O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, incluiu na primeira proposta de acordo comercial apresentada ao Brasil após o tarifaço de 50%, aplicado em 2025, uma exigência para que companhias aéreas brasileiras comprassem aeronaves comerciais fabricadas nos Estados Unidos pela Boeing. Caso fosse acatada, a exigência poderia prejudicar a Embraer, que vem aumentando a venda de jatos comerciais para companhias brasileiras.
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A demanda fazia parte de uma lista com 21 pontos apresentada por negociadores americanos em outubro de 2025, durante uma missão do governo brasileiro a Washington.
O documento previa que empresas aéreas do Brasil se comprometessem a adquirir aviões produzidos nos Estados Unidos, incluindo anúncios de intenção de compra de aeronaves da Boeing.
A quantidade de aviões não havia sido definida no rascunho. O número aparecia entre colchetes no documento porque ainda seria negociado entre os dois governos. A proposta fazia parte de uma minuta de declaração conjunta sobre as relações econômicas e de segurança entre Brasil e Estados Unidos.
O conteúdo foi obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo, que informou ter confirmado a autenticidade do documento com integrantes do governo brasileiro envolvidos nas negociações.
Embora a negociação ocorresse entre os governos, a compra prevista seria realizada por empresas privadas brasileiras. Na prática, a medida poderia direcionar parte das futuras encomendas das companhias aéreas brasileiras para a Boeing, concorrente da Embraer em segmentos da aviação.
Durante as discussões, chegou a ser considerada uma meta de compras brasileiras de produtos americanos. Um documento interno do governo brasileiro, produzido em setembro de 2025, projetava uma possível encomenda de 90 aeronaves dos Estados Unidos.
A proposta americana foi apresentada em 16 de outubro de 2025, antes de reuniões do então chanceler Mauro Vieira com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
Segundo integrantes do Itamaraty ouvidos pelo Estadão, Vieira rejeitou os termos apresentados e determinou que a equipe brasileira informasse aos negociadores americanos que aquelas condições não seriam levadas adiante naquela etapa.
A pressão por compras de aeronaves americanas chama atenção pelo peso que os Estados Unidos têm para a Embraer, empresa com sede em São José dos Campos e uma das principais fabricantes de aviões comerciais do mundo.
O mercado americano é especialmente importante para os jatos comerciais da companhia. O E175, por exemplo, tornou-se um dos principais modelos utilizados na aviação regional dos Estados Unidos.
A própria Embraer destaca sua posição como líder mundial na fabricação de jatos comerciais de até 150 lugares. Desde 1969, a empresa já entregou mais de 9 mil aeronaves e mantém operações e estruturas de atendimento em diferentes regiões do mundo.
A importância do mercado americano também aparece na carteira histórica de encomendas da fabricante. Dados de pedidos e entregas da empresa mostram a forte presença de companhias e operadores dos Estados Unidos entre os clientes dos E-Jets.
Além disso, o mercado norte-americano é estratégico para o crescimento futuro da fabricante. Em seu relatório de perspectivas divulgado em julho de 2026, a Embraer estimou uma demanda global de 8.500 aeronaves de até 150 assentos até 2045, com valor potencial de US$ 650 bilhões. A América do Norte aparece como a região com previsão de maior volume de entregas.
Entre as principais companhias aéreas brasileiras, Gol e Latam utilizam aeronaves Boeing. A Gol possui uma frota fortemente concentrada nos modelos 737, enquanto a Latam utiliza aeronaves da fabricante americana principalmente em operações internacionais.
A Azul, por outro lado, não possui aviões Boeing em sua frota e tem utilizado aeronaves da Embraer em suas operações domésticas. Recentemente, Gol e Latam também anunciaram encomendas de jatos da fabricante brasileira, movimento celebrado pelo governo Lula.
Em 2 de setembro, em São José dos Campos, a Embraer entregou o seu 2.000º E-Jet (jato comercial). A aeronave, um E195-E2, foi entregue à Azul, que já operou mais de 140 E-Jets da Embraer desde o início das operações das aeronaves, em 2008.
A entrega fez parte de um contrato que foi renegociado entre Embraer e Azul. O contrato original, firmado entre 2014 e 2018, previa a aquisição de 51 aeronaves E195-E2 pela companhia aérea brasileira. O número foi reduzido para 25 e integrou o plano de recuperação da Azul no processo de Chapter 11, que tramita no United States Bankruptcy Court of the Southern District of New York.
A Gol informou em 2025 que tinha 91 pedidos firmes de Boeing 737 MAX. A Latam, por sua vez, recebeu dois Boeing 787-9 no primeiro semestre daquele ano e tinha previsão de novas entregas.
Meses depois, uma segunda proposta americana voltou a tratar do setor aeroespacial. Em documento enviado em 9 de janeiro de 2026, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) pediu que o Brasil removesse barreiras tarifárias e não tarifárias à venda de jatos executivos americanos no país.
O setor aeroespacial aparecia entre os itens considerados prioritários pelos Estados Unidos para um eventual acordo comercial de curto prazo.
A nova proposta veio acompanhada de uma carta de Jamieson Greer a Mauro Vieira. O representante comercial americano reclamava da falta de avanço nas negociações e defendia maior abertura do mercado brasileiro para empresas dos Estados Unidos.
A disputa comercial entre os dois países passou por novas mudanças ao longo de 2026. Após decisões judiciais nos Estados Unidos relacionadas ao tarifaço lançado contra diversos países, o governo Trump anunciou novas sobretaxas sobre produtos brasileiros.
As negociações entre Brasil e Estados Unidos continuaram ao longo do ano, com novas discussões previstas entre representantes dos dois países.
Para a Embraer, o relacionamento com os Estados Unidos permanece estratégico. A companhia fechou o segundo trimestre de 2026 com uma carteira de pedidos recorde de US$ 34,5 bilhões, sendo US$ 15,1 bilhões apenas na aviação comercial. O valor total representou o sétimo recorde consecutivo da carteira da empresa.
* Com informações do jornal O Estado de S. Paulo