Um novo laudo necroscópico realizado pelo IML (Instituto Médico Legal) após a exumação do corpo da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, apontou lesões contundentes na face e na região do pescoço da vítima, encontrada morta com um tiro na cabeça em fevereiro, em São Paulo.
A reportagem de OVALE teve acesso à íntegra do laudo. A Polícia Civil avalia pedir a prisão do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, marido de Gisele. Com carreira marcada por atuação na RMVale, o oficial é nascido em Taubaté e tem um apartamento em São José dos Campos.
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O novo laudo, emitido no último sábado (7), indica que as marcas são compatíveis com pressão digital e escoriações causadas por unhas, conhecidas tecnicamente como “estigma ungueal”. O exame foi realizado um dia após a exumação do corpo da policial.
Segundo os peritos, as lesões foram registradas na face e na região cervical, o que levanta novas dúvidas sobre a dinâmica da morte. Tanto o laudo recente quanto o primeiro exame, feito em 19 de fevereiro, um dia após a morte, apontam que a causa da morte foi traumatismo cranioencefálico grave provocado por disparo de arma de fogo.
No laudo inicial já havia menção a marcas na face e no pescoço, descritas como “estigmas digitais”, caracterizadas por lesões equimóticas arredondadas compatíveis com pressão feita com os dedos. Também havia registro de lesões superficiais em formato de meia-lua, indicativas de arranhões causados por unhas.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que a autoridade policial aguarda a conclusão dos laudos relacionados à reconstituição e à exumação do corpo. Devido ao sigilo judicial, detalhes da investigação não foram divulgados.
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A Polícia Civil avalia pedir a prisão do tenente-coronel no inquérito que investiga a morte da esposa. Caso o pedido seja formalizado, caberá ao Ministério Público analisar e decidir se solicita a medida à Justiça.
Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento onde o casal morava, na zona sul de São Paulo, na manhã de 18 de fevereiro. Inicialmente, o caso foi registrado como suicídio, mas passou a ser investigado como morte suspeita após novas informações surgirem no decorrer do inquérito.
No entanto, após a família da vítima denunciar o comportamento abusivo do oficial e novas informações terem colocado em xeque a versão do marido, o caso agora é tratado como morte suspeita.
O tenente-coronel viajou para São José após a morte da esposa. A informação obtida por OVALE consta em depoimento prestado à Polícia Civil pela inspetora de condomínio Fabiana Capinan de Carvalho Pereira, que trabalhava no prédio e acompanhou parte da movimentação após o disparo.
Segundo a testemunha, o oficial permaneceu no corredor do prédio após o atendimento inicial e retornou ao apartamento para buscar pertences antes de seguir para o Vale do Paraíba.
Novas informações obtidas pela Polícia Civil e depoimentos de testemunhas implicam cada vez mais o tenente-coronel.
O depoimento de um socorrista com 15 anos de experiência também levantou dúvidas sobre a versão apresentada pelo oficial.
Segundo ele, a arma estava “bem encaixada” na mão da vítima, algo que considerou incomum em casos de suicídio. O profissional decidiu fotografar o local.
Ele afirmou ainda que o tenente-coronel estava completamente seco, sem sinais de que havia saído do banho, contrariando a versão apresentada por Neto de que a esposa teria se matado enquanto ele estava no banheiro.
O socorrista também observou que o chuveiro estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor. Além disso, o oficial não apresentava manchas de sangue, o que indicaria que não teria prestado socorro.
Outro detalhe citado foi que o quarto da suíte estava desarrumado, com objetos espalhados pelo chão, sugerindo possível embate antes do disparo.
Depoimentos de testemunhas também colocam em dúvida a sequência de fatos relatada pelo tenente-coronel.
Uma vizinha afirmou ter ouvido um estampido às 7h28. A primeira ligação do oficial à PM ocorreu apenas às 7h57, quando ele informou que a esposa havia atirado contra a própria cabeça.
Às 8h05, ele acionou o Corpo de Bombeiros dizendo que ela ainda respirava. As equipes chegaram às 8h13.
Entre as ligações feitas naquela manhã, uma chamou a atenção da família da vítima: o contato com o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O magistrado chegou ao prédio às 9h07 e subiu ao apartamento com o oficial, deixando o local cerca de 11 minutos depois.
Laudos da Polícia Científica indicaram que a cena do crime não foi preservada adequadamente, o que comprometeu parte da perícia inicial.
Em depoimento, a inspetora de condomínio relatou que três policiais militares femininas entraram no apartamento horas após a ocorrência para realizar a limpeza do imóvel.
Segundo ela, o local ainda apresentava sangue espalhado na sala, resultado das manobras de reanimação feitas pelos socorristas.
A inspetora também afirmou ter ouvido o tenente-coronel dizer que a esposa “não vai sobreviver”, enquanto equipes médicas ainda tentavam salvá-la.
Ela relatou que o oficial caminhava pelo corredor do prédio sem camisa e sem manchas de sangue quando disse que a esposa havia “se dado um tiro”.
Minutos depois, uma policial informou que Gisele ainda estava viva e recebia atendimento. Segundo o depoimento, foi nesse momento que o militar afirmou:
“Com o tiro que ela levou, não vai sobreviver”.
O caso, inicialmente registrado como possível suicídio, passou a ser tratado como morte suspeita pela Polícia Civil. A Corregedoria da Polícia Militar também abriu procedimento para apurar eventuais responsabilidades administrativas.
A família da policial contesta a versão inicial e pede que o caso seja investigado como feminicídio.
A mãe de Gisele afirmou à polícia que o relacionamento do casal era conturbado e que o oficial teria comportamento abusivo, incluindo restrições ao modo como a filha se vestia e se comportava.
A defesa do tenente-coronel afirma que ele não é investigado, suspeito ou indiciado e que tem colaborado com as autoridades.
Já a defesa do desembargador informou que ele foi ao local como amigo e que prestará esclarecimentos à polícia. Em nota, a Polícia Militar disse que acompanha as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pela Corregedoria e que tomará as medidas cabíveis caso irregularidades sejam confirmadas.
A Secretaria da Segurança Pública afirmou que todas as circunstâncias da morte da policial estão sendo apuradas.