OPINIÃO

O Salto 

Por Claudia Zogheib | Psicanalista
| Tempo de leitura: 2 min

Sem corda, uma menina cheia de vida é arremessada de um penhasco. E como não bastasse esta tragédia, os vídeos que circulam a partir do ocorrido, assim como os comentários, traduzem pensamentos de quem – ou não calculou a gravidade de sua fala, ou desconhece as leis e como as pessoas devem ser tratadas nesta condição, independente do sexo, idade, roupa, etc.

Com qual objetivo uma pessoa consegue filmar ou falar de um corpo ante esta dor? Em qual estado mental uma pessoa se encontra ao conseguir rir em vez de chorar e se solidarizar? Como podemos nos proteger do desrespeito, da falta de consciência moral e ética diante de um corpo vitimizado, neste caso, por descuido trágico e sem reparação?

Este luto tem múltiplas faces – dos familiares que perderam esta jovem, da tragédia em si, da inconsequência de pessoas que postam, comentam e tiram fotos sem autorização.  
Se colocar no lugar do outro, pensando a dor de seus familiares e em como seus últimos segundos de vida devem ter sido aterrorizantes, enquanto caindo, talvez tenha tido tempo de entender a falta do instrumento de segurança que a estava levando para o seu fim, tão precoce.

O tamanho desta tragédia é devastador de todos os lados, por todos orifícios, mas se potencializou pelos comentários que denunciam a perversa e sádica falta de empatia à dor do outro, uma epidemia social que segue desamparada e que, infelizmente, faz indivíduos conseguirem rir das coisas mais bizarras.

Não ter controle sobre o próprio pensamento ou agir com impulsividade pode ser nomeado do ponto de vista psicopatológico e é possível tratamento. Mas em todos os casos, devemos ter clareza para tratar o assunto de forma urgente e com seriedade, discriminando a linha tênue entre o normal e o patológico.

Diante de situações assim, sentir a dor das pessoas envolvidas e se solidarizar é uma forma de denúncia a uma sociedade vezes doente e sem referencial, capaz de normatizar absurdos que fermentam a curiosidade destrutiva.

No mundo da falta de rigor para postar sem a permissão do outro, onde o trabalho privado é facilmente atravessado pelo público das redes sociais, é preciso tomar cuidado. Nesta história, era uma moça que tem uma família ainda viva, convivendo com o luto da perda, da tragédia, da ausência que configura um descuido e despreparo de todos os envolvidos.

Meus sentimentos a todos os familiares.

Música “Sea Change”, de Stephan Moccio.

A autora é psicanalista, especialista pela USP – Departamento de Psicologia, Psicóloga Clínica formada pela USC, responsável pelas páginas @zogheibclaudia, @cinemaeartenodi- va, @livros.no.diva, @auguri_humanamente .

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