A eleição presidencial terminou no domingo (25), mas a temperatura política ainda está bem longe de baixar. Em Campinas, a polarização entre direita e esquerda ganhou um desdobramento que ultrapassou os debates da Câmara Municipal e chegou ao Ministério Público. No centro da controvérsia estão dois vereadores de campos opostos: Nelson Hossri (PSD) e Guida Calixto (PT). O episódio começou com uma publicação nas redes sociais, mas ocorre num contexto muito mais amplo e preocupante, marcado por campanhas de boicote econômico e relatos de retaliação contra trabalhadores em razão de suas preferências eleitorais.
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Depois da reeleição de Lula (PT), passaram a circular nas redes sociais mensagens defendendo a demissão de funcionários identificados com a esquerda, a elaboração de listas de estabelecimentos comerciais ligados a petistas e o boicote a empresários que apoiaram o presidente. Em Campinas, Nelson Hossri entrou nessa discussão ao publicar uma imagem ilustrativa de uma loja ficcional com uma bandeira do PT na fachada e desafiar comerciantes de esquerda a fazer o mesmo em seus estabelecimentos. A postagem não continha uma ordem explícita de boicote ou demissão, mas foi interpretada por críticos como um incentivo à exposição pública de empresários por suas convicções políticas. Nos comentários, surgiram manifestações favoráveis à identificação de profissionais e estabelecimentos para possíveis boicotes, além de críticas à própria provocação, inclusive de pessoas que se declararam de direita.
Hossri é conhecido por sua atuação provocativa nas redes sociais e pelo estilo de confronto com adversários políticos. A atitude, portanto, não chega a surpreender quem acompanha sua trajetória. O que merece atenção é o contexto em que foi feita. Num ambiente de elevada tensão pós-eleitoral, desafiar comerciantes a expor sua identidade partidária pode produzir consequências diferentes daquelas de uma simples discussão ideológica. A questão não é impedir que um empresário declare apoio ao PT, ao PL ou a qualquer outra legenda. Essa é uma escolha legítima. O problema surge quando a identificação política passa a servir de referência para campanhas destinadas a atingir a atividade econômica ou o sustento de alguém.
A reação veio de Guida Calixto, que anunciou nesta quarta-feira (28) uma representação ao Ministério Público contra o colega de Legislativo. A vereadora petista sustenta que a publicação estimula perseguição e retaliação política contra comerciantes e trabalhadores. Também anunciou uma iniciativa para receber relatos de pessoas que tenham sofrido esse tipo de constrangimento.
Há uma diferença fundamental entre discordar de um comerciante por suas posições políticas e organizar mecanismos de intimidação ou discriminação contra ele. O consumidor tem liberdade para decidir onde gastar seu dinheiro, assim como qualquer empresário pode manifestar suas convicções. Mas campanhas que procuram constranger pessoas a revelar sua orientação partidária ou ameaçam trabalhadores com a perda do emprego envolvem direitos que não desaparecem depois da votação. No ambiente profissional, a liberdade de escolha política não pode ficar subordinada à preferência eleitoral do empregador. A legislação trabalhista e a proteção contra práticas discriminatórias estabelecem limites para esse tipo de conduta, independentemente de qual candidato tenha vencido a eleição.
Os dados recentes mostram que a preocupação não é apenas teórica. Segundo informações divulgadas pelo Ministério Público do Trabalho, a regional sediada em Campinas recebeu 80 novas denúncias de assédio eleitoral entre a noite de domingo e a manhã de quarta-feira, volume equivalente a 37% das ocorrências registradas na região ao longo de 2026. As queixas ainda precisam ser examinadas individualmente, mas revelam que o encerramento da eleição não eliminou os conflitos relacionados à preferência política no ambiente profissional. O Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região também reforçou que ameaças, constrangimentos e retaliações podem ser apurados mesmo depois do pleito.
A controvérsia na Câmara de Campinas oferece, assim, uma discussão que vai além da disputa entre Guida e Hossri. Qual é o limite entre uma provocação política protegida pela liberdade de expressão e uma manifestação que pode estimular a discriminação de terceiros? Essa é a pergunta que a representação coloca em evidência. A resposta exige examinar fatos concretos, sem transformar toda crítica partidária em perseguição e sem tratar possíveis ameaças econômicas como simples brincadeiras de internet. A responsabilidade é especialmente relevante quando a mensagem parte de alguém que ocupa um cargo público e possui audiência nas redes sociais.
Também seria equivocado imaginar que o respeito à liberdade política seja uma obrigação exclusiva de um campo ideológico. Trabalhadores e comerciantes que votaram em Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato devem contar com as mesmas garantias. O resultado das urnas define quem exercerá o poder, não quais cidadãos merecem proteção ou oportunidades econômicas. A democracia pressupõe o direito de vencer, de perder, de discordar e de continuar participando da vida pública sem que isso represente uma ameaça ao emprego ou à sobrevivência financeira.
O Ministério Público terá a responsabilidade de examinar a representação apresentada por Guida Calixto, e Nelson Hossri tem o direito de apresentar sua versão e defender a legalidade de sua manifestação. Enquanto isso, o episódio serve para expor uma dificuldade persistente da política brasileira: a incapacidade de encerrar a disputa eleitoral sem transformar o adversário em alguém a ser punido.
A eleição acabou. O direito de discordar permanece. E o direito de não sofrer discriminação por causa do voto também.
Não é posição política. É falta de caráter.

Agência Brasil
Só para deixar claro, há uma diferença gigantesca entre ter uma posição política e usar essa posição como justificativa para prejudicar outras pessoas. Expor comerciantes por suas preferências eleitorais, defender a demissão de funcionários que votaram no candidato adversário ou até abandonar ações sociais, como a arrecadação de alimentos para famílias em situação de extrema vulnerabilidade, não é demonstração de convicção ideológica. Para mim, é demonstração de caráter. Ou, para ser mais franco, de mau-caratismo.
Não importa se a pessoa é de direita, de esquerda ou de qualquer outra corrente política. Transformar a divergência eleitoral em instrumento de perseguição, vingança ou indiferença diante do sofrimento alheio é uma atitude vil e baixa. E há algo especialmente perverso em utilizar a necessidade de quem passa fome como moeda de uma disputa partidária. A solidariedade que depende do resultado das urnas nunca foi solidariedade de verdade.
Imagine um roteiro de ficção em que um personagem decide perseguir trabalhadores, constranger comerciantes e retirar ajuda de famílias necessitadas simplesmente pela frustração de uma expectativa. Ninguém teria dificuldade para identificar o papel desse personagem na história. Ele seria o vilão. Não por sua ideologia, mas por suas atitudes.
E é justamente essa distinção que tanta gente parece incapaz de compreender. Você pode discordar de Lula, de Bolsonaro, do PT, do PL ou de quem quiser. Pode criticar, protestar e defender suas ideias com toda a intensidade. O que não pode é confundir liberdade política com licença para humilhar, intimidar ou castigar quem pensa diferente.
Se você considera aceitável perseguir alguém por causa do voto ou deixar uma família passar necessidade para alimentar seu ressentimento político, o problema não está na urna, no partido ou no candidato. Está em você.
E, desculpe a franqueza, meu caro leitor: quem apoia conscientemente esse tipo de crueldade está demonstrando ser, sim, uma péssima pessoa.
Não é uma questão de direita ou esquerda. É uma questão de humanidade. E de caráter.
Vou dar uma sumida. Mas não sou aquele Flávio...
Depois de tantas semanas de tensão eleitoral, embates políticos, provocações, promessas e muita análise, chegou a hora de dar um pequeno descanso para a cabeça. Esta coluna fará uma breve pausa durante o feriadão de Finados, até porque ninguém é de ferro.
Mas não se preocupem: na terça-feira, dia 3 de novembro, estaremos de volta, acompanhando os bastidores, as movimentações e, certamente, as próximas confusões da política campineira.
E antes que alguém estranhe minha ausência, faço questão de esclarecer: diferentemente de um outro Flávio que andou ocupando o noticiário, eu volto.
Bom feriadão e até lá!
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br