Há oito anos, a motorista Cláudia Maria Bolsoni, 35, encontrou no transporte escolar a alternativa para driblar o desemprego. Com a escolha, trocou o ambiente das fábricas de sapato por três turnos diários (manhã, tarde e noite) no trânsito, com buracos por todo o caminho, barulho das crianças dentro do veículo, pressa para cumprir os horários, os sufocos e satisfação em transportá-los para a escola. “É lógico que tenho dificuldades. As pessoas não respeitam a área reservada para as Vans, cometem infrações e sou obrigada a conviver com o cansaço do trânsito. Mas gosto desse trabalho e é dele que retiro o meu sustento e da minha família”.
Como as aulas estão começando, ela ainda não tem o número total de alunos que transportará em 2006, mas os trajetos diários prometem continuar longos. Cláudia fechou 2005 com 40 contratos e 200 quilômetros rodados por dia. Isso mesmo, uma viagem de ida e volta até Ribeirão Preto.
Cláudia levanta de madrugada, 5h30, e não se deita antes da meia-noite. Trabalha oito horas por dia e gasta mais ou menos duas horas no trânsito para buscar e levar crianças e universitários às instituições de ensino. O marido dela, o Tio Ronald, também faz transporte coletivo de alunos.
UM DIA NA VAN
Como um sinal, a buzina da Van da Tia Cláudia anuncia a hora de ir para a escola e traz mães, pais, avós, irmãos, amigos e empregadas até a porta das casas para a despedida. Essa é a cena mais comum nos pontos em que a motorista pára rapidamente para embarque ou desembarque dos passageiros. “Na hora do almoço, busco os alunos, levo para casa e já pego quem estuda à tarde”. Com tanto corre-corre, só o bloquinho de anotações no painel com os nomes das crianças para não esquecer de ninguém.
O cinto de segurança de algumas crianças são abotoados por ela, as outras apenas recebem o lembrete ao entrar no veículo: “Pedro, põe o cinto”.
Além das risadas e conversas, as crianças também cantam até chegar no destino final. O interessante é a diversidade do repertório. A pedido delas, a música é repetida várias vezes. Se o volume for reduzido (mesmo que para atender o celular), tem de começar de novo. Essa é a ordem dos dez alunos nos bancos de trás. Como é o grupo contra uma, Cláudia acaba cedendo.
A reportagem acompanhou a viagem pelos bairros Brasilândia, Panorama, Éden e Seminário e em uma hora de percurso presenciou infrações de ciclistas e pedestres que cortaram a frente do veículo e o trajeto com dezenas de buracos. Esses foram alguns dos sufocos enfrentados em apenas um dia de trabalho.
A Van de Cláudia Bolsoni está com sete anos, custou R$ 26 mil e foi financiada. Para circular com os alunos pelas ruas, ela fez um curso de habilitação e credenciamento para motoristas escolares, com noções de primeiros-socorros, de legislação de trânsito, de como evitar acidentes e lidar com crianças. Cada aluno (com idades entre 4 e 17 anos e universitários) paga entre R$ 75 e R$ 80 pela mensalidade do serviço.
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