O Brasil deverá receber a primeira unidade industrial dedicada ao processamento em larga escala de pele de tilápia para uso médico. A fábrica será instalada em Jaguaribara, no interior do Ceará, com investimento inicial estimado em R$ 52 milhões.
A tecnologia foi desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC) e utiliza a pele da tilápia, que normalmente seria descartada pela indústria pesqueira, na produção de um curativo biológico destinado ao tratamento de queimaduras e feridas de difícil cicatrização.
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O projeto será conduzido pelo Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical. A proposta é ampliar a produção do material, atualmente preparado em pequena escala no laboratório da UFC para pesquisas e aplicações específicas.
A tecnologia também já foi utilizada em um procedimento veterinário realizado de forma inédita no Brasil em um grande felino. O trabalho foi realizado pelo veterinário de Piracicaba Dr. Giuliano do Amaral Setem na tigresa Kalandugui, de 160 quilos, que vive na Fundação Kirongozi, em Garça, no interior de São Paulo.
Kalandugui apresentava lesões crônicas e ulceradas nas orelhas. Segundo Giuliano, os ferimentos estavam relacionados ao comportamento do animal, que costumava se aproximar das grades do recinto e esfregar a cabeça no alambrado.
O contato frequente provocava lesões que não cicatrizavam e que se agravavam principalmente durante os períodos mais quentes do ano.
Para tratar os ferimentos, a equipe veterinária utilizou um implante de pele de tilápia-do-Nilo. A técnica, desenvolvida inicialmente para o tratamento de queimaduras em humanos, passou a ser estudada e aplicada também na medicina veterinária.
A região das orelhas apresentava pouca mobilidade devido às características da cartilagem, o que dificultava a realização de uma sutura convencional. Por isso, a equipe optou pelo uso do material durante um procedimento em que a tigresa também passou por avaliação clínica.
Após o implante, a pele de tilápia permaneceu aderida à região durante o processo de cicatrização e se desprendeu naturalmente entre 10 e 13 dias depois. Segundo Giuliano, quando o material se soltou, a pele já estava regenerada e havia crescimento de pelos na região tratada.
Atualmente, o laboratório da UFC consegue preparar cerca de 600 peles de tilápia por mês. Com a implantação da fábrica no Ceará, a previsão é alcançar 4,3 mil unidades por dia no primeiro ano de operação comercial.
Em uma segunda etapa, a capacidade poderá ser ampliada para até 12 mil peles diariamente.
A construção da unidade está prevista para começar em outubro deste ano. O cronograma estima entre 15 e 18 meses para a conclusão das obras, instalação dos equipamentos e validação dos lotes piloto.
Caso os prazos sejam cumpridos, a operação poderá começar em janeiro de 2028. A utilização comercial do produto dependerá, porém, do cumprimento das exigências regulatórias e sanitárias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Antes de ser utilizado, o material passa por processos de preparação e esterilização. Depois de processada, a pele pode ser aplicada sobre a região lesionada e aderir à superfície da ferida.
A tecnologia é destinada ao tratamento de queimaduras de segundo e terceiro graus. Entre as possibilidades estudadas está a redução da frequência das trocas de curativos.
Em tratamentos convencionais de queimaduras, a substituição do material pode provocar dor e, dependendo da extensão da lesão, exigir o uso de medicamentos analgésicos e novos procedimentos.
Segundo dados apresentados pela empresa responsável pelo projeto, a utilização da tecnologia pode reduzir em 52% o custo total do tratamento de queimaduras em comparação com métodos convencionais.
Também existe a expectativa de reduzir o uso de analgésicos opioides e a necessidade de encaminhar pacientes repetidamente ao centro cirúrgico para a troca dos curativos.
Com a produção em escala industrial, os responsáveis pelo projeto pretendem ampliar o acesso à tecnologia e atender parte da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS).
A nova fábrica também deverá utilizar a liofilização para conservar a pele processada. O procedimento consiste na retirada de água do material, permitindo seu armazenamento sem refrigeração.
A previsão é de que o produto tenha validade de até três anos quando mantido em temperatura ambiente. Antes da aplicação, o profissional de saúde deverá reidratar a pele utilizando solução fisiológica.
O método de conservação pode facilitar o armazenamento e o transporte do material para regiões distantes dos centros de produção e permitir a distribuição para outros países.
Segundo os responsáveis pelo projeto, México, Turquia e Portugal já demonstraram interesse na tecnologia para pesquisas e futuras aplicações.
A fábrica será construída em Jaguaribara devido à proximidade com o Açude Castanhão, região de produção de tilápia no Ceará. A localização deve facilitar o acesso à matéria-prima utilizada na produção dos curativos.
O projeto prevê o aproveitamento da pele do peixe, que normalmente é descartada pela indústria, para a fabricação do material destinado à área da saúde.
A estimativa inicial é de que a unidade gere 200 empregos diretos. Parte dos trabalhadores deverá receber capacitação técnica com participação da UFC e de instituições parceiras.
O uso da pele de tilápia no tratamento de queimaduras começou a ser pesquisado pela UFC e passou por etapas de desenvolvimento até chegar à utilização como curativo biológico.
A construção da fábrica representa uma nova fase do projeto, com a ampliação da capacidade de processamento e a possibilidade de produção em escala industrial.
Enquanto a unidade cearense será destinada à produção do material para uso médico, o procedimento realizado pelo veterinário de Piracicaba demonstra outra possibilidade de aplicação da tecnologia. No caso de Kalandugui, a pele de tilápia foi utilizada para auxiliar na cicatrização das lesões nas orelhas da tigresa.
A utilização do material em diferentes áreas depende das características da lesão, da região do corpo e da avaliação dos profissionais responsáveis pelo tratamento.