POLÍTICA

Flávio Paradella: O Brasil diante de outra encruzilhada

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 8 min
Renato Pizzutto/Band
Lula e Flávio Bolsonaro chegam à decisão de domingo após uma campanha de ataques, promessas e dúvidas sobre o futuro do país.
Lula e Flávio Bolsonaro chegam à decisão de domingo após uma campanha de ataques, promessas e dúvidas sobre o futuro do país.

Neste domingo (25), milhões de brasileiros irão às urnas para decidir quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos. Mas seria ingenuidade imaginar que as consequências dessa escolha estarão limitadas a um mandato. O Brasil decidirá também os rumos de sua economia, a relação entre os poderes, a condução das políticas sociais e o ambiente institucional que deixaremos para as próximas gerações. É uma decisão de enorme importância, tomada ao fim de uma campanha que, na minha avaliação, esteve entre as mais desalentadoras da nossa história democrática recente. E o mais preocupante é perceber que, diante de uma escolha tão relevante, o debate público foi frequentemente reduzido a acusações, ataques pessoais, episódios fabricados para produzir repercussão e uma enxurrada de desinformação.

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) representam projetos políticos diferentes, com trajetórias e responsabilidades que não podem ser simplesmente igualadas. Mas suas campanhas encontraram um terreno comum na exploração das fragilidades do adversário e na apresentação de promessas cuja viabilidade nem sempre foi suficientemente esclarecida. O eleitor foi convidado repetidas vezes a temer o outro candidato, quando deveria ter recebido explicações consistentes sobre o que cada um pretende fazer com o país. Os programas de governo existem, propostas foram apresentadas, mas a discussão sobre custos, prioridades, limites orçamentários e capacidade de execução ficou muitas vezes em segundo plano. Em seu lugar, prosperou a velha tentação populista de oferecer respostas simples para problemas extraordinariamente complexos.

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A disputa por votos produziu uma verdadeira coleção de compromissos de última hora, benefícios anunciados, mudanças de posição e soluções que parecem mais atraentes no palanque do que na realidade administrativa. Não se trata de rejeitar políticas sociais, direitos trabalhistas, redução de impostos ou investimentos públicos. Todas essas medidas podem ser legítimas e necessárias. A irresponsabilidade começa quando se promete sem explicar quem pagará a conta, quais escolhas precisarão ser feitas e de onde virão os recursos. É nesse terreno que nasce aquilo que costumamos chamar de estelionato eleitoral: a sensação de que o candidato oferece durante a campanha um país que não terá condições de entregar depois da posse.

De um lado está Lula, principal personagem de um projeto político que, entre idas e vindas, ocupa o centro do poder nacional há mais de duas décadas. Seria intelectualmente desonesto ignorar os avanços sociais associados aos governos petistas, especialmente na ampliação do acesso a direitos, no combate à pobreza e na inclusão de parcelas historicamente marginalizadas da população. Mas também seria inaceitável apagar os grandes escândalos de corrupção que atingiram esse período, as distorções na relação entre partidos e estruturas estatais e os graves desequilíbrios econômicos que marcaram parte dessa trajetória. O problema não está em reconhecer as conquistas, mas em transformar essas conquistas numa espécie de absolvição permanente para todos os erros cometidos em nome delas. Nenhum avanço social concede a um grupo político o direito de se considerar indispensável ou imune à cobrança.

O petismo construiu uma relação profunda com o poder e com as estruturas que o sustentam. Ao longo de sua trajetória, combinou políticas públicas relevantes, alianças pragmáticas e uma permanente disputa pela preservação de sua influência. A crítica necessária é à dificuldade de separar o projeto de país do projeto de permanência de um grupo político no comando. Quando uma liderança passa a ser apresentada como a única capaz de proteger conquistas sociais, corre-se o risco de transformar direitos da população em patrimônio eleitoral de um partido. Programas públicos devem pertencer aos cidadãos, não aos governantes que os anunciam. E uma democracia saudável precisa ser capaz de preservar políticas bem-sucedidas sem depender eternamente da permanência de seus criadores no poder.

Do outro lado está Flávio Bolsonaro, herdeiro político de um movimento que chegou à Presidência prometendo romper com os vícios da política tradicional. A experiência do governo Jair Bolsonaro, entretanto, deixou episódios graves de confronto com instituições, ataques ao sistema eleitoral e uma condução da pandemia marcada por declarações e decisões que provocaram intensas controvérsias. Também expôs contradições entre o discurso de renovação e a convivência com práticas tradicionais de negociação e distribuição de poder. O bolsonarismo prometeu combater o sistema, mas precisou operar dentro dele e não se mostrou imune às suas conveniências. Flávio apresenta propostas próprias e deve ser avaliado por elas, mas não pode pretender herdar apenas a popularidade do pai e deixar de responder pelas contradições do movimento que representa.

A candidatura do senador também convive com questionamentos e suspeitas graves de corrupção envolvendo sua trajetória política, que precisam ser examinados com rigor, respeito às decisões judiciais e distinção entre acusações e fatos comprovados. Não se deve transformar suspeitas em condenações antecipadas. Mas tampouco é aceitável que a identidade de um grupo político funcione como escudo contra perguntas legítimas. A exigência de integridade, transparência e respeito às instituições precisa ser a mesma para quem se apresenta como defensor da democracia e para quem promete combater os privilégios do sistema. O país já sofreu demais com a ideia de que os erros cometidos pelos por aliados são sempre menos graves do que aqueles praticados pelos adversários.

Talvez a característica mais deprimente desta eleição seja justamente a transformação da política numa disputa entre figuras tratadas por seus seguidores como salvadores da pátria. Para parte do eleitorado, Lula representa a proteção contra todos os riscos atribuídos ao bolsonarismo. Para outra, Flávio surge como instrumento para impedir a continuidade do petismo. São percepções políticas que ajudam a explicar a polarização, mas que não dispensam o exame crítico de cada candidatura. O problema começa quando a defesa de um candidato exige fechar os olhos para seus erros e enxergar no adversário a origem de todos os males nacionais. Nesse ambiente, a discussão deixa de ser sobre governar um país complexo e passa a ser sobre derrotar um inimigo.

E o Brasil real continua esperando. A população enfrenta dificuldades com o custo de vida, a violência, a qualidade dos serviços públicos, a carga tributária e as oportunidades de trabalho. O Estado precisa financiar políticas essenciais, mas também enfrenta restrições fiscais e demandas crescentes. A economia exige previsibilidade, investimentos e decisões que nem sempre produzem aplausos imediatos. Nenhum desses desafios desaparecerá com a vitória de Lula ou de Flávio. O próximo presidente precisará governar também para aqueles que não votaram nele, negociar com um Congresso mais conservador, porém pragmático, e administrar um país que não cabe nos slogans de campanha. É aí que as promessas serão confrontadas com a realidade, e que a responsabilidade deverá substituir a retórica.

Não pretendo antecipar o resultado de domingo, muito menos negar a importância da escolha individual de cada eleitor. Há razões diferentes e legítimas para que brasileiros apoiem um ou outro candidato, assim como existem motivos para que tantos estejam insatisfeitos com as alternativas disponíveis. O voto pertence ao cidadão, que deve exercê-lo de acordo com suas convicções e sua avaliação dos fatos. Mas nenhum resultado eleitoral pode ser tratado como autorização para governar sem limites, relativizar erros ou exigir fidelidade incondicional da sociedade. A vitória nas urnas confere legitimidade para exercer o poder, não imunidade à crítica.

Confesso, meu caro leitor, que chego a esta eleição com pouca disposição para os discursos triunfalistas que certamente ouviremos na noite deste domingo. A experiência brasileira recomenda desconfiança diante de promessas grandiosas e de lideranças que se apresentam como respostas definitivas para todos os nossos problemas. O país precisa de instituições que funcionem, políticas públicas sustentáveis, respeito às diferenças e governantes capazes de prestar contas. Precisa, sobretudo, abandonar a ideia de que seu futuro depende da existência de um herói político.

Desculpe a falta de entusiasmo. Mas, depois de uma campanha tão marcada pelo confronto e tão carente de discussões profundas, é difícil enxergar motivos para celebrar antecipadamente qualquer desfecho.

Não estamos condenados a uma hecatombe. Mas continuaremos correndo riscos enquanto insistirmos em tratar a política como uma guerra entre salvadores e inimigos, em vez de uma atividade que exige responsabilidade, limites e resultados.

O Brasil não precisa de falsos heróis. Precisa, finalmente, aprender a não depender deles.

Eleições sob chuva


Agência Brasil

Os eleitores de Campinas devem enfrentar um domingo (25) de muita chuva para ir às urnas no segundo turno das eleições presidenciais. A previsão da Climatempo aponta 62,8 milímetros de precipitação acumulada, volume considerado elevado para um único dia, com 98% de probabilidade de chuva. O cenário inclui possibilidade de temporais, descargas elétricas e rajadas de vento, justamente durante o período de votação.

A mudança no tempo é provocada pela influência de uma frente fria sobre o oceano, combinada com instabilidades atmosféricas que favorecem a formação de nuvens carregadas em Campinas e na Região Metropolitana (RMC). Há possibilidade de tempestades acompanhadas de raios, rajadas de vento e ocorrência isolada de granizo.

E o cenário se agrava no domingo, quando os eleitores voltarão às urnas. A Climatempo prevê chuva forte já durante a manhã, período em que tradicionalmente há grande movimentação nos locais de votação.

Embora possam ocorrer algumas aberturas de sol à tarde, a instabilidade deve continuar, com novas pancadas de chuva até a noite. A probabilidade de precipitação chega a 98%, com acumulado estimado em 62,8 milímetros.

A temperatura também vai cair, com mínima de 19°C e máxima de apenas 23°C, segundo a previsão detalhada da Climatempo. As rajadas de vento poderão alcançar 52 km/h, aumentando o risco de queda de galhos e árvores durante as tempestades.

  • ·       Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br

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