A canonização de Irmã Dulce dos Pobres, em 13 de outubro de 2019, marcou um momento histórico para a Igreja Católica no Brasil: ela tornou-se a primeira santa nascida no país. O processo que culminou na proclamação no Vaticano foi relativamente ágil para os padrões romanos — cerca de 27 anos após seu falecimento, em 1992 — e teve como base dois episódios extraordinários que a Santa Sé avaliou como milagres.
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O caso que confirmou a canonização envolveu o maestro salvadorenho José Maurício Moreira. Anos após perder totalmente a visão do olho direito e metade da visão do esquerdo por glaucoma, ele recorreu à oração pela intercessão de Irmã Dulce. Catorze anos depois da cegueira, e após uma crise de conjuntivite, acordou com a visão completamente restabelecida. A recuperação foi considerada sem explicação científica satisfatória por especialistas convocados pelo Vaticano e foi aceita como milagre em 2019, abrindo caminho para a declaração de santidade.
O primeiro episódio atribuído à intercessão da religiosa remonta a 2001, em Malhador (Sergipe). A professora Cláudia Cristina dos Santos sofreu hemorragia obstétrica severa após o parto e passou por várias intervenções cirúrgicas — sem sucesso em estancar o sangramento. Depois de horas de tratamento e da mobilização por orações direcionadas a Irmã Dulce, a hemorragia cessou de forma inesperada. Peritos da Arquidiocese de Salvador e da Congregação para as Causas dos Santos em Roma concluíram que o caso não tinha explicação médica plausível, fato que foi reconhecido oficialmente em 2011 e permitiu a beatificação da religiosa.
Ambos os episódios passaram por investigação médica rigorosa e exame teológico, conforme os critérios adotados pelo Vaticano para validar intervenções consideradas miraculosas. A comprovação desses dois eventos foi determinante para que Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, nascida na Bahia, recebesse o título de Santa Dulce dos Pobres.
Além dos milagres, o reconhecimento público da santidade reforçou o valor social da obra que ela fundou. As Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador, continuam sendo um legado vivo: hospitais, serviços assistenciais e ações sociais que acolhem milhares de pessoas diariamente e mantêm viva a missão de cuidado com os mais vulneráveis, traço central da vida e da memória da santa baiana.
A rápida tramitação do processo, os dois casos analisados e o impacto continuado das instituições que levam seu nome consolidam Irmã Dulce como referência de caridade e devoção no Brasil e no exterior.