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Ciência nas redes sociais e as ‘fake news’

Por Alberto Consolaro | 12/11/2022 | Tempo de leitura: 3 min

Reprodução

 Apesar de existir há 385 anos, o método científico de Descartes ainda não conseguiu acabar com as mentiras, dogmas e mitos!
Apesar de existir há 385 anos, o método científico de Descartes ainda não conseguiu acabar com as mentiras, dogmas e mitos!

A ciência já usa há muito tempo as mídias sociais para comunicar as novas descobertas. Depois de recebidos os trabalhos, as pesquisas já são noticiadas antes mesmo que os consultores ainda não tenham analisado e aprovado sua publicação. Os trabalhos ficam expostos nos sites oficiais de cada uma das revistas. As vezes nem os assinantes das revistas sabem, mas já saiu publicado nas mídias sociais o novo avanço. Os jornais ficam atentos às novidades e quando percebe a relevância do trabalho, se noticia até na televisão e rádio. Esta “inconfidência” já é uma prática corrente.

As revistas como The Lancet, PSOL, Science e outras usam o seu peso quanto a credibilidade e acaba virando um selo de qualidade, mas a grande maioria das pessoas nem querem nem saber. Nem perguntam quem são os autores e onde foi realizada a pesquisa, infelizmente! O máximo que querem é o acesso ao resumo e desta forma começa um comentário que viraliza e é o que todo mundo usará. Isto pode gerar duas situações constrangedoras: 1. As pessoas leigas ficam sabendo dos avanços científicos antes dos profissionais. 2. Os profissionais acabam se atualizando através da mídia social.

EIS A PERGUNTA

O mecanismo clássico das revistas científicas como fonte de comunicação da ciência acabou? Há muito tempo! A maioria das grandes universidades sugerem que seus pesquisadores publiquem em revista de acesso aberto, pois é muito mais barato. Bem antigamente eram nos congressos que se comunicavam os avanços da ciência e hoje são mais feiras comerciais e marketing.

A difusão de seu trabalho hoje depende da sua credibilidade individual e da rede comunicativa que você sabe acionar ou acionarão para seu trabalho ser mais conhecido, mais divulgado e mais citado. Isto não passa necessariamente pelo fato da revista ser mais ou menos ranqueada na Capes ou Scielo.

Estas coisas são do passado recente. Ninguém lê ou segue sistematicamente as revistas científicas, hoje elas são muito mais certificadoras de qualidade, mesmo na mídia social, mas se não estiverem nas redes sociais, apesar de super qualificadas, ninguém vai lê-las e seu trabalho mofará nos arquivos.

O que vale é a divulgação da pesquisa para beneficiar um número maior de pessoas. Quantas pessoas já me perguntaram o que eu achava de uma hipótese, ideia ou descoberta que foi eu que elaborei anos atrás! Eles achavam que eram do seu amigo ou professor que repassaram aquela ideia. Eu fico muito feliz: a ideia prosperou! Que usem as mídias e divulguem os resultados!

“FAKE NEWS”?

Mas podem divulgar mentiras? Claro que sim e as pessoas terão que ter espírito crítico para filtrar e muito amor para perdoar e não ficarem loucas. O modelo antigo de trabalhos em papel, quando não se tinha a mídia social, tem o mesmo número elevadíssimo de mentiras que o atual, não se iludam.

Não existe outro antídoto para as “fake news” que não seja o conhecimento prévio da verdade, também conhecido como capacidade de discernimento. Infelizmente, o mundo não foi feito para inocentes e ignorantes, parece que faz parte da natureza humana mentir e falsear.

Se tens medo de “fake news”, a vacina chama-se conhecimento e desconfiança constante. No geral, sem ou com mídia social, 99% do que se fala ou escreve são mentiras. Mantenha sempre alerta sua capacidade de duvidar e acredite apenas naquilo que possa checar em outras fontes de conhecimento. Adão foi o primeiro a cair em mentiras e deu no que deu!

REFLEXÃO FINAL

A ciência nas mídias sociais implica em aperfeiçoamento maior ainda da linguagem humana, para que seja acessível a todos. Sempre procurei escrever trabalhos pensando que, quem está lendo seja um leigo no assunto. Assim, o deixo compreensível a todos, afinal os cérebros de leigos e cientistas têm as mesmas ferramentas de entendimento. 

As bulas de remédios são populares na internet como deveriam ser os trabalhos científicos. Todos os meios devem ser utilizados para divulgar a ciência e seus resultados, incluindo sites, blogs, jornais e revistas, programas de televisão, games e apps. A ciência é a busca constante da verdade e quanto maior for o conhecimento disponibilizado por ela, menor será a chance de mentiras se propagarem entre nós. Viva a ciência.

(Alberto Consolaro – Professor Titular pela USP e Colunista de Ciências do JC)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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