09 de setembro de 2026
AÇÃO DE IMPROBIDADE

Candidato a presidente da República é réu em ação em Taubaté

Por Julio Codazzi | Taubaté
| Tempo de leitura: 8 min
Montagem feita com fotos de Divulgação/PMT e das redes sociais de Wilson Grassi
Wilson Grassi é apontado pelo MP como pivô de esquema de desvio de recursos públicos no Hospital Público Veterinário de Taubaté; em 20 anos, candidato ao Planalto teve evolução patrimonial de 199.900%

Candidato à presidência da República pelo partido Democrata (antigo Partido da Mulher Brasileira), o veterinário Wilson Grassi Júnior é réu por improbidade administrativa em uma ação relacionada ao contrato do Hospital Público Veterinário de Taubaté, que funcionou na cidade entre maio de 2022 e junho de 2026.

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Na ação, ajuizada pelo Ministério Público em 2025 e que tramita em segredo de justiça, o veterinário é apontado como pivô de um sofisticado esquema de desvio de recursos públicos, que teria sido colocado em prática na execução do contrato entre a Prefeitura de Taubaté e a Anclivepa (Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais), que manteve o hospital veterinário do município ao longo dos quatro anos de funcionamento da unidade.

Em meio a esse processo, desde dezembro de 2025, Wilson Grassi, a Anclivepa e mais sete empresas rés - que são ligadas ao veterinário e a outros dirigentes da associação - estão com os bens bloqueados pela Justiça. Em 2026, à Justiça Eleitoral, Grassi declarou ter R$ 50 milhões em bens - uma evolução patrimonial de 199.900% em 20 anos (leia mais abaixo).

Ação aponta superfaturamento e desvio de recursos públicos

O contrato entre a Prefeitura de Taubaté e a Anclivepa começou a ser investigado pelo MP em 2024. Na ação, ajuizada em 2025, a Promotoria aponta que houve irregularidade no processo de escolha da entidade, que foi feito em 2022, na gestão do ex-prefeito José Saud (PP), que não é réu.

O MP aponta, por exemplo, que houve falta de estudos preliminares idôneos para justificar a quantidade estimada de procedimentos e serviços veterinários contratados. Além disso, na fase de elaboração do edital, a Prefeitura solicitou orçamentos para três entidades que tinham um dirigente em comum, Wilson Grassi: o veterinário era diretor administrativo-financeiro da Anclivepa e presidente da SPMV (Sociedade Paulista de Medicina Veterinária), e o Centro Veterinário Zona Leste estava registrado no e-mail dele.

Na ação, a Promotoria aponta supostas irregularidades como fraudes no chamamento público que resultou na contratação da Anclivepa, superfaturamento, desvio de recursos públicos, quarteirização ilícita (com a subcontratação de empresas ligadas a Grassi e outros dirigentes da Anclivepa), remanejamento irregular de despesas e indícios de ocultação patrimonial. O MP cita que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) classificou a Anclivepa como de risco máximo para lavagem de dinheiro, com movimentações vultosas em previdência privada.

Veterinário teve bens bloqueados pelo TJ no fim de 2025

Em primeira instância, a Justiça chegou a negar o pedido de bloqueio dos bens dos réus, mas o MP recorreu e a indisponibilidade patrimonial foi determinada pelo Tribunal de Justiça em dezembro de 2025.

Na decisão, à qual a reportagem obteve acesso, o desembargador Borelli Thomaz, relator do processo na 13ª Câmara de Direito Público do TJ, afirmou que "a prova documental acostada aos autos de que este recurso deriva acena, fortemente, para irregularidades no processo de escolha e celebração do termo de colaboração" com a Anclivepa, "bem como na existência de suposto vínculo entre as três empresas que apresentaram os orçamentos".

Para justificar o bloqueio de bens, o relator também citou apontamentos feitos pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado), que identificou "diversas violações ao princípio da economicidade".

Decisão do tribunal também suspendeu parte dos repasses

Na mesma decisão, em dezembro de 2025, o TJ determinou que a Prefeitura suspendesse os repasses destinados aos custos indiretos do contrato. Essas despesas, segundo o MP, eram comprovadamente desnecessárias e consistiam no núcleo das irregularidades.

Segundo o plano de trabalho da Anclivepa, os custos indiretos representavam R$ 24,5 mil dos R$ 284 mil que a entidade recebia por mês da Prefeitura.

Os custos indiretos englobavam despesas de gestão operacional, contábil, jurídica e administrativa, além de gestão de compras e prestação de contas.

Contrato foi considerado irregular pelo Tribunal de Contas

Em agosto de 2026, o TCE julgou irregular o contrato entre Prefeitura de Taubaté e Anclivepa, firmado em maio de 2022, por R$ 3,415 milhões ao ano, e determinou que a entidade devolvesse R$ 94,9 mil ao município - esse montante é a diferença entre o valor do contrato e o valor da cotação apresentada pela Anclivepa na fase de orçamentos (R$ 3,32 milhões).

Além dessa irregularidade (a Anclivepa ter sido contratada por valor superior ao apresentado na etapa de orçamentos), o TCE apontou outras falhas como elevada proporção entre os custos totais e os salários individuais dos funcionários, e falta de comprovação dos fatores que levaram à desclassificação da única concorrente da Anclivepa no chamamento público de 2022, o GKC (Guaratinguetá Kennel Clube) - o GKC, aliás, administra a Clínica Veterinária Pública de Taubaté, que foi inaugurada em junho de 2026, em substituição ao Hospital Público Veterinário de Taubaté.

Na sentença, o auditor Alexandre Manir Figueiredo Sarquis também citou o vínculo de Wilson Grassi com as três empresas que forneceram orçamentos na fase de elaboração de edital, e afirmou que os três orçamentos foram "muito semelhantes em quantidade, variedade de serviços prestados e preços, o que suscita a coordenação na elaboração dos documentos".

Em 20 anos, Grassi teve evolução patrimonial de 199.900%

Com registro ativo no CRMV-SP (Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo) desde 1995, Wilson Grassi Júnior foi assessor parlamentar na Câmara de São Paulo entre 2008 e 2012, no gabinete do vereador Roberto Tripoli (PV). Deixou o Legislativo após a Anclivepa, da qual já fazia parte, ser contratada pela Prefeitura de São Paulo para implantar no bairro do Tatuapé o primeiro hospital público veterinário do país.

Wilson Grassi disputou quatro eleições: a primeira em 2006, a deputado estadual, pelo antigo PFL (atual União Brasil); a segunda em 2022, a deputado federal, pelo PV; a terceira em 2024, a vereador em São Paulo, pelo PRTB; e a quarta esse ano, a presidente da República, pelo Democrata.

Na primeira eleição, em 2006, declarou patrimônio de R$ 25 mil (dois veículos). Em 2022, de R$ 9 milhões (sem detalhar). Em 2024, de R$ 24,6 milhões (três motos, um carro, uma aeronave, sete imóveis e participações em empresas). Em 2026, de R$ 50 milhões (entre bens imóveis e participações societárias, mas sem detalhar). Ou seja, entre 2006 e 2026, a evolução patrimonial foi de 199.900%.

Veterinário nega irregularidade e diz que se defenderá nos processos

Questionada pela reportagem, a defesa de Wilson Grassi afirmou que "tanto a ação proposta pelo Ministério Público quanto a decisão proferida no âmbito do Tribunal de Contas serão enfrentadas pelos meios processuais adequados, com a apresentação de todos os esclarecimentos, documentos e recursos cabíveis".

"A defesa de Wilson Grassi reforça a absoluta lisura de suas condutas em todas as instâncias públicas e tem a certeza de que a Justiça, no momento adequado e após o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa, reconhecerá a inexistência de qualquer ilicitude de sua parte nos fatos discutidos".

A defesa do veterinário afirmou ainda que, "por respeito às instituições e aos processos em andamento, eventuais manifestações adicionais serão apresentadas nos autos, que são o espaço adequado para que sejam estabelecidas essas discussões".

Anclivepa não se pronuncia

A Anclivepa foi procurada pela reportagem nos últimos dias, mas não respondeu às tentativas de contato feitas por telefone, mensagem e e-mail. A advogada que representa a entidade no processo movido pelo MP afirmou que não tem autorização para falar em nome da empresa.

Ao TCE, a Anclivepa alegou que Wilson Grassi deixou a associação em abril de 2022 e que o contrato foi prorrogado anualmente pela Prefeitura sem apontamento de irregularidades por parte do município.

Também ao TCE, a Anclivepa alegou que caberia à Prefeitura se manifestar sobre os critérios adotados para definir quais empresas seriam consultadas na etapa do orçamento prévio.

Ao TCE, Saud defendeu contratação; governo Sérgio diz ter tomado providências cabíveis

O contrato com a Anclivepa foi firmado em 2022, no governo Saud, e encerrado em junho de 2026. Em junho do ano passado, já na gestão do prefeito Sérgio Victor (Novo), foi feita a última prorrogação, por mais 12 meses. Tanto o contrato quanto os aditivos feitos em 2023, 2024 e 2025 foram considerados irregulares pelo TCE, mas Saud e Sérgio não receberam nenhuma punição do Tribunal de Contas e não são réus na ação do MP.

À reportagem, Saud disse desconhecer qualquer apontamento de irregularidade que tenha sido feito durante a gestão dele sobre o contrato. Ao TCE, o ex-prefeito negou qualquer ilegalidade no chamamento público de 2022 que resultou na contratação da Anclivepa.

Questionada pela reportagem sobre a ação movida pelo Ministério Público, a Prefeitura, que desde janeiro de 2025 é comandada por Sérgio, afirmou que "vem prestando todas as informações e adotando as providências determinadas no processo", e que cumpriu a decisão do TJ, "com a suspensão dos repasses correspondentes aos custos indiretos a partir do pagamento de janeiro de 2026".

A Prefeitura alegou ainda que na prorrogação feita pela atual administração, em junho de 2025, "havia questionamentos e apurações relacionados à parceria, mas as alegações de quarteirização e demais irregularidades ainda não haviam sido definitivamente reconhecidas pelo Poder Judiciário". E que, "posteriormente, diante das determinações judiciais e dos elementos apresentados nos processos de controle e investigação, a Prefeitura adotou as providências cabíveis", incluindo "a instauração de procedimento administrativo para apuração dos fatos".

Sobre a decisão do TCE, o governo Sérgio afirmou que "respeita as decisões dos órgãos de controle e adotará as providências cabíveis no âmbito de sua competência", e que "realizou novo chamamento público para a gestão do serviço", que foi vencido pelo GKC, "com critérios objetivos de seleção, ampliação da transparência e comissão de seleção composta exclusivamente por médicos-veterinários concursados do município".