O Brasil é uma democracia com viés cleptocrático. Vivemos num sistema de governo no qual se dá o uso de posições de poder no Estado para o sistemático enriquecimento privado dos governantes e seus associados.
Em "O Fantasma da Cleptocracia", Simon Schwartzman atribui o roubo endêmico dos recursos públicos à fragmentação partidária que impede a formação de maioria nos parlamentos, obrigando prefeitos, governadores e o presidente da República a cooptar parlamentares. Na maioria das vezes, não é para assegurar a governabilidade, mas para trambiques mesmo.
Cleptocracia, define-se como "governo de ladrões", forma deteriorada de Democracia e de devastadoras consequências para os cidadãos e para o país. O processo é assegurado por meio de propinas, nepotismo, aparelhamento institucional e outras práticas. O mecanismo pode assumir várias formas, de acordo com a criatividade. Aqui em Bauru, o Grupo de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) descobriu nomeações políticas para o preenchimento de cargos-chave na Prefeitura. Benefícios financeiros teriam sido pagos a vereadores para aprovação do projeto de concessão da coleta de lixo.
Nossa cidade servia como um laboratório do crime. O modus operandi, aprovado aqui, seria implantado em outros municípios.
No caso de Bauru, um consultor da Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe), Mário Luiz Silvério, foragido, sob suborno deu pareceres técnicos em favor do edital licitatório viciado. É gente da Fipe, entidade civil sem fins lucrativos, que se utiliza da Universidade de São Paulo como grife para dar credibilidade a falcatruas. Um dos objetivos para a qual foi criada é a de formulação de políticas econômicas "voltadas para o aumento do bem-estar da população".
Contratos bilionários rendem propinas milionárias. Ignora-se critérios objetivos de qualificação ou mérito. Os prejuízos aos serviços públicos vão se fazer sentir ao longo de décadas, quando os responsáveis talvez já estejam empreendendo e morando na Flórida. Eles vão e as dívidas ficam. A conta sobra para os contribuintes de impostos, tarifas e taxas.
Durkheim dizia que o crime é normal, existem em todas as sociedades, mas a esta cabe a função de criar seus anticorpos. A sociedade se robustece quando se mantém atenta às denúncias afloradas e apoia as autoridades encarregadas de zelar pelo cumprimento das leis. Quando o criminoso é julgado e punido, a sociedade não só sai fortalecida como são mais temidas as regras violadas. O corrupto precisa se esconder, a imprensa denuncia, a polícia investiga, o Ministério Público acusa, os tribunais julgam, e de vez em quando alguém importante vai para a cadeia. Escândalos não são sinais de doença, mas de que o organismo reage.
A prefeita de Bauru Suéllen Rosim deve se licenciar para dar à luz o primeiro filho. Que Nossa Senhora do Bom Parto a ampare. O marido Renato Purini, ex-secretário de Governo, está preso preventivamente pelas provas e evidências que o apontam como o principal articulador do golpe. Há uma planilha com um fluxo de propinas que somam R$ 4,1 milhões. Desde dezembro de 2025 foram feitos 14 pagamentos que podem incluir os querequezinhos de vereadores.
A prefeita Suéllen responde a uma Comissão Processante na Câmara Municipal, mesmo sem haver provas de que tenha cometido algum crime. A Câmara julga questões políticas, de responsabilidade administrativa e omissões. Crimes ficam com a Polícia e a Justiça. Ela poderá ser cassada via impeachment até por falta de vigilância, já que não sabia de nada e nem das artimanhas do marido.
Governante que depende de suborno se torna refém de subornados. Alianças baseadas no dinheiro se desfazem assim que o dinheiro acaba ou surge uma ameaça maior. Vereadores que aceitaram propina podem até votar contra a prefeita para provar que a ela nada devem.