04 de setembro de 2026
ELEIÇÕES 2026

IA nas eleições: especialista alerta para avanço de deepfakes

Por Bia Xavier - Jornal de Piracicaba |
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
Para Eduardo Pugliesi, o combate a conteúdos falsos nas eleições precisa deixar de ser apenas uma resposta a denúncias e passar a ser preventivo.

O avanço da inteligência artificial amplia os riscos de manipulação de conteúdos durante as eleições, especialmente com a facilidade para criar deepfakes, clonar vozes e reproduzir imagens de pessoas. Em entrevista ao Jornal de Piracicaba, Eduardo Pugliesi, responsável pelas unidades de Inteligência Artificial e Dados do CPQD, alerta que um dos principais problemas está na dificuldade de reverter os efeitos provocados pela disseminação de uma informação falsa.

Segundo o especialista, estudos apontam que, depois que uma informação falsa se espalha, o esforço necessário para corrigi-la pode ser até dez vezes maior. “Tem estudos que apontam que, na hora que você lança uma matéria fake, um deepfake, alguma coisa com conteúdo inválido, se gasta 10 vezes mais tempo e esforço para refazer o que essa informação feita erroneamente, divulgada, se propagou”, afirmou. Para ele, o risco de consumo e da não reversibilidade desse processo é muito alto.

O tema ganhou relevância após um estudo do IPIE que analisou 215 incidentes relacionados às eleições de 2024 em 50 países. Segundo o levantamento, 80% dos casos envolveram inteligência artificial generativa e 69% dos incidentes foram classificados como prejudiciais.

VEJA MAIS:



Como identificar conteúdos manipulados

Para o eleitor, Pugliesi recomenda atenção aos detalhes antes de consumir ou compartilhar conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial. “A recomendação que a gente está passando para todos os eleitores é, na hora que for consumir esse tipo de material, prestar muita atenção em detalhes”, afirmou. Entre os sinais estão os dedos das mãos, a sincronização dos lábios, o movimento dos olhos em relação à respiração e eventuais marcas d’água digitais.

A facilidade para produzir conteúdos falsos também exige uma mudança na forma de monitoramento. Segundo Pugliesi, o mercado precisa deixar de atuar apenas depois que uma denúncia chega. “O grande desafio do mercado nesse momento é sair de uma gestão reativa, aonde você recebe denúncias, vai atrás da informação para ver a veracidade e toma as atitudes cabíveis em relação a isso, para uma gestão proativa”, explicou. Essa atuação envolveria a varredura de redes sociais e conteúdos antes que eles ganhem grande alcance.

Candidatos e partidos também têm papel importante nesse processo. Para o especialista, eles precisam acompanhar não apenas aquilo que produzem, mas também o que é divulgado sobre eles. “A recomendação entre os candidatos é checar as fontes de informação, eles mesmos fazerem um trabalho proativo para ver o que está sendo divulgado e não simplesmente fazer as divulgações”, disse. Ele também defende a criação de uma base de conteúdos autênticos sobre candidatos e partidos, que possa servir de referência para identificar possíveis fraudes.

Outro desafio é que a própria inteligência artificial pode ser utilizada para verificar conteúdos criados por IA. “Eu tenho ferramentas extremamente eficientes para geração de conteúdo gerado por inteligência artificial e, por outro lado, eu vou usar a própria inteligência artificial para auditar o conteúdo gerado por uma inteligência artificial”, afirmou Pugliesi, definindo o cenário como uma “dicotomia” vivida atualmente pelo mercado.

Para ele, o enfrentamento do problema depende não apenas de novas ferramentas tecnológicas, mas também de conscientização e de uma atuação conjunta. “Isso a gente contorna olhando a causa raiz das coisas e criando uma conscientização coletiva sobre isso”, afirmou. Pugliesi defende ainda a construção de um conceito comum entre os diferentes agentes envolvidos na produção e no consumo de informação, independentemente de partido político, para aumentar a segurança diante do avanço da IA.