Uma sauna para receber dinheiro vivo e até “lavar” dinheiro. Essa foi a ideia citada pelo ex-diretor-geral da Administração Tributária de São Paulo, André Weiss, em uma conversa gravada durante um almoço com fiscais da Fazenda.
A fala virou uma das provas analisadas pelo Ministério Público de São Paulo na investigação de um suposto esquema de corrupção envolvendo servidores e a liberação de créditos tributários.
No áudio, Weiss fala abertamente sobre a possibilidade de comprar uma sauna em São Paulo.
“Vamos juntar uma grana e vamos pegar uma porra de uma sauna, né? E para lavar também é bom.”
LEIA MAIS
E explica por que o negócio seria interessante para movimentar dinheiro:
“Quantas pessoas entram em sauna e pagam em dinheiro? Quase todas, cara.”
Na sequência, dispara:
“Quem que vai passar um cartão em sauna? Ninguém.”
Áudio tem mais de duas horas
A conversa aconteceu em 27 de julho de 2023 e foi gravada por um dos participantes do almoço.
O arquivo foi encontrado posteriormente no celular do auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, preso em 2025 durante a Operação Ícaro.
O Ministério Público submeteu a gravação a uma perícia, que confirmou a integridade do arquivo.
Para a Justiça, o áudio pode ser usado como prova porque a gravação foi feita por uma pessoa que participava da conversa.
Durante o almoço, os fiscais também conversaram sobre dinheiro, reuniões reservadas e processos envolvendo ressarcimento de ICMS.
Em determinado momento, Weiss foi questionado sobre uma reunião que teria tido com Paulo Sérgio Siqueira Prado.
A resposta chamou atenção:
“Rateio.”
Segundo o Ministério Público, a conversa pode indicar uma divisão de valores relacionados a supostas vantagens indevidas.
Também aparecem no áudio comentários sobre “caixinhas” e processos cujos valores não estariam batendo.
R$ 13,6 milhões em propina
A investigação ganhou ainda mais força com a colaboração premiada de Paulo Sérgio Siqueira Prado.
Segundo o depoimento dele, aproximadamente R$ 13,6 milhões teriam sido pagos para agilizar e destravar pedidos de ressarcimento tributário.
Desse total, cerca de R$ 4,5 milhões teriam sido repassados a Weiss.
O dinheiro, segundo o colaborador, era entregue em espécie e dentro de mochilas.
Prado também afirmou que passou a pagar R$ 250 mil por mês a Weiss para que ele permanecesse no comando da Delegacia Regional Tributária do Butantã até sua aposentadoria.
Em outro trecho do áudio, Weiss fala sobre a possibilidade de comprar uma Mercedes, mas demonstra preocupação com o risco de chamar atenção.
A investigação também encontrou documentos manuscritos que, segundo o MPSP, indicariam divisão de valores.
Uma anotação atribuiria a “Weiss” uma cota de R$ 747,1 mil relacionada a um processo da Via.
Prisão em Piracicaba
Weiss, que até maio ocupava o terceiro cargo mais importante da Administração Tributária de São Paulo, foi preso preventivamente nesta quinta-feira (3), em Piracicaba.
O advogado João André Buttini de Moraes também foi preso.
Outros seis servidores foram afastados e proibidos de entrar nas dependências ou acessar os sistemas da Secretaria da Fazenda.
Os investigados são suspeitos de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
As acusações ainda serão analisadas pela Justiça, e as defesas têm direito de se manifestar.
A Secretaria da Fazenda colabora com o Ministério Público e já demitiu cinco envolvidos, exonerou um e afastou outros 17 servidores. A pasta também informou que as investigações já resultaram na constituição de mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros.