O colágeno se tornou um dos termos mais repetidos quando o assunto é saúde da pele, envelhecimento e bem-estar. Presente em suplementos, cosméticos e procedimentos estéticos, ele é frequentemente associado à ideia de rejuvenescimento. Mas, afinal, qual é o real papel do colágeno no organismo e até que ponto as promessas do mercado encontram respaldo científico?
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Ao longo da vida adulta, a pele passa por um processo silencioso de desaceleração biológica. A partir da terceira década, as células responsáveis pela produção de colágeno tornam-se progressivamente menos eficientes, enquanto estímulos externos intensificam os mecanismos de degradação dessa proteína. Esse desequilíbrio entre menor produção e maior destruição compromete a sustentação da pele e marca o início visível do envelhecimento cutâneo, explica a dermatologista Dra. Alessandra Montemor, especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Como consequência, surgem alterações como flacidez, linhas e rugas, afinamento da pele e perda de luminosidade. Segundo a médica, embora exista um componente genético envolvido, o principal fator de aceleração desse processo está relacionado ao estilo de vida. “A exposição solar sem proteção, a alimentação rica em açúcares e ultraprocessados, o tabagismo, o consumo excessivo de álcool, o estresse persistente, noites mal dormidas e o sedentarismo mantêm o organismo em estado inflamatório contínuo, favorecendo o estresse oxidativo e a quebra das fibras de colágeno”, afirma.
Para a especialista, envelhecer é um processo natural, mas a velocidade com que isso acontece pode ser influenciada. “Envelhecer é inevitável. Envelhecer de forma acelerada é, em grande parte, consequência de escolhas diárias”, conclui.
Para a dermatologista Lígia Meneghetti Cruz, também especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, a queda na produção de colágeno ocorre de forma gradual (cerca de 1% ao ano) e pode ser acelerada por fatores externos, como sol sem proteção, poluição e hábitos pouco saudáveis.
Quando o assunto é reposição, Lígia ressalta que os benefícios existem, mas não são milagrosos. “Há estudos que mostram efeitos positivos, principalmente em hidratação e elasticidade da pele, mas os resultados são modestos, variam entre indivíduos e ainda não há consenso absoluto”, explica.
Ela destaca que procedimentos dermatológicos como laser fracionado, ultrassom microfocado e peelings profundos têm respaldo científico mais consistente quando o objetivo é estimular a produção de colágeno. Já em relação aos produtos tópicos, a médica alerta que cremes com colágeno dificilmente atingem camadas profundas da pele, atuando mais como hidratantes do que como estimuladores reais da síntese da proteína.
Do ponto de vista nutricional, a ideia de que o colágeno ingerido é absorvido diretamente pela pele merece cautela. A nutricionista Bianca Lovadini explica que, após a ingestão, o colágeno é digerido como qualquer outra proteína, sendo quebrado em aminoácidos e pequenos peptídeos. “Isso não significa incorporação direta do colágeno à pele, articulações ou ossos, mas sim a oferta de substratos que o organismo utiliza conforme suas necessidades metabólicas”, afirma.
Segundo ela, em pessoas sem deficiências nutricionais, uma alimentação equilibrada é suficiente para sustentar a produção natural de colágeno. Proteína adequada, vitamina C e minerais como zinco e cobre são fundamentais nesse processo. “O contexto alimentar e metabólico do paciente continua sendo o principal determinante”, reforça.
A suplementação pode ter indicação em situações específicas, como saúde articular ou alguns quadros relacionados à pele, mas os efeitos costumam ser discretos. Bianca destaca que, fora desses contextos, o impacto tende a ser pequeno e não substitui estratégias com melhor respaldo científico, como exercício físico, cuidados dermatológicos e hábitos de vida saudáveis. “Mais importante do que escolher o tipo de colágeno é olhar para o conjunto: alimentação, sono, atividade física e manejo do estresse” conclui.