Verso.
José Guilherme Ferreira era um mestre do verso.
Poeta, escritor, jornalista e artista plástico. Transformava tudo o que fazia em arte.
Talvez por isso, mesmo aos 67 anos, mantinha os olhos de menino arteiro, capaz de enxergar além do que se vê.
Após a sua repentina partida, recebeu muitas e justas homenagens. Quase tudo já foi dito sobre este maestro. Quaaaase tudo...
No verso do poeta, Zé escondia uma identidade secreta.
Por trás daquele elegante senhor com cabelos brancos e passos suaves, havia um super-herói.
Era um pássaro? Um avião? Não. Mas quem era, afinal? Extra! Extra! Extra! No verso do poeta, Zé era o Super-Carteiro!
Anonimamente, com letras mágicas e cores de arco-íris, fazia do amor ao próximo o seu superpoder, capaz de derrotar qualquer kryptonita.
Um pedaço de papel colorido e carregado de palavras e significados era capaz de amolecer até o mais rochoso dos corações.
E eu juro de pés juntos: tenho provas.
Discretamente, Zé integrava o projeto Cartas Perdidas, que leva mensagens para asilos, hospitais, abrigos e pessoas que precisavam de carinho em São José dos Campos e região.
E nós tínhamos um combinado: eu repassava a ele a missão de escrever as cartas mais difíceis -- e ele adorava o desafio.
Uma dessas missões tinha nome: Seu Luiz.
Morador de um asilo que odiava as cartas e só queria assistir TV. "Cartas? É uma bobagem", dizia ele, cuspindo marimbondos.
Definitivamente, era um trabalho para o Super-Carteiro. E ele caprichou.
Zé construiu um televisor de papel, com direito a um envelope com um kit emergência, que trazia um Bombril para sintonizar melhor.
A cada página, a programação da TV de papel mudava, assim como o semblante do Seu Luiz, encantado com aquele noticiário de fantasia.
O endurecido coração de Seu Luiz amoleceu. E ele, agora, mostrava a carta orgulhoso.
Nas visitas, se tornou o primeiro a perguntar: "Onde está a minha carta? Não esqueçam a minha carta".
Houve uma ocasião em que o próprio Zé escolheu o destinatário. "Posso escrever uma carta para o Seu Antônio?"
Tratava-se de um senhor com traços orientais, com mais de 90 anos, e que havia sido fotógrafo de casamentos por muitos e muitos anos.
Por conta da idade, infelizmente, Seu Antônio já quase não enxergava mais. Além de escrever a carta, Zé fez questão de ir entregá-la -- e aquela foi a única vez.
Desta vez, a carta era preta e branca, já que o destinatário pouco conseguia ver. No entanto, no verso, trazia um arco-íris.
Zé sentou-se ao lado de Seu Antônio, leu a carta, contando que também já havia fotografado muito, e entregou uma caixa. Mas o que tinha nela?
Eram rolos de filme, câmeras antigas, um velho crachá, negativos... objetos que Seu Antônio manuseava, recordando-se dos tempos de fotógrafo.
Ele, que pouco falava, desembestou a contar suas memórias vívidas, em full color.
Ao nos despedirmos, Zé fez ainda um pedido: queria a ajuda de Seu Antônio, para tirarem juntos uma foto com o celular.
A primeira foto digital de Seu Antônio deixou revelada a digital do Super-Carteiro --uma fresta de luz contra a escuridão.
Certa vez, Zé vestiu outro uniforme: o de Super-Homem.
A missão? Escrever uma carta para o menino Lucas, que vivia em um abrigo de São José dos Campos.
Ele, então, encarnou Clark Kent e criou (mais) uma obra de arte, com uma cartinha repleta de desenhos, cores e uma surpresa: em um envelope extra.
Dentro do envelope extra havia um superpoder invisível. Qual? Amor. Um poder capaz de enfrentar qualquer vilão. Ao ler a mensagem, Lucas parecia até voar.
Tempos depois, o Super-Carteiro tocou o coração de médicos e enfermeiras ao escrever uma carta-agradecimento (acima) em nome do paciente impaciente. O amor é mesmo o melhor remédio.
Eu avisei, no verso do poeta, Zé escondia uma identidade secreta. Porém, certo dia, lendo suas cartas, compreendi que Zé não era um carteiro -- ele era a mensagem.
De fé, esperança e amor.
Nota de rodapé.
Três meses antes de falecer, Zé me deu o privilégio de escrever o prefácio de meu próximo livro, que será lançado ainda este ano. Nos cruzamos rapidamente, algumas vezes, e ele me cobrou: "agora temos que marcar um café".
Não deu.
Às vezes vamos deixando as coisas para depois e depois e depois... com uma crença estúpida de que há tempo para tudo. A vida é mesmo um laguinho à beira de um haicai. Hoje entendo que o segredo do Super-Carteiro era saber o CEP do coração da gente.
Quando puder, escreva, carteiro. Porque no verso de cada carta, agora, há saudade.
Um abraço, meu amigo. Inté, Zé. Inté.