28 de setembro de 2026
PAMONHAS DE PIRA!

'Peruas de pamonhas' surgiram nos anos 70: veja a história

Por Da Redação |
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Divulgação
A história da iguaria está ligada ainda à própria cultura do milho

O Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba (Codepac) aprovou, por unanimidade, a abertura do processo de registro do “Modo de Preparo da Pamonha de Piracicaba” como patrimônio cultural e imaterial do município. A decisão foi publicada no Diário Oficial da cidade na quinta-feira (24/09).

Segundo o jornalista e escritor Cecílio Elias Netto, “o milho está na gênese da alimentação piracicabana, desde a povoação”. Cultivado por negros e índios, tornou-se indispensável à sobrevivência das pessoas. A escritora e pesquisadora Marly Therezinha Germano Perecin acrescenta e diz que “é um alimento de origem indígena assimilado no período colonial pela cozinha piracicabana”, completa.

O jornalista lembra que a produção “industrial” da pamonha, no entanto, começou em meados de 1940, com a família Rodrigues, iniciativa das irmãs Noemy e Vasthy. Passando a morar na Rua do Porto, elas chegaram a produzir média de cinco mil pamonhas por dia, sendo vendidas ao público e nas residências por pequenos “pamonheiros”. As irmãs desenvolveram uma máquina para acondicionar as pamonhas e contratavam verdadeiros batalhões de cozinheiras.

As “peruas de pamonhas” surgiram por volta dos anos 70. Dirceu Bigelli, um vendedor inteligente, passou a vendê-las com uma perua e com a gravação, de própria voz, do famoso slogan que dizia: “Pamonhas, pamonhas, pamonhas de Piracicaba, o puro creme do milho verde”. 

Bigelli chegou a ter uma frota de peruas e enriqueceu. A sua gravação foi, também, vendida a outros interessados que a espalharam pelo Brasil. Atualmente, Tanquinho e Charqueada são o centro de produção. “Mas nem toda a pamonha vendida país afora é genuína de Piracicaba. Tornou-se uma marca de nosso delicioso jeito caipira de ser”, finaliza Cecílio

ENTENDA A DECISÃO DO CODEPAC

A aprovação no Codepac ocorreu durante reunião ordinária realizada em 12 de junho de 2026. Como o pedido trata de saberes, técnicas e uma prática tradicional, e não de um bem físico, o eventual reconhecimento se enquadra como patrimônio cultural imaterial. A abertura do processo, no entanto, ainda não significa que o registro definitivo tenha sido concedido.

A relação da cidade com a pamonha atravessa gerações e ajudou a transformar a iguaria em um dos símbolos associados a Piracicaba. A produção, inicialmente ligada a famílias e pequenos produtores, ganhou escala ao longo do tempo, mas preservou características artesanais. Entre elas está o uso da própria palha do milho para envolver a massa, com embalagens tradicionalmente costuradas ou amarradas à mão.

A fama também ultrapassou a mesa e chegou às ruas. A partir da segunda metade do século 20, vendedores passaram a anunciar a iguaria pelas ruas da cidade, primeiro no grito e depois com carros equipados com alto-falantes. O famoso chamado “Pamonha, pamonha, pamonha! Pamonha de Piracicaba!” acabou se tornando parte da memória de moradores e visitantes e ajudou a associar o nome do município ao alimento.

Não existe uma estatística oficial sobre toda a produção de pamonhas em Piracicaba e região, mas estimativas já publicadas apontam para milhares de unidades produzidas diariamente. Em períodos de maior procura, como festas juninas e eventos, fabricantes familiares chegam a ampliar consideravelmente a produção.

A história da iguaria está ligada ainda à própria cultura do milho. A pamonha é uma preparação de origem indígena feita tradicionalmente com milho verde, e ganhou diferentes versões ao longo do tempo, com ingredientes como açúcar, leite e queijo. Em Piracicaba, o alimento passou a ter uma identidade própria e se tornou conhecido nacionalmente pelo nome da cidade.

Não existe uma única receita de pamonha, já que ingredientes e técnicas podem variar de família para família. Um dos jeitos de preparar em casa é retirar os grãos de cerca de 10 espigas de milho e batê-los com leite, açúcar, uma pitada de sal e manteiga. As palhas são lavadas, sobrepostas para formar pequenos pacotes, recebem a massa e são amarradas antes de serem cozidas em água fervente por cerca de 50 a 70 minutos. Essa é apenas uma forma de preparo caseiro e não corresponde necessariamente ao modo de preparo que será analisado pelo Codepac.

É justamente esse conjunto de conhecimentos e práticas que agora será analisado no processo aberto pelo conselho municipal. Caso o registro seja aprovado ao final do procedimento, o modo de preparo da pamonha passará a integrar oficialmente o patrimônio cultural imaterial de Piracicaba, formalizando uma tradição que há décadas faz parte da identidade da cidade.