratuita.<br /> <br /><em><strong>Comércio da Franca - Por que o senhor resolveu criar um espaço cultural dentro da Pórtico?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci </strong>- Porque pensei ser preciso criar em Franca um ambiente onde as pessoas tenham uma nova opção de reunião, de encontro para conversar. Um lugar que não seja um bar. Aqui (na Pórtico Cultural), em vez de consumir bebidas, vamos nos divertir e nos ilustrar, nos enriquecer culturalmente, tomando no máximo um bom café.<br /><br /><em><strong>Comércio - Que motivo o levou a promover audições na abertura desse espaço?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Porque queria marcar a inauguração do nosso auditório e oferecer espetáculos agradáveis e de qualidade.<br /><br /><em><strong>Comércio - E as próximas apresentações?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - A intenção é continuar com audições musicais. Mas, teremos também palestras e recitais. Exposições de obras de arte também, pois queremos um espaço aberto. Desejamos mais: ser liberais em todas as nossas promoções. Porque é isso que Franca e o povo dessa cidade merecem.<br /><br /><em><strong>Comércio - Existe uma programação definida para os próximos meses?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Vamos promover uma série de palestras sobre filosofia, psicologia e história da arte. Vamos convidar professores para nos ajudar a formar o laço cultural de que precisamos.<br /><br /><em><strong>Comércio - E a música?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Toda tarde, de segunda-feira a sábado, temos audição de piano, neste velho e bom piano alemão que mandamos recuperar.<br /><br /><em><strong>Comércio - Como serão as palestras?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Terão cunho educacional, literário, musical. Queremos convidar inclusive jornalistas para falar ao nosso público, porque eu, particularmente, gostaria muito de ouvir jornalistas falando a respeito da profissão.<br /><br /><em><strong>Comércio - Por que a Pórtico veio do Franca Shopping para este galpão?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci </strong>- Porque sou teimoso (risos). Teimei com meus irmãos (Omar, Dora e Paulo) e primo (Thomaz Licursi Júnior) porque não queria ver esse galpão demolido. Aqui tem quase cem anos de história da minha família e da empresa (Amazonas). Aqui trabalharam meu avô, meu pai, meu tio, meus irmãos e muitos operários. Gente que, como eu, ficaria muito triste com a morte desse lugar.<br /><br /><em><strong>Comércio - Quanto tempo foi preciso para instalar aqui a Pórtico Cultural?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Foi mais um ano de teimosia, de reforma, de chuva, de atraso, porque choveu durante seis meses seguidos. Não desisti porque quando mais difícil fica, mais eu gosto, e quanto mais as pessoas me pressionam, melhor eu fico. E como esse é um ambiente impregnado de trabalho, a aura é boa.<br /><br /><em><strong>Comércio - Como ter disposição para um empreendimento como esse?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Tudo aqui me motiva. Quando era menino, brincava aqui. Hoje, na minha idade - e eu não tenho problema para confessar que estou com 77 anos - digo com certeza que ficar velho não tem vantagem nenhuma. Comecei a trabalhar em São Paulo como publicitário há décadas, nos tempos em que Jesus andava na Galiléia.<br /><br /><em><strong>Comércio - Onde mais gosta de estar?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci </strong>- Em Franca. Morei em São Paulo por 30 anos. Voltei e hoje não saio de Franca por nada. Fui para São Paulo porque Franca não tinha nada: o telefone não funcionava; o telégrafo também não; nem a Mogiana. Era preciso centralizar compras, vendas, importações e exportações em São Paulo. Hoje, Franca tem de tudo, inclusive bom jornal como o Comércio. Franca mudou muito em 30, 40 anos.<br /><br /><em><strong>Comércio - O que tem a dizer a cerca da crise na indústria de calçados?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Sou otimista, mas não posso negar que tenho saudades dos tempos do Geisel (Ernesto Geisel, presidente da República de 1974 a 1979) e Figueiredo (João Figueiredo, presidente da República de 1979 a 1985). Naquela época, os presidentes vinham a Franca abrir a Francal. Hoje o governo brasileiro prestigia mais a China do que o Brasil. O que se faz com a indústria de calçado de Franca é um crime, porque, além de divisas, geramos empregos. Estamos andando para trás. A indústria de calçados não tem a menor importância, para os políticos, assim como a de confecções.<br /><br /><em><strong>Comércio - A crise cambial é o único entrave para a indústria calçadista de Franca?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Basicamente é o dólar que está nos sacrificando. Nos tempos do Benedicto Moreira na Cacex (Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil), nos anos 70, cada atividade tinha um dólar: tínhamos o dólar fiscal, o dólar turismo, etc. Ele era inteligente. Tinha brasilidade, característica que falta, hoje, aos nossos dirigentes. O nosso presidente se deslumbra com o tapete vermelho, muito banquete, mas resultado, que é bom, nada. A indústria de calçado de Franca, porém, é um osso duro de roer. A gente cai, mas se levanta de novo.<br /><br /><em><strong>Comércio - Por que o ramo livreiro?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Resolvi ser livreiro há 13, 14 anos. A margem de lucro é pequena, mas eu não me arrependo e continuo investindo nessa atividade. Por quê? Porque sou como um artista plástico que morre sem ter vendido um único quadro. Van Gogh, por exemplo. Ele não viu o sucesso das obras dele, mas jamais desistiu de pintar porque tinha uma satisfação imensa do que fazia.<br /><br /><em><strong>Comércio - Nelson Pucci é o Dr. José Mindlin de Franca?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Não. Mindlin é um homem admirável, uma das pessoas mais lindas do Brasil. É espetacular. É um dos maiores brasileiros que eu já conheci. Foi um pioneiro da indústria.<br /><em><strong>Comércio - Mas cultua livros como ele, não?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci </strong>- Sim. Gosto muito de livros, porque se você não lê, não tem como vender livros. Assim como quem não ouve e não curte música não pode trabalhar com produtos musicais.<br /><br /><em><strong>Comércio - Tem raridades, como o Dr. Mindlin?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Eu gosto de antigüidades. Meu retrato, por exemplo (risos). Tenho raridades, também, mas não muitas, porque sou muito mão aberta e dou tudo.<br /><br /><em><strong>Comércio - Por que cultivar bonsai?</strong></em><br /><strong>Nelson Pucci</strong> - Porque bonsai faz bem para a alma. Você pode comprar um bonsai pronto, mas também pode fazer e vê-lo crescer. Um dia você vê a árvore dando frutos ou flores e tem uma satisfação enorme. É igual a uma horta: não dá dinheiro, só satisfação.<br />

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