O Haiti foi palco da maior revolta escrava de toda a história do mundo e a única da América em que os rebeldes acabaram vitoriosos. Escrevo antes do jogo do Brasil, por exigência editorial, e espero que a maior nação negra surgida da mais importante colônia francesa não tenha aprontado contra a seleção dirigida pelo "mister" Ancelotti.
Em 1791 no Haiti, os escravos deixaram as senzalas e invadiram a casa dos seus senhores. Mataram os brancos, violentaram suas mulheres e filhas, queimaram canaviais e plantações de café. O imperador Napoleão Bonaparte mandou 50 navios cheios de soldados para tentar retomar o poder e reimplantar a escravidão. Nem assim. Os negros mostraram do que são capazes os que têm sede de liberdade. O herói dessa guerra foi Toussaint L´Ouverture, um negro que havia sido escravo até os 45 anos de idade. Neutralizou os franceses e ainda conteve as tentativas de invasão de britânicos e espanhóis que acharam fácil derrotar uma "horda de ignorantes" negros e que só sabiam manejar a enxada.
Pena que, na continuidade, a história não tenha sido condescendente com o Haiti, hoje dominada por grupos armados e antagônicos entre si.
Voltando ao assunto do momento lembro o livro de Mário Filho, que escreveu sobre "O negro no futebol brasileiro". O autor, irmão de Nelson Rodrigues, foi tão importante que o Maracanã tem o seu nome. A obra é o mais completo ensaio sociológico sobre o nosso futebol. Um livro que denso, vigoroso, genuíno, sobrevive ao tempo falando de figuras humanas, algumas delas transformadas em legendas pela mitologia popular.
Há uma revelação sobre Arthur Friedenreich, um imortal do nosso futebol. Conheci-o quando já aposentado e beirando os 70 anos. Fazia relações públicas para a Antarctica e vinha sempre a Bauru, onde a marca produzia o também famoso guaraná. Fried tinha pele azeitonada, olhos verdes, filho de alemão com mulata, cabelos alisados a fogo para não mostrar o pixaim. Imagino-o jogando no Fluminense, um clube de elite, fechado aos pretos. Conta o livro o seu martírio antes de entrar em campo; esfregava a cabeça com complicados preparados, depois enrolava a toalha e esperava assentar. Esse ritual exigia tempo e por causa disso era sempre o último a entrar em campo, às vezes com os dois times perfilados para a saída. Nem Pelé conseguiu bater o seu recorde de gols em campeonatos. Naquele tempo o futebol era praticado por filhinhos-de-papai. Havia sido introduzido no Brasil por Charles Miller, de pai escocês e mãe brasileira. Foi ele que trouxe da Inglaterra onde estudou, a primeira bola de futebol e as botinas especiais para a prática do esporte. Depois de muito tempo as pessoas comuns do povo começaram a jogar, gostaram e viram nesse esporte um meio para conquistar seu lugar ao sol na fechadíssima e rançosa sociedade brasileira. Hoje ninguém mais percebe que a Seleção do Brasil tem 20 jogadores negros ou pardos, dentre os 26 convocados. Evoluímos.
Houve um jogador branco no Botafogo do Rio, chamado Heleno de Freitas que conseguiu ofuscar os craques negros. Pena que sua época tenha coincidido com a II Guerra Mundial, quando não houve Copa do Mundo. Heleno dizia-se formado em Medicina, o que nunca se confirmou. Vinha da alta sociedade carioca. Cabelos brilhando de tanta Glostora. Conseguiu ofuscar Leonidas da Silva, o inventor do gol de bicicleta. Heleno era um centroavante comprometido com o estilo clássico, requintado, exato. Todos os seus movimentos em campo eram perfeitos e retocados por inigualável beleza plástica. O clube tinha que mandar fazer suas camisas sob medida. Uma vez a torcida decidiu chama-lo de Gilda - referência ao filme de sucesso na época, com Rita Hayworth. Heleno deixou a elegância de lado, baixou as calças e exibiu os "cojones" para a torcida.
Acabou num hospício. À noite revirava uns velhos recortes ao seu respeito. Morreu abraçado a uma bola, velha e murcha. Só assim encontrou a paz.