Como a maioria das provas que utilizam gado, a apartação vem da lida diária no campo, onde o cavaleiro se vê na necessidade de apartar (separar) uma rês do rebanho e, utilizando as habilidades do seu animal, atinge seu objetivo. A Apartação é uma das 19 modalidades equestres que passarão a ser disputadas em Araçatuba já no próximo mês de julho, de 20 a 28, com a vinda das provas da ABQM (Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha) para Araçatuba.
Nas pistas, com tempo e torcida, a prova ganha outros contornos. A cada movimento plástico e perfeito do conjunto, a torcida vai à loucura. "Apartação é um manejo utilizado no campo e que hoje virou uma prova com regras, dentro de uma pista", explica o treinador e competidor Rafael Aparecido Terçoni, 32 anos, hoje com Centro de Treinamento em Valparaíso, a 50 quilômetros de Araçatuba.
Com tempo corrido de dois minutos e trinta segundos, o cavaleiro deve adentrar à pista e fazer o seu trabalho no rebanho, apartando um boi e não deixando que ele volte a se juntar aos outros. "Esse trabalho é praticamente todo desempenhado pelo cavalo, por isso, o treinamento é considerado um dos mais difíceis. Exige muita técnica do treinador com o cavalo porque o competidor, no momento da prova, depois que retirar o boi do rebanho, não pode tocar nas rédeas", explica Terçoni.

A administradora de empresas e competidora Graziela Araújo Pereira, 39 anos, de Araçatuba, está na modalidade desde 1990. "Eu escolhi a Apartação porque é uma prova com boi, onde o cavalo é 'o espelho do boi', tem que fazer os movimentos do boi sem que o cavaleiro toque nas rédeas", explica Graziela, que monta desde tenra idade. Ela já participou de provas de diversas modalidades como Team Penning, Laço, Rédeas e Working Cow Horse. "A Apartação é a Apartação. Se eu pudesse fazer outra modalidade, seria Apartação de novo", conta, rindo, sobre sua paixão. "É uma prova muito emocionante, muito técnica. Não é qualquer cavalo que aprende a apartar. Você tem que ter concentração na hora de tirar os bois, precisa controlar a ansiedade no tempo trabalhado e, o mais interessante, é que a prova com boi é sempre imprevisível. Então, fico imaginando como será o meu boi", explica, entusiasmada a competidora que tem duas filhas pequenas e a mais velha também já trilha os caminhos nas selas dos cavalos. Cecília Araújo Pereira tem 6 anos e treina com a mãe e o pai, mas ainda não participou de nenhuma prova.
A paixão de Graziela começou em 1989, quando tinha entre 9 e 10 anos de idade. "Foi neste ano que meus pais importaram algumas matrizes dos EUA e, desde essa época, a família participa da seleção da raça quarto de milha no Brasil, investindo, fazendo cursos e buscando sempre a melhor genética de trabalho nos Estados Unidos, berço da raça", explica.
Da cidade de Birigui, o pecuarista Daílton Marin, 54 anos, seleciona cavalos desde 1982. "Eu comecei no laço. Comecei laçando cabeça de boi (team roping) e bezerro. Com a convivência com o cavalo, conhecendo mais, comecei a acompanhar provas de Apartação e comecei a notar diferença entre os cavalos desta modalidade e os outros. São cavalos mais inteligentes, com muito senso de boi, índole muito boa, o que foi me atraindo para a modalidade. Eu migrei, por volta de 2008, do laço para a Apartação". Marin explica que o mais emocionante é que, na prova de Apartação, os movimentos do cavalo são sempre inesperados. "Nunca será um movimento previsível como laço e em outras modalidades. Isso é o mais inebriante na Apartação", explica. "A partir do momento em que você solta o seu cavalo com o boi, é somente o seu cavalo e o boi. Você é apenas um passageiro e essa emoção é indescritível".
A criação de cavalos veio de forma natural para Marin. "Meus avós eram peões de estrada. Mexiam com cavalos e boi". Quando passou a entender mais de cavalos, Daílton Marin notou que os cavalos na modalidade de Apartação são "os mais inteligentes, os mais sensíveis e os que dão melhor resultado".
Para se ter uma ideia do trabalho realizado pelos treinadores, Rafael Terçoni explica que, de cada 10 potros, por volta de 7 têm o treinamento finalizado. "São utilizados cavalos quarto de milha com a linhagem fechada em trabalho", explica. Sobre a linhagem, a raça, por ser considerada a mais versátil de todas, possui as linhagens de trabalho, corrida e conformação, cada qual com suas aptidões para diferentes tipos de treinamentos e modalidades. "Para o cavalo de Apartação, ou que trabalhe em modalidades que lidam com gado, é imprescindível o 'cowsense', que é uma aptidão inerente, natural dessas linhagens fechadas em trabalho", explica o treinador. Para ele, essa aptidão é um dos pontos mais importantes, pois indica a facilidade que o animal terá para "aprender".

ENTENDA A PROVA
Ao adentrar a pista, o conjunto (cavalo e cavaleiro) tem dois minutos e trinta segundos para realizar o trabalho no rebanho, que tem 30 cabeças de bezerros (média de 3 por competidor) considerados "frescos", ou seja, que nunca foram utilizados em nenhuma outra modalidade. Na média, é possível apartar entre dois e três bois durante esse tempo. A nota atribuída ao conjunto varia de 60 a 80 pontos, sendo que os participantes iniciam os trabalhos com 70 pontos e podem ganhar ou perder.
Ao analisar o conjunto, o juiz pode atribuir pontos pelas boas tiradas de boi do rebanho, pelo cavalo estar "ligado" no boi, prestando atenção aos passos do boi, acompanhando ele em todos os momentos, e também pelos movimentos estarem sendo muito próximos com os do boi, "exatamente relacionados com os do boi", conforme explica Terçoni.
Já as causas de perda de pontos mais comuns são a perda de posição do cavalo em relação ao boi (o boi "ganha" do cavalo" ficando muito à frente do movimento realizado pelo boi), quando o cavalo "desliga" (perde atenção) do boi e quando o boi consegue voltar para o rebanho. Por se tratar de uma prova muito técnica, os critérios são bastante definidos. Notas altas, normalmente, giram em torno de 76 pontos totais. As perdas de pontos variam entre 0,5 e 5 pontos, de acordo com a “gravidade” da falta cometida. Por exemplo, uma “parada quente” (quando o cavaleiro “desliga” o cavalo, puxando pelas rédeas, em momento em que o cavalo estava em movimento), ocasiona perda de 5 pontos.
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