As férias escolares de julho terminaram, mas o debate sobre a duração dos períodos de descanso continua, especialmente com a proximidade das férias de verão -- já estamos em agosto. Enquanto algumas redes públicas reduziram o recesso de meio de ano, especialistas alertam que o descanso também tem papel importante na saúde mental e no desenvolvimento de crianças e adolescentes.
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Neste ano, ao menos quatro grandes redes estaduais diminuíram as férias de julho. No Rio Grande do Sul, o período caiu para sete dias; no Espírito Santo, para 10; no Paraná, para 16; e em São Paulo, para 17 dias. Na capital paulista, a rede municipal reduziu o recesso de 30 para 15 dias.
A mudança é justificada pelas redes de ensino como meio de garantir continuidade das aulas e reduzir possíveis perdas de aprendizagem. Pesquisadores e educadores, porém, questionam a redução dos períodos de descanso e apontam a pressão crescente para que a escola funcione sob a lógica permanente de produtividade.
"A conta sobra para a escola. Ela não pode parar, porque senão os pais, sobretudo as mães, não vão ter com quem deixar os filhos", afirma a educadora e pesquisadora Lo-Ruama Bastos à Folhapress. Segundo ela, a redução do descanso também afeta estudantes e professores.
"A retirada do descanso torna a escola exaustiva. Não só para os professores, mas também para os alunos. Isso prejudica o aprendizado e o desenvolvimento da criança, que também precisa de outros espaços e estímulos para crescer."
A questão das férias e rotina escolar também tem a ver com saúde mental. Para o psiquiatra Rodrigo Gasparini, diretor médico da Instituição Francisca Júlia, em São José dos Campos (SP), a rotina escolar exerce funções que não se limitam às atividades pedagógicas.
"A estrutura escolar, mesmo que imperfeita, organiza o cérebro em desenvolvimento. Ela regula o sono, estabelece vínculos sociais, dá sentido à rotina. Quando essa estrutura some de uma vez, especialmente em um adolescente que já carrega ansiedade ou depressão, o impacto pode ser imediato. O que os pais enxergam como preguiça ou mau humor, muitas vezes é um sinal clínico que precisa de atenção", explica.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE em março de 2026, mostram que três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmam se sentir tristes na maioria dos dias. Outros 42,9% relatam irritação, nervosismo ou mau humor frequentes, enquanto 18,5% dizem pensar regularmente que a vida não vale a pena. O levantamento ouviu 118.099 adolescentes de 4.167 escolas públicas e privadas.
O fim das férias não significa que toda alteração de comportamento durante o recesso seja sinal de problema. Dormir mais, ficar em casa e reduzir o ritmo são comportamentos esperados. A preocupação surge quando as mudanças são intensas, persistem por semanas ou comprometem a rotina familiar e os vínculos sociais.
"A criança que quer dormir um pouco mais, descansar e ficar em casa está dentro do normal. O problema começa quando isso se prolonga por semanas, quando o filho perde o interesse em absolutamente tudo que antes gostava, quando o isolamento passa a ser a regra e não a exceção. Esses são sinais que precisam ser levados a sério — e não deixados para 'ver se melhora quando a escola voltar'", orienta o psicólogo Enéias Amorim.
Entre os sinais que merecem atenção estão irritabilidade persistente, crises de choro, isolamento, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações importantes no sono ou no apetite, preocupação excessiva, medos desproporcionais, queda de energia, dificuldade de concentração e queixas físicas recorrentes, como dores de cabeça e de barriga sem causa clínica identificada.
O uso de telas também pode virar problema quando substitui outros tipos de interação ou funciona como principal mecanismo de regulação emocional.
"Quando a tela vira a única forma de interação social, de ocupação do tempo e de regulação emocional, ela começa a ampliar o que já estava fragilizado. O adolescente que usa o celular para escapar de qualquer forma de contato real, que sente angústia quando não tem acesso, que perde o sono sistematicamente por causa das redes — esse jovem precisa de uma avaliação profissional", avalia Amorim.
A discussão sobre a duração das férias também envolve aprendizagem. Estudos internacionais identificam o chamado "summer slide", perda de conhecimentos durante períodos prolongados sem aulas, com impacto maior entre estudantes de menor nível socioeconômico. À Folhapress, o professor de neurociências da Universidade Federal Fluminense (UFF), Julio Santos, afirma que não há estudo brasileiro robusto para medir esse efeito no país.
"Quando falamos em educação, nunca podemos retirar o aspecto socioeconômico. Então, essa análise faz sentido para o nosso contexto. Imagine que temos uma parcela pequena de crianças que vai viajar, conhecer novos lugares, culturas, ter outras experiências. Elas vão ampliar o conhecimento de mundo. Já uma parcela grande vai ficar em casa, com interações sociais reduzidas e sem estímulo. De fato, isso amplia desigualdades."
Para Santos, reduzir as férias não resolve o problema da aprendizagem e ainda pode aumentar a sobrecarga dos professores.
"A redução das férias aumenta ainda mais a sobrecarga dos professores, retira um período em que eles poderiam repousar e cuidar da saúde mental para voltar mais descansados para o segundo semestre. Professores exaustos, doentes e sobrecarregados não têm as melhores condições de ensinar. A política pública precisa olhar para isso, não adianta exigir produtividade sem dar condições adequadas para a aprendizagem."
Com a retomada das aulas, Gasparini recomenda que as famílias mantenham rotina equilibrada e preservem momentos de descanso e convivência, inclusive nos próximos períodos de férias.
"Não é necessário uma programação intensa. Mas manter horários próximos aos da escola, garantir atividade física, preservar os vínculos sociais presenciais e ter pelo menos um momento de conversa diária — sem cobranças — faz diferença clínica real", afirma.
A orientação é procurar avaliação profissional quando alterações importantes persistirem por mais de duas semanas ou provocarem sofrimento significativo. Em situações de crise aguda, com risco imediato à própria segurança, a recomendação é buscar atendimento de emergência.
"A família frequentemente espera o quadro piorar muito antes de buscar ajuda. Mas transtornos que são tratados no início respondem melhor ao tratamento, com menos sofrimento e em menos tempo.", reforça Gasparini.
Com informações da Folhapress.