POLÍTICA

Flávio Paradella: Os dois lados do Palácio dos Jequitibás

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 8 min
Reprodução
 Prefeito declara voto em Flávio Bolsonaro horas após coluna questionar sua discrição; decisão também expõe divergência com Wandão.
Prefeito declara voto em Flávio Bolsonaro horas após coluna questionar sua discrição; decisão também expõe divergência com Wandão.

Na política, muitas vezes, o momento de uma decisão diz tanto quanto a própria decisão. E foi justamente isso que chamou a atenção na manifestação do prefeito de Campinas, Dário Saadi (Republicanos), na noite de quinta-feira (8). Depois de uma campanha presidencial marcada por manifestações discretas de apoio a Flávio Bolsonaro (PL), o prefeito resolveu gravar um vídeo, publicar em suas próprias redes sociais e declarar, sem deixar qualquer margem para dúvidas, seu voto no segundo turno. A escolha do candidato não chega a surpreender. O que merece análise é por que Dário decidiu tornar explícito agora aquilo que vinha mantendo em segundo plano na sua comunicação política.

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A sequência dos acontecimentos é curiosa. Na própria quinta-feira, esta coluna havia abordado a diferença entre o entusiasmo demonstrado pelo prefeito na campanha de reeleição do governador Tarcísio de Freitas e a discrição adotada na disputa presidencial. Dário esteve em palanques com Flávio, discursou em eventos e nunca escondeu sua oposição ao PT e ao governo Lula. Mas faltava aquela manifestação pessoal, direta, publicada em seus canais oficiais, como tantas vezes fez em defesa de Tarcísio. Poucas horas depois da publicação da coluna, veio exatamente o vídeo que até então não havia aparecido. A proximidade temporal é um fato. Afirmar que uma coisa provocou a outra, porém, seria ir além daquilo que sabemos.

E por que agora? Convicção pessoal de que Flávio Bolsonaro representa as mudanças desejadas pelo prefeito? Uma necessidade de acompanhar mais ostensivamente a orientação nacional do Republicanos? Algum desconforto provocado pela manifestação pública do vice-prefeito Wanderley de Almeida, o Wandão (PSB), que já havia colocado o boné de Lula e declarado seu voto? São hipóteses políticas possíveis, não respostas comprovadas. E elas nem sequer precisam ser excludentes. O que existe de concreto é que Dário resolveu assumir publicamente, com a própria imagem e a própria voz, uma posição que antes aparecia sobretudo em eventos de campanha.

O conteúdo da gravação também merece atenção. Dário não se limitou a anunciar seu candidato. Começou valorizando a articulação do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, e do governador Tarcísio de Freitas, depois apresentou argumentos sobre economia, juros, endividamento das famílias, reforma tributária e mudanças no Judiciário. São as justificativas políticas que o prefeito escolheu apresentar para sua decisão, independentemente de concordâncias ou discordâncias sobre o diagnóstico. O vídeo tem, portanto, duas mensagens: declara um voto e demonstra alinhamento à articulação nacional de seu partido.

Há ainda uma diferença importante em relação ao primeiro turno. Até então, Dário conseguia manter a campanha presidencial relativamente distante da imagem pública que construiu ao lado de Tarcísio. Agora, a associação com Flávio Bolsonaro deixou de depender de imagens produzidas por terceiros ou de discursos em encontros partidários. Está registrada na página do próprio prefeito, de maneira deliberada e inequívoca. Isso não significa que tenha mudado de lado. Significa que mudou a forma de comunicar o lado em que já estava.

O movimento também tornou mais evidente uma peculiaridade da administração campineira. Prefeito e vice estão em campos opostos na disputa pela Presidência da República. Dário declarou voto em Flávio Bolsonaro. Wandão assumiu publicamente o apoio a Lula, primeiro com a fotografia de vermelho e boné e depois reafirmando sua posição em vídeo. É uma divergência que acompanha os alinhamentos nacionais do Republicanos e do PSB, mas que ganha dimensão especial porque os dois compartilham o comando da Prefeitura de Campinas. Ambos, aliás, já afirmaram anteriormente que a diferença eleitoral não compromete a administração municipal.

Essa é uma distinção necessária. Divergir numa eleição presidencial não significa romper uma aliança municipal. Dário e Wandão foram eleitos para administrar Campinas, não para concordar sobre todos os assuntos da política nacional. O que a situação revela, entretanto, é a convivência de projetos e vínculos partidários diferentes dentro do mesmo governo. E, quando chegar o momento das articulações para 2028, essas diferenças poderão voltar à mesa, embora não seja possível afirmar hoje que produzirão qualquer ruptura.

No fim, Dário resolveu colocar as cartas na mesa. Se o fez por convicção, disciplina partidária, cálculo político ou pela combinação desses fatores, somente ele poderá esclarecer. O que mudou não foi necessariamente sua preferência, mas sua disposição de associar publicamente a própria imagem à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

Até quarta-feira, a pergunta era por que o prefeito não fazia isso.

Na quinta-feira, ele fez.

Agora, a questão política deixa de ser o silêncio de Dário e passa a ser o significado da escolha.

Pé no freio


Divulgação/PMC

Depois de tantos problemas, adiamentos, questionamentos e uma disputa anulada pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), a Prefeitura de Campinas conseguiu cumprir uma etapa importante da nova licitação do transporte coletivo. O edital foi republicado dentro da primeira quinzena de outubro, conforme prometido, e o novo leilão já tem data marcada: 18 de dezembro, na B3, em São Paulo. É uma notícia positiva para um processo que acumula desgastes e cuja conclusão é aguardada há anos. Mas, diante de tudo o que já aconteceu, existe uma palavra que deveria acompanhar cada novo passo dessa concorrência: cautela.

É preciso reconhecer quando o governo cumpre aquilo que anuncia. Depois da decisão do TCE-SP que anulou a disputa de março, a administração Dário Saadi apresentou um novo calendário, prometeu atualizar os documentos e republicar o edital em outubro. Fez isso. Agora, estabeleceu um prazo de 39 dias úteis para apresentação das propostas, procurando corrigir justamente a falha que comprometeu a concorrência anterior. O cumprimento do cronograma merece registro. Mas cumprir o calendário não significa, necessariamente, que todos os problemas estejam superados. A experiência recente recomenda que ninguém trate a data de dezembro como garantia de que a novela finalmente chegará ao último capítulo.

Até porque o novo edital apresenta mudanças que merecem explicações detalhadas. A principal delas está no valor global estimado da concessão, que passou de aproximadamente R$ 11,8 bilhões para R$ 13,08 bilhões. São R$ 1,26 bilhão a mais, um crescimento de 10,6%, enquanto a previsão de investimentos em veículos, equipamentos e infraestrutura caiu ligeiramente, de R$ 1,948 bilhão para R$ 1,942 bilhão. É verdade que estamos falando de componentes diferentes: uma coisa é o custo estimado de uma operação ao longo de 15 anos; outra é o investimento previsto para modernizar o sistema. Também é compreensível que diesel, peças, salários, tecnologias e manutenção tenham seus valores atualizados. Mas números dessa dimensão não deveriam ser apresentados ao cidadão apenas como uma revisão de planilhas. Precisam ser explicados de maneira acessível, sobretudo porque estamos falando de um serviço essencial.

Outro ponto chama particularmente a atenção. A tarifa de remuneração utilizada como referência para o Lote Norte subiu aproximadamente 12%, passando de R$ 11,14 para R$ 12,48. No Lote Sul, praticamente não houve alteração: de R$ 11,60 para R$ 11,59. Não estamos falando do preço da passagem paga pelo usuário, mas de parâmetros financeiros utilizados para avaliar as propostas das empresas. Ainda assim, a diferença entre os dois lotes é expressiva e merece uma explicação técnica mais aprofundada. Quais custos mudaram tanto no Norte e praticamente nada no Sul? A atualização pode ter justificativas perfeitamente legítimas, mas é importante que elas sejam demonstradas com clareza. Transparência não é apenas publicar documentos. É permitir que a sociedade compreenda as decisões tomadas com base neles.

A republicação também preserva a estrutura central do projeto: dois lotes, contratos de 15 anos, possibilidade de prorrogação e investimentos próximos de R$ 1,94 bilhão, incluindo renovação da frota e modernização tecnológica. O modelo continua prevendo ônibus elétricos, critérios ambientais e regras para a idade dos veículos. Tudo isso é importante, mas convém lembrar que o passageiro não está esperando uma planilha melhor. Está esperando um ônibus melhor. Quem enfrenta veículos antigos, quebras, atrasos, viagens não realizadas e problemas cotidianos nas linhas precisa perceber alguma transformação concreta na qualidade do serviço. E essa transformação não acontecerá automaticamente no dia seguinte ao leilão. Haverá ainda etapas de contratação, transição e execução dos investimentos.

Também não podemos esquecer que a primeira disputa chegou a produzir vencedores. A Sancetur ficou na primeira posição do Lote Sul e o Consórcio Grande Campinas liderou o Norte. Depois, tudo voltou à estaca anterior em razão dos problemas identificados pelo Tribunal de Contas. Agora, com novos valores e condições, a concorrência está reaberta e ninguém possui vitória assegurada. O interesse público exige competição efetiva, segurança jurídica e propostas que possam ser executadas. O pior cenário seria Campinas atravessar mais uma rodada de disputa para descobrir, adiante, que alguma falha poderia ter sido evitada com uma revisão mais cuidadosa.

E é justamente aí que entra a cautela. A Prefeitura demonstrou capacidade de cumprir a primeira parte do novo calendário, mas ainda existe um caminho importante até a assinatura dos contratos. O leilão de 18 de dezembro está marcado para um período particularmente apertado do ano, às vésperas das festas, e envolve uma concessão bilionária, de enorme complexidade técnica e jurídica. A pressa para recuperar o tempo perdido não pode produzir novos erros. Depois de uma anulação determinada pelo TCE-SP, o compromisso principal precisa ser com a consistência do procedimento, e não simplesmente com a satisfação de anunciar que o leilão aconteceu antes do Natal.

O novo edital é um passo relevante. A data de dezembro é uma perspectiva concreta. E a atualização dos valores mostra que a concorrência voltou a caminhar. Mas o verdadeiro sucesso não será medido pelo cumprimento de uma promessa de calendário, e sim pela capacidade de contratar um sistema melhor, com segurança jurídica, concorrência efetiva e benefícios reais para a população.

Campinas já perdeu tempo demais com essa história. E talvez por isso seja tão importante resistir à tentação de acelerar aquilo que precisa ser feito corretamente.

Que o leilão aconteça em dezembro, como prometido. Mas que aconteça sem atalhos, sem improvisações e, principalmente, sem novos erros capazes de colocar tudo novamente a perder.

Porque, depois de tanta espera, Campinas não precisa apenas de um novo leilão. Precisa, finalmente, de uma licitação que dê certo.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br

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