OPINIÃO

'Anacronismo' - ou Valores que atravessam as mudanças históricas

Por Wellington Anselmo Martins | O autor é especialista em História, Cultura e Poder
| Tempo de leitura: 1 min

O brilho do ouro é atemporal, e a verdade de 1 1=2, imutável. Assim também a dignidade humana e seus valores essenciais transcendem as épocas.

A tortura ou a condenação de inocentes, como nos casos arquetípicos de Sócrates e Jesus, despertam uma repulsa que já era reconhecida em seus próprios tempos. Não nos indignam apenas por confrontarem valores modernos, mas porque tocam um núcleo universal de humanidade que sempre soube distinguir a mínima justiça da máxima injustiça.

Essa perenidade se manifesta em múltiplos campos. Na filosofia, a "regra de ouro" ecoa seja em Confúcio, Jesus ou Kant, revelando uma busca imortal por justiça. Na antropologia, o tabu contra o incesto sugere raízes morais profundas comuns à espécie inteira. No direito, documentos como a Constituição de 1988 ou a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, e similares ainda anteriores, provam que princípios podem se adaptar a novos contextos sem perder a essência.

Por isso a imprescritibilidade de crimes contra a humanidade, afirmada pela Convenção da ONU de 1968 e pela CF/88 no caso do racismo, por exemplo, recorda que certas trevas não se tornam menos escuras só porque passaram décadas ou séculos.

É nesse horizonte que Habermas propõe um método de reconstrução ética da história, capaz de resgatar princípios universalmente válidos contra qualquer relativização ou inclinação pós-modernista.

Sua crítica à tentativa de revisionismo da chamada "Polêmica dos Historiadores" (Historikerstreit) mostrou como a suposta contextualização, quandousada para minimizar absurdos como o Holocausto, se torna uma falácia que endossa o injustificável, tenta desculpar imprescritíveis desumanidades cometidas.

Assim, compreender o passado não pode significar apagar valores perenes. Há crimes que não devem ser esquecidos nem milênios depois, porque o brilho da dignidade humana é o mesmo ontem, hoje e sempre — e essa luz ética, até entre as ruínas da história, deve continuar a nos guiar.

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