O crescimento acelerado das apostas online no Brasil já movimenta mais de R$ 30 bilhões por mês e vem acompanhado de um agravamento nas condições financeiras das famílias. Embora o número total de endividados não tenha avançado de forma significativa, aumentou o contingente de brasileiros que não conseguem quitar dívidas e permanecem por mais tempo em atraso.
A constatação faz parte de um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC), com base na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, que analisou dados entre maio de 2021 e março de 2026. O levantamento foi apresentado nesta terça-feira (28), em Brasília.
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Os dados indicam uma mudança no perfil do endividamento no país. Em vez de ampliar o número de devedores, o avanço das bets tem aprofundado a gravidade das dívidas existentes. O principal impacto foi registrado na chamada inadimplência severa, que reúne famílias sem condições de pagar suas contas.
Outro sinal de alerta está no aumento contínuo do tempo médio de atraso, o que sugere dificuldades prolongadas para reorganizar o orçamento. Esse movimento ocorre mesmo em um contexto econômico considerado mais favorável, com queda do desemprego, inflação controlada e maior acesso ao crédito.
A leitura do estudo aponta que parte da renda disponível tem sido direcionada às apostas, reduzindo a capacidade de honrar compromissos financeiros já assumidos.
O impacto é mais evidente entre homens, pessoas com mais de 35 anos e famílias de baixa renda. Ainda assim, o estudo chama atenção para o avanço da inadimplência entre pessoas com maior escolaridade, possivelmente relacionado ao maior acesso a plataformas digitais e linhas de crédito.
Nas classes de renda mais alta, houve redução no endividamento total, mas aumento nos atrasos, o que indica uma possível mudança na destinação dos recursos, com maior participação das apostas.
Um recorte do Distrito Federal reforça essa tendência. Pesquisa do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) aponta que 35% da população realizou algum tipo de aposta nos últimos 12 meses, com maior presença entre pessoas de renda média-baixa e baixa. Os valores apostados variam, mas uma parcela relevante ultrapassa R$ 100 mensais, e quase 10% superam os R$ 500.
Diante desse cenário, o estudo da CNC recomenda medidas como maior regulação da publicidade das plataformas, fortalecimento da proteção ao consumidor e ampliação de iniciativas de educação financeira. A avaliação é de que o avanço das apostas online já se configura como um desafio econômico e social no país.