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Sobre o gel para as aftas bucais! Por Alberto Consolaro


| Tempo de leitura: 3 min

Aftas doem porque ao atacar a mucosa bucal, o sistema imune deixa de imediato o tecido conjuntivo e seus filetes neurais expostos ao meio bucal muito ácido, cheio de alimentos e com milhões de bactérias e outros microrganismos além de seus produtos.

‘QUEIMAR’ É MALUQUICE!

Uma estratégia de tratamento seria queimar a parte exposta e “matar” ou necrosar os nervos. Isto não tem qualquer fundamento científico e era feito com formol, éter, clorofórmio e até água de bateria de carros. Outros queimavam as aftas com instrumentos quentes, canivetes e até bisturi elétrico. O objetivo era “queimar” ou necrosar os filetes neurais que perderiam a capacidade de transmitir a dor. Coisa de maluco!

Afta é uma exposição local em “carne viva” e ao queimar, se promove uma camada superficial ou “filme” de tecido necrosado por ação destas substâncias químicas ou instrumentos quentes e acaba-se com a dor. A úlcera da afta tem natureza autoimune e passa agora a ser uma úlcera química ou por calor excessivo. E qual o problema?

Esses agentes químicos que queimam podem escorrer para outras áreas da boca, inclusive garganta e faringe, podendo promover um bom estrago com intensa sintomatologia. O risco não vale a pena. Outro problema é que algumas dessas substâncias químicas são carcinogênicas e podem contribuir com o aparecimento do câncer de boca e orofaringe que já tem causas sobrando agindo na boca. Uma terceira ressalva é que o produto químico ou instrumento quente forma uma úlcera facilmente contaminável por bactérias e outros microrganismos podendo dar origem a uma outra doença, agora infecciosa.

Um profissional responsável não indicaria de forma alguma este tipo de tratamento para as aftas, mesmo que o paciente esteja desesperado pelo incômodo da dor e ardência relatadas nas aftas bucais.

OUTRA ESTRATÉGIA

As aftas podem deixar de ficar expostas na boca se passarmos sobre elas uma substância em forma de pomada e creme que, em contato com o tecido vivo, se polimeriza e vira um filme de celulose ou de outro produto que não seja agressivo à úlcera e assim permanece aderido por algumas horas.

Por horas este filme não permite que os filetes neurais das aftas sejam “atacados” pelos ácidos, alimentos e microrganismos da boca e a sintomatologia desaparece. A saliva e os movimentos acabam tirando o filme formado, que deve ser reaplicado. Em alguns países este filme vem na forma de etiqueta colante que se corta e adere diretamente no local. Para que não tenha uma ação estritamente mecânica e física, os fabricantes adicionam nestes filmes produtos que controlam a dor e a ardência como analgésicos e anti-inflamatórios. Assim protegidas, as aftas podem acelerar o seu processo de regeneração epitelial e reparação conjuntiva. Não há qualquer necessidade de acrescentar nestes produtos antibióticos, antimicóticos ou antivirais, pois a natureza essencial das aftas é de autoimunidade.

GEL RECOMENDADO

Ao recomendar um gel a ser formulado nas farmácias, um dos objetivos sempre foi oferecer ao paciente acesso fácil imediato, produto de confiança e preço acessível ao redor de R$20 reais. Ele pode ser formulado em qualquer farmácia de manipulação, mas muitas pessoas tem dificuldades em formular. Para os que preferirem, uma opção é a Pharmácia Specífica pelo email atendimento@specifica.com.br, facebook/specifica ou pelo fone (14) 3104.3355.

Para explicar sua composição: os 50g de gel hidroxipropilcelulose é para formar um filme flexível e protetor que dê maleabilidade à mucosa onde é aplicado. Os 0,1% de betametasona é para atuar sobre o processo inflamatório diminuindo a sintomatologia por atuar sobre mediadores da dor, o mesmo objetivo de acrescentar os 2% de ácido acetilsalicílico, que localmente também diminui a funcionabilidade dos filetes neurais diretamente expostos no meio bucal.

O objetivo do gel é aliviar a sintomatologia nas fases mais agudas e abreviar um pouco a duração da afta. Para eliminação definitiva das aftas, precisa-se consultar um cirurgião dentista atualizado que levará em consideração o que foi abordado no artigo/post de março de 2106 sobre “O significado das Aftas: o que faço?”.

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. 

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