Leandro J. A. Cruz
Editor-assistente do caderno Brasil
Centenas de famílias ligadas ao Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) estão acampadas, desde a manhã de sábado, na Fazenda Santana, localizada no município de Cristais Paulista (SP), numa área próxima a Claraval (MG), após uma bem sucedida operação de invasão. Cercada de mistério e sigilo, a movimentação se estendeu por toda a madrugada de sábado. O comboio de ônibus, caminhões e carros chegou ao seu destino por volta de 2h30 sem ser incomodado pela polícia e sem enfrentar resistência de nenhum funcionário da propriedade invadida, que parecia, no meio do breu e do lamaçal, vazia.
O grupo é formado principalmente por famílias de trabalhadores rurais de Minas Gerais, do interior de São Paulo, por pessoas que migraram do Nordeste para Franca em busca de trabalho na indústria e não conseguiram emprego. Há também gente que nunca trabalhou no campo e faz da invasão de terra mais uma tentativa de conseguir uma forma qualquer de ganhar a vida.
Para o casal de agricultores José Vantuil José, 38, e Maria da Glória, 31, e seus três filhos (de idades entre 5 meses e 9 anos), virar assentado é o sonho possível para quem já se habituou com a desesperança. Os planos do casal, que carregou os filhos no colo durante a invasão, são simples como as roupas que vestiam. Fixar residência num pedaço de terra de onde possam extrair arroz, feijão, mandioca. “Tenho muito medo de não conseguir alimentar meus filhos”, diz José, cansado de peregrinar atrás de trabalho.
A família, oriunda do município mineiro de Frei Gaspar, distante 440 km ao norte de Belo Horizonte, pouco sabe sobre a burocracia e o tempo que pode levar o processo de desapropriação da área. Também parece não se animar muito com o assunto, assim como demonstra pouco interesse pelas estratégias políticas do MLST. “Quero só um pedaço de chão”, diz, econômico nas palavras e nos gestos.
A Fazenda Santana, de 100 hectares, aparentemente é um objetivo menor. O real interesse do grupo seria a desapropriação da fazenda vizinha, a Santa Cruz, um gigante de 1200 hectares. A intenção é confirmada por Jean Gomes Nascimento, 28, membro da coordenação nacional do MLST e um dos líderes do movimento. Segundo ele, o proprietário da Fazenda Santa Cruz seria um grande latifundiário com outras 11 propriedades rurais espalhadas pelo país. Todas, na avaliação dos representantes do movimento, improdutivas. “O pouco gado solto na Santa Cruz é para disfarçar o fato de que a propriedade é improdutiva e só serve à especulação fundiária”, diz Jean Nascimento.
O Comércio da Franca tentou, durante toda a tarde de sábado, localizar a pessoa apontada pelos líderes do MLST como dona da área invadida. Não conseguiu. Também não foi possível confirmar se a área invadida é improdutiva e nem que tipo de agricultura seria desenvolvida no local.
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